Como a 'Tropa do Lampião', do número 1 do CV no Ceará, movimentou R$ 22 milhões com o crime organizado

Criminoso chegou a ser o maior fornecedor de drogas e armas para a facção criminosa em solo cearense.

Escrito por Redação producaodiario@svm.com.br
11 de Agosto de 2026 - 14:00
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Legenda: Max Miliano, o Lampião, é considerado o mais alto líder do CV no Ceará, e está preso em uma unidade de segurança máxima no Mato Grosso do Sul.
Foto: Reprodução.

Ao longo de 10 anos, a engrenagem do tráfico de drogas e armas permitiu ao líder máximo do Comando Vermelho (CV) no Ceará, Max Miliano Machado da Silva, o 'Lampião', a movimentação de R$ 22,97 milhões, que foram camuflados em contas da família, principalmente nas da ex-esposa e até nas das filhas menores de idade do casal. Isso é o que aponta uma investigação da Delegacia de Combate aos Crimes de Lavagem de Dinheiro (DCLD), da Polícia Civil do Ceará (PCCE).

Com ficha criminal extensa e experiência no crime organizado, atualmente está preso em uma unidade federal de segurança máxima em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, a mais de 3 mil quilômetros do Ceará. Ano passado, a Justiça do Ceará reafirmou a necessidade de o faccionado ficar na unidade, ao considerar o contexto que o relaciona à participação em uma série de atividades criminosas. 

Para se ter ideia da extensão dos negócios da facção, a DCLD, da Polícia Civil cearense, identificou 55 contas bancárias na titularidade de oito investigados. Documentos obtidos pela reportagem apontam que o esquema se concentrou majoritariamente na ex-esposa de Max Miliano, Tabyta Karimy Tavares Amazonas, que movimentou mais de R$ 4,5 milhões. A mulher consta nas investigações como suspeita e uma das principais investigadas. A defesa dela foi procurada, e a reportagem aguarda retorno. 

Tabyta foi denunciada pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) por integrar organização criminosa e crime de lavagem de dinheiro.

Segundo relatórios da Delegacia de Combate aos Crimes de Lavagem de Dinheiro, cerca de 53% dos R$ 22.970.644,26 entraram nas contas dela por depósitos em espécie, em forma fracionada, na tentativa de burlar órgãos de fiscalização. A sogra do criminoso também teria feito movimentações de R$ 2,6 milhões, o que chamou atenção, pois o montante superou em 1.327% os rendimentos declarados por ela no ano de 2022. 

O montante milionário da "Tropa do Lampião" não surgiu do nada: investigações apontam Max Miliano como o principal fornecedor de entorpecentes e armas para o CV em solo cearense.

Relatórios técnicos da DCLD indicam que Max tinha influência direta na divisão de áreas no Ceará, beneficiando comparsas que compravam material dele.

Ele conseguiu ascender dentro das mais altas cúpulas da facção criminosa por sua capacidade de logística e pelo uso de "arsenais" de fuzis de grosso calibre, que inclusive eram adesivados com a imagem do cangaceiro Lampião.

Fuzis da Tropa do Lampião tinham adesivo do cangaceiro Lampião nelas.
Legenda: Fuzis da Tropa do Lampião tinham adesivo do cangaceiro Lampião nelas.
Foto: Reprodução/Inquérito Policial.

A influência de 'Lampião' fez com que uma legião de seguidores o idolatrassem e exaltassem o crime, inclusive por meio de funks, uma prática que tem se tornado comum no submundo das facções criminosas nos últimos anos. Músicas compostas pelos integrantes e interceptadas pela polícia afirmavam que "90% do Ceará é nosso de condomínio fechado", fazendo menção ao controle territorial do CV.

