MC preso em Fortaleza compôs música em homenagem a líder do CV no Ceará
O Diário do Nordeste teve acesso a documentos que apontam uma relação de proximidade entre o 'Mc Black da Penha' e a organização criminosa Comando Vermelho (CV), no Ceará.
Com mais de 200 mil reproduções no Spotify, a música 'Tropa do Alok', criada em homenagem a um líder do CV, foi apontada como principal motivação para a prisão de João Vitor da Costa Minervino, o 'MC Black da Penha'. O cantor veio ao estado para se apresentar em uma casa de show no bairro Bom Jardim, apontada pelas autoridades como uma "zona de influência faccionada".
Em depoimento, o MC confessou ser o compositor da letra que enaltece um homem identificado como 'Alok', apontado pela Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) como principal líder do Comando Vermelho nos bairros Bela Vista, Planalto Pici, Rodolfo Teófilo e no município de Maracanaú.
Na terça-feira (28), a prisão em flagrante do cantor foi convertida em prisão preventiva. João Vitor da Costa que é agenciado por outro cantor preso recentemente, foi capturado no último domingo (26), em um restaurante próximo ao hotel de luxo em que estava hospedado no bairro Meireles, em Fortaleza.
Segundo a PCCE, o 'MC Black da Penha' foi preso "em razão da utilização de atividade musical para a promoção ativa de organização criminosa ultraviolenta". Legalmente, ele foi autuado pelo crime de favorecimento ao domínio social estruturado - tipificado pela Nova Lei Antifacção, sancionada em 24 de março de 2026.
Em nota enviada ao Diário do Nordeste, a equipe de defesa do cantor afirmou que: "A música, especialmente aquela que nasce nas periferias, frequentemente retrata a realidade nua e crua das ruas, mas cantar sobre essa realidade não significa, de forma alguma, apoiar ou promover a criminalidade".
(Leia a nota na íntegra abaixo)
De acordo com o relatório da investigação usado na prisão do MC e obtido pela equipe de reportagem, além de compor e cantar a música em questão, ele esteve em um empreendimento conhecido por promover "festas de facções". "As investigações de inteligência demonstram que tal composição não constitui mera expressão artística, mas uma promoção direta à célula criminosa", afirma o documento sigiloso.
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Onde e o que aconteceu no show de 'MC Black da Penha'?
O show em questão foi realizado na noite do último sábado (25), no Balneário Verão Nette Drinks, localizado no bairro Bom Jardim, em Fortaleza. Segundo a Delegacia de Combate às Ações Criminosas Organizadas (Draco), a casa de shows é um "local que tem certa frequência de indivíduos ligados à facção criminosa Comando Vermelho".
A equipe de reportagem apurou que em 2023, uma ocorrência grave foi registrada no local. Dentro da Nette Drinks, a equipe tática encontrou um homem que estava foragido e respondia por crimes de receptação e formação de quadrilha. Na ocasião, ele foi capturado portando arma com numeração raspada e documento falso.
Alguns dias antes do show de 'MC Black da Penha', o evento chamado de "Black Experience" passou a ser divulgado nas redes sociais pela Nette Drinks e pela Ghetto Music - essa segunda sendo uma produtora de eventos apontada pela investigação como ferramenta de "lavagem de dinheiro do Comando Vermelho".
O sócio da Ghetto Music — produtora que auxiliou na publicidade do evento, foi preso em março de 2026, após ser apontado como líder do CV nos bairros Bom Jardim, Genibaú e Conjunto Ceará. Augosto César Moreira da Coneição, o 'Coroa' responde por crimes de homicídio, integrar organização criminosa, tráfico de drogas e associação para o tráfico.
Dentro da Ghetto, uma ocorrência de homicídio foi registrada em fevereiro de 2024. Na ocasião, um dos seguranças foi baleado ao tentar impedir o tiroteiro. Em outra situação, policiais militares apreenderam porções de ecstasy, cocaína, maconha e lança perfume na casa de show. Em denúncias anônimas, populares se referam ao empreendimento como o local onde ocorrem as "festas de facções".
Algumas horas antes do show do cantor, no sábado (25), uma nova denúncia foi feita à Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), afirmando que o evento que iria acontecer na parceira da Ghetto, a Nette Drinks, teria sido patrocinado por traficantes da localidade e que "em um último evento anterior a esse houve disparos de arma de fogo no local e uso de drogas".
A fonte anônima informou ainda que no quarteirão dos fundos do local existia uma saída de emergência por onde os criminosos fugiam quando as viaturas chegavam. "Os organizadores do evento contrataram um advogado, no valor de 4.000 reais, caso a polícia chegue ao local para encerrar o evento", encerra a denúncia.
