Michelle Maciel, coordenadora da Casa de Saberes Cego Aderaldo, em Quixadá, no sertão central cearense, relatou em suas redes sociais, nessa quarta-feira (10), ter sido surpreendida recentemente com uma banana acoplada ao limpador do para-brisa traseiro de seu carro. O caso foi denunciado à Polícia e é investigado como crime de injúria racial.
No relato, a gestora cultural detalha que o caso aconteceu na última quarta-feira (3) e que a fruta foi vista, inicialmente, por colegas de trabalho. "Naquele momento, não dei a devida dimensão ao que havia acontecido. Somente no dia seguinte, ao retirar o objeto, fui tomada por sentimentos de medo, insegurança, desconfiança e negação", desabafou.
À priori, ela tentou encontrar outras explicações para o fato. "Pensei que pudesse ser uma brincadeira de mau gosto, um acaso ou qualquer outra justificativa que afastasse a ideia de que alguém pudesse ter cometido um ato tão violento para me ofender e me desestabilizar. Conversando com amigos, consegui reconhecer que aquilo era, sim, uma violência racista, e que não deveria ser silenciada", narrou.
Ao Diário do Nordeste, a gestora afirmou que “esse tipo de prática é uma tentativa de desestabilizar, desqualificar". "Não foi algo sutil, foi algo escancarado”, contou ainda Michelle.
ENCORAJAR OUTRAS DENÚNCIAS
O episódio foi levado pela gestora à presidência do Instituto Dragão do Mar (IDM), que gere o equipamento cultural junto à Secretaria da Cultura (Secult-CE), e encaminhado aos órgãos de proteção competentes, como a Procuradoria Especial da Mulher, na Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), e a Delegacia de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Intolerância Religiosa ou Orientação Sexual (Decrin).
Em nota publicada nas redes sociais, o IDM repudiou a violência sofrida pela colaboradora e reforçou que o ato não pode ser tratado de maneira isolada ou naturalizada. "O racismo é crime e representa uma violação dos direitos humanos, da dignidade das pessoas e dos princípios que orientam nossa atuação profissional", escreveu a instituição.
A deputada estadual Larissa Gaspar (PT), titular da Procuradoria Especial da Mulher, também se solidarizou com Michelle e afirmou que acompanhará o caso para que os responsáveis sejam identificados e punidos. "Deixar uma banana em seu carro não é uma 'brincadeira' nem um gesto isolado. É uma violência carregada de simbolismo e preconceito, que busca intimidar e desumanizar pessoas negras. [...] Racismo é crime e precisa ser tratado com a seriedade que merece", declarou a parlamentar.
Michelle contou ainda à reportagem que o caso foi acolhido por todas as entidades procuradas e que as mesmas prestaram todo o apoio possível. Segundo a coordenadora, é importante dar visibilidade ao caso para "encorajar outras pessoas a denunciar".
Investigação
A Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) informou que investiga as circunstâncias da denúncia de injúria racial, registrada na última quarta-feira (3), no município de Quixadá.
"Os trabalhos investigativos seguem a cargo da Delegacia de Polícia Civil de Quixadá, que realiza oitivas e diligências com o intuito de elucidar as informações acerca do caso", informou ainda a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Estado do Ceará (SSPDS).