Figura principal em diversos delitos, segundo as autoridades de Segurança, atualmente Max Miliano é réu por lavagem de dinheiro, no âmbito de organização criminosa. Um despacho judicial liberado pela Justiça na última terça-feira (4) marcou uma audiência de instrução para 21 de setembro, que deve contar com a presença virtual do réu. A ex-esposa dele também foi intimidada, e serão ouvidas tanto testemunhas de defesa quanto de acusação. 

O Diário do Nordeste solicitou um posicionamento sobre a ação criminal à defesa do acusado, mas não recebeu retorno até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.

Relação com Majestade e Irmã Ruiva 

A investigação da DCLD detalhou que duas chefes de facção do alto comando eram conectadas a Lampião:

  • Francisca Valeska Pereira Monteiro ('Majestade'): apontada como afeto de Max Miliano, ela possuía forte ligação com ele no controle do tráfico de drogas. Mensagens interceptadas revelaram que, no esquema da facção, comprar drogas com Valeska ou com Max Miliano era considerado "a mesma coisa".
  • Almerinda Marla Barbosa de Sousa ('Irmã Ruiva'): presa em Jijoca de Jericoacoara, era integrante do restrito "Conselho de Guerra" do CV. Em conversas de WhatsApp, ela detalhava o imenso poder aquisitivo de Max, a quem tratava como o líder máximo e a "única voz do Estado", cujo comando não era questionado.

As duas mulheres exerciam funções estratégicas cruciais para a engrenagem da facção, segundo as investigações.

Fuga para o Rio de Janeiro e 'racha' no grupo 

A "Tropa do Lampião" não limitou seus lucros ao Ceará e chamou atenção novamente quando parte do bando, incluindo o líder, fugiu para o Rio de Janeiro. Em território carioca, o grupo criminoso invadiu o Complexo da Alma, em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio, expulsando facções rivais, com o objetivo de expandir o domínio territorial.

A migração dos criminosos, em sua maioria assaltantes de bancos e traficantes, ocorreu após um cerco da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), da Polícia Civil do Ceará (PCC), como mostrou o Diário do Nordeste em 2021. 

No RJ, a 'tropa' recebeu apoio dos colegas de facção cariocas e ganhou carregamentos de armas de grosso calibre. 

À época, a reportagem apurou que os confrontos armados não agradaram aos chefes do tráfico do CV, o que gerou um "racha". 'Lampião', com medo de ser preso, saiu do RIo e fugiu para o Norte. 

Foi a última fuga do número 1 do CV no Ceará antes da última prisão. Ele foi para a região, pois é ex-membro de uma facção de origem amazonense, a Família do Norte (FDN). 

Prisão e derrocada da tropa 

Max Miliano foi preso em 16 de fevereiro de 2021 em Belém, no Pará, junto ao comparsa e braço direito Roberto Rodrigo, o 'Fantasma'. Com eles, foi encontrado um contrato de compra e venda de um terreno rural. A área foi diligenciada pelas autoridades, que encontraram no local dois veículos carregados com cerca de 1 tonelada de drogas, entre cocaína e pedra oxi, equivalente a R$ 70 milhões.

A prisão do líder faccionado teria causado uma dissidência no CV, fazendo lideranças locais no Ceará "rasgarem a camisa" e criarem a própria facção, conhecida atualmente como "Massa Carcerária"

"[...]com o enfraquecimento de Max Miliano na chefia do Comando Vermelho do Ceará, após sua prisão em fevereiro de 2021, várias lideranças locais da facção começaram a 'rasgar as camisas', ou seja, decidiram sair da mencionada ORCRIM (organização criminosa, assumindo o controle de suas respectivas áreas, se autointitulando 'Massa Carcerária', 'Massa Criminosa' ou 'Neutro' - MC7", disse trecho de uma decisão da Vara de Delitos de Organizações Criminosas da Comarca de Fortaleza. 

Em 2023, a Polícia Civil do Ceará chegou a deflagrar a Operação Cashback e apreendeu bens avaliados em R$ 3 milhões, que seriam do número 1 da facção carioca. 

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