Bruno Fernandes, 30 anos, Ouvidor Geral Adjunto de Milhã, recebeu uma notícia que esperava e lutava na Justiça por ela há décadas: o júri popular para julgar a morte da mãe, Ivaneide Barbosa Fernandes Silva, foi marcado.
A vítima tinha 24 anos quando foi morta sem motivos, na cidade de Milhã, no Interior do Ceará. Bruno tinha apenas dois anos quando a mãe morreu. O júri está marcado para o próximo dia 24 de novembro, às 9h, no Fórum de Solonópole.
“O sentimento agora é de expectativa e responsabilidade. Minha mãe, Ivaneide, foi vítima de feminicídio quando eu ainda era um bebê de colo. O processo se arrastou por anos”, disse Bruno ao Diário do Nordeste.
O profissional contou que vive um misto de ansiedade com dever: “Ansiedade porque é o dia que a família esperou a vida toda. Dever porque sou eu que vou estar lá para representar ela, já que ela não pode estar”.
SOBRE O CRIME
Ivaneide foi morta no dia 9 de julho de 1998, o acusado foi preso no dia seguinte. Porém, 15 dias após a prisão, o réu fugiu da cadeia pública de Solonópole. “Como ele fugiu, ele foi citado por edital”, contou o filho.
Bruno explicou ainda que o processo ficou suspenso até 2018, com isso, a prescrição também. O processo foi reaberto e, em 2023, o acusado foi preso na cidade de Costa Marques, em Rondônia. Ficou cinco meses preso e aguarda o julgamento em liberdade.
O Ouvidor acredita que esse foi o primeiro caso de homicídio contra mulher na cidade, já que Milhã foi oficialmente fundada e emancipada em 5 de fevereiro de 1985. Não há registros históricos do crime, mas populares e amigos da família lembram da data.
EXPECTATIVA DA FAMÍLIA
“A família espera que depois de anos de omissão, de um processo que se arrastou e nos deixou uma vida inteira esperando, a Justiça finalmente seja feita. Minha mãe, a Ivaneide, foi vítima de feminicídio quando eu era um bebê de colo. Hoje sou um homem”, contou Bruno.
Bruno espera que as provas sejam analisadas para que as qualificadoras sejam reconhecidas e que haja condenação. “Sem atenuante e sem impunidade”.
“Não é vingança. É o fim de um ciclo de abandono. É a Justiça fazendo o que deveria ter feito há 28 anos e mostrando que crime contra mulher não fica impune. A justiça pode tardar, mas ela não pode falhar. É por isso que eu levanto essa bandeira contra o feminicídio”, concluiu o filho.
HOMICÍDIO QUALIFICADO
Consta na denúncia de homicídio qualificado, apresentada pelo Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), a narração da delatória afirmando que o crime aconteceu “sem nenhuma discussão e motivo aparente, de forma covarde, sorrateira, a traição”.
Por volta das 21h30h, do dia 9 de julho de 1998, o denunciado encontrava-se num bar com alguns colegas, ocasião em que resolveu ir para casa. Porém, encontrando-se embriagado.
“E com instinto assassino, adquiriu uma faca peixeira de 08 polegadas, no estabelecimento comercial do Sr. Vanderlan, e ao passar em frente ao bar denominado 'Iolanda', onde trabalhava a indefesa vítima, encontra-a na porta da saída”, diz trecho da denúncia.
O denunciado então a esfaqueou, desferindo-lhe dois golpes mortais descritos no laudo de exame cadavérico, sem que a vítima pudesse esboçar qualquer gesto de defesa.
O acusado confessou o crime, e os depoimentos do vendedor da arma e da ex-companheira do réu corroboram os indícios da autoria, conforme decisão da 1ª Vara da Comarca de Solonópole.
COMO O CASO FOI DESPERTO
Bruno e seus outros três irmãos acreditavam que o processo já havia prescrevido, ainda assim, utilizou suas redes sociais para compartilhar a história da mãe. Neste ano, o caso da jovem Ana Kevila Nogueira Batista, de 17 anos, fez o Ouvidor dar um passo a mais.
“Mexeu comigo. Eu fiquei incomodado, foi um caso que tocou muito, fiquei muito triste e eu me abalou muito [...] Como sou ouvidor geral, sempre respondia ao Ministério Público alguma solicitação. Aí veio à minha mente uma ideia: ‘Eu vou enviar um ofício ao MP solicitando informações sobre esse acontecido com a minha mãe’”.
Com esse pensamento, Bruno enviou um ofício ao MP, pedindo esclarecimento sobre o acontecido. A entidade respondeu informando que o crime não havia prescrito, que existia uma ação penal e que, inclusive, o réu tinha sido pronunciado, porém, tinha recorrido.
O suspeito recorreu à comarca de Solonópole, no primeiro grau, mas o juiz negou o recurso. Então, o homem recorreu ao Tribunal de Justiça do Estado do Ceará (TJCE). Foi quando Bruno entrou no caso.
“Fui ao fórum de Sobral como vítima indireta, mas vítima, porque eu sou filho dela. Solicitei acesso aos autos do processo para que eu pudesse entender [...] após ler todo o processo, eu procurei a minha advogada [...] ela já deu entrada na solicitação da habilitação tanto dela como minha como assistente de acusação no processo, porque até a presente data quem levava o processo era o Ministério Público”, informou o Ouvidor.
A pronúncia saiu na 1ª Vara de Solonópole. A defesa do réu não concordou e recorreu ao TJCE. No dia 30 de junho de 2026 o Tribunal de Justiça negou o recurso por unanimidade, com um resultado de 3 a 0.