João Vitor da Costa iniciou o show às 4 horas da manhã e afirmou em interrogatório que cantou a música "Tropa do Alok". Ainda segundo ele, a composição foi feita por ele em parceria com um DJ cearense, há cerca de cinco meses atrás. A equipe de reportagem não localizou nos créditos oficiais da música registrados em plataformas oficiais, o nome de algum cantor cearense.
"Assim que nós obtivemos a confirmação de que a música foi cantada em um evento, nós trabalhamos para desenvolver a prisão em flagrante desse indivíduo", afirmou o delegado adjunto da Draco, João Gabriel Cardoso, em coletiva de imprensa realizada na segunda-feira (27).
A música 'Tropa do Alok' é sobre quem?
A canção em ritmo de funk começou a ter "sucesso" no Ceará durante o Carnaval de 2026, sendo reproduzida em bailes, festas e em trends nas redes sociais. A "Tropa do Alok" presta homenagem a um homem identificado como Ivanildo Sousa Freitas, o 'Alok' ou 'Magneto'.
'Alok' é apontado pela PCCE como o líder do Comando Vermelho (CV) nos bairros Bela Vista, Planalto Pici, Rodolfo Teófilo e na cidade de Maracanaú. Ele tem antecedentes criminais por porte ilegal de arma de fogo, roubo a pessoa e organização criminosa.
O Diário do Nordeste apurou que 'Alok' está atualmente escondido em uma comunidade do Rio de Janeiro. De outro estado, o homem tem enviado ordens de comando do tráfico ao Ceará.
Em depoimento, o 'MC Black da Penha' negou conhecer a figura de 'Alok', e disse que só descobriu que ele era uma liderança da facção depois de cantar a música. Alguns vídeos do show postados nas redes sociais, registraram a música que segundo o cantor era "muito eesperada pelos fãs". Nas imagens, parte do público aparece fazendo o "tudo dois" ou "V" - sinal feito com as mãos e que é característico da facção Comando Vermelho, durante a música "Tropa do Alok".
"É inverossímil que um compositor dedique meses à produção de uma obra específica, mantenha interlocução com DJs locais e execute a música em áreas de domínio da facção sem compreender o significado dos termos e das figuras que exalta", afirma trecho do documento da investigação obtido pela reportagem.
Em alguns versos, a música fala sobre os bairros Bela Vista e Planalto Pici, além de citar modelos de armas e outros termos identificados como pelas autoridades como importantes para "consolidar a identidade do grupo criminoso e atrair novos adeptos".
Segundo a Draco, João Vitor da Costa Minervino também é dono de outras músicas que trazem "referências a regiões específicas e expressões que indicam alinhamento simbólico com grupos ou lideranças locais". Essas músicas que foram analisadas no relatório da Polícia Civil somam mais de 30 milhões de reproduções no Spotify.
Além da prisão, a Delegacia pediu a quebra de sigilo telemático dos dois celulares apreendidos com o cantor. O 'Mc Black da Penha' não tem antecedentes criminais e deve responder por um crime que prevê pena de reclusão de 12 a 20 anos.
Nota completa da defesa:
"Diante dos recentes acontecimentos noticiados pela imprensa citando o cantor MC BLACK DA PENHA, ressaltamos, desde ja, a absoluta inocência do nosso constituinte em relação as acusações que lhe são imputadas. A prisão em flagrante e a subsequente conversão em prisão preventiva baseiam-se em interpretações equivocadas sobre a natureza de uma manifestação estritamente cultural e artística. A execução de obras musicais em um evento não constitui, sob nenhuma ótica jurídica razoável, ato de promoção, apoio logístico ou fomento ideológico a organizações criminosas. A liberdade de expressão artística é um direito fundamental assegurado pela Constituição Federal, e a criminalização de manifestações culturais periféricas representa um perigoso precedente para o Estado Democrático de Direito.
A música, especialmente aquela que nasce nas periferias, frequentemente retrata a realidade nua e crua das ruas, mas cantar sobre essa realidade não significa, de forma alguma, apoiar ou promover a criminalidade. O palco é um espaço de arte, não de crime. Transformar um show em uma acusação criminal é um equívoco que fere não apenas um artista, mas toda uma cultura que encontra na música sua voz e sua identidade. A defesa técnica atuará de forma incisiva em todas as instâncias competentes para demonstrar a inocência do nosso constituinte. Confiamos plenamente no Poder Judiciário e no devido processo legal. Todos os esclarecimentos necessários serão prestados exclusivamente nos autos do processo, ambiente adequado para a busca da verdade real e para o exercício do contraditório e da ampla defesa. Reiteramos nosso compromisso com a justiça e a certeza de que, ao final da instrução processual, a inocência de nosso cliente restará cabalmente comprovada. Pedimos respeito a este momento e cautela nos julgamentos precipitados".