A Justiça do Ceará negou o pedido de liberdade feito pela defesa de João Victor da Costa Minervino, conhecido como 'MC Black da Penha', na última quarta-feira (10). A decisão judicial destacou novos detalhes da investigação que prendeu o cantor carioca, após realizar um show no Ceará, em abril de 2026.
A decisão de não soltar o cantor é da Vara de Delitos de Organizações Criminosas (VDOC), da Comarca de Fortaleza, que apontou o uso da "atividade artística como instrumento de propaganda de organização criminosa ultraviolenta, com exaltação nominal de liderança faccionada".
O 'MC Black da Penha' foi preso em flagrante após realizar um show no bairro Bom Jardim, em que ele teria cantado a música "Tropa do Alok", que homenageia um criminoso cearense foragido. O cantor teria recebido um cachê de R$ 10 mil pela apresnetação.
O Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) também esteve a favor da decisão de manter o MC preso, afirmando que a prisão "seria a única medida adequada para frear o ímpeto da escalada criminosa promovida pelo Comando Vermelho, da qual o Requerente é acusado de fazer parte".
O cantor segue detido no Complexo Penitenciário de Itaitinga, há 20 km de Fortaleza. Inicialmente ele negou ter envolvimento com facções, mas ao entrar no sistema carcerário, ele reconheceu ter vínculo com a facção Comando Vermelho (CV).
Em nota enviada ao Diário do Nordeste, o advogado Eduardo Feitosa, responsável pelo caso, afirmou que "embora a defesa reconheça a autoridade e a independência do Poder Judiciário, manifesta sua inconformidade com a decisão proferida, por discordar dos fundamentos jurídicos apresentados".
(Leia a nota na íntegra abaixo)
O que diz o contrato do show que "promoveu o CV"?
R$ 10 mil de cachê por 30 minutos
A apresentação do 'MC Black da Penha' foi realizada no dia 26 de abril de 2026, por volta das 04:00 da manhã, na boate Nette Drinks - que já era investigada pela Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE), por ter registrado denúncias de tráfico de drogas e tiroteios.
O contrato do show do MC estipulava um pagamento de R$ 10 mil, dividido em três parcelas: uma de R$ 2.600, uma de R$ 2.400 e uma de R$ 5 mil, todas pagas em dias diferentes e antes do dia da performance. O valor seria suficiente para pagar 30 minutos de apresentação.
Além do cachê, a empresa Nette Drinks também custeou as passagens aéreas, hospedagens, alimentação e transporte do cantor e da equipe que o acompanhou.
A Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (DRACO), da PCCE, afirmou em relatório de investigação que o local seria um "palco de práticas de apologia ao crime organizado e presença de indivíduos armados".
O MPCE também ressaltou que o show do 'MC Black da Penha' contou com o apoio da boate Ghetto Music, estabelecimento associado a episódios de violência armada, incluindo um homicídio em 2024.
Empresa de 'MC Ryan SP' fez o contrato do show
O contrato do show foi feito 20 dias antes da apresentação, pela gravadora musical paulista Bololô Records LTDA - recentemente investigada pela Polícia Federal (PF).
Abaixo das claúsulas de contrato, constam os nomes do contratante e de Ryan Santana dos Santos, conhecido como 'MC Ryan SP', que é dono da gravadora Bololô Records e atual produtor do 'MC Black da Penha'.
Ryan foi solto recentemente, após passar alguns dias em uma penitenciária em São Paulo. O funkeiro é apontado pela Polícia Federal (PF) como o líder de uma organização criminosa responsável por movimentar cerca de R$ 1,6 bilhão ilegalmente.
As investigações apontam que o artista teria utilizado empresas de produção musical, como a Bololô Records, para mascarar receitas legítimas com recursos de apostas ilegais.
Antes de ser preso, o 'MC Black da Penha' tinha realizado algumas postagens pedindo pela liberdade de Ryan, chegando a adicionar a foto do funkeiro em seu próprio perfil do Instagram.
Música "Tropa do Alok" teria sido feita por um DJ do Ceará
Segundo a PCCE, a música "Tropa do Alok" foi feita para enaltecer um criminoso cearense conhecido como 'Alok', apontado pelas autoridades como líder do CV nos bairros Bela Vista, Planalto Pici, Rodolfo Teófilo e no município de Maracanaú.
Nos créditos oficiais da música constam os nomes de três homens: DJ Gs da Reta Velha, DJ Claudinho Mpc e MC Black da Penha. Após a prisão desse último, a música foi banida das redes sociais e plataformas de música.
Em interrogatório, o 'MC Black da Penha' confessou que cantou a música durante o show em Fortaleza e que ela era "esperada pelos fãs".
Apesar disso, o cantor disse que não conhecia o 'Alok' e afirmou que a composição teria sido feita por um "DJ do Ceará", mas não informou o nome exato desse suposto autor da música.
Ao ser questionada, a equipe de defesa do cantor também não respondeu quem seria esse DJ. A equipe de reportagem não localizou nenhum artista cearense vinculado aos créditos oficiais da música.
Para os advogados do MC, a "Tropa do Alok" não faz menção ao Comando Vermelho (CV), e é apenas "uma interpretação fictícia da polícia, sem nenhum tipo de embasamento".
Nota completa:
"A defesa técnica, vem a público comunicar aos fãs do cantor MC BLACK DA PENHA, apoiadores e à sociedade em geral que tomou ciência, no dia 12 de junho de 2026, da decisão que indeferiu o pedido de relaxamento de prisão e a revogação da prisão preventiva de nosso constituinte. Embora a defesa reconheça a autoridade e a independência do Poder Judiciário, manifesta sua inconformidade com a decisão proferida, por discordar dos fundamentos jurídicos apresentados.
Neste momento, serão apresentados os recursos cabíveis previstos em lei, buscando junto aos tribunais superiores à reforma da decisão e a proteção dos direitos fundamentais de nosso cliente. A luta pela justiça e pela verdade prossegue com vigor, confiança e determinação. Todos os esclarecimentos necessários serão prestados exclusivamente nos autos do processo, ambiente apropriado para o exercício do contraditório e da ampla defesa. Mantemos nossa no poder Judiciário. Permanecemos comprometidos em demonstrar a inocência de nosso cliente através de todas as vias legais disponíveis".
*Estagiária supervisionada pelo jornalista Emerson Rodrigues.