Depois de atropelar a namorada com um caminhão, fugir para o Piauí e ser preso, Fabiano Sales Holanda Lima, 42, alegou que "não viu" a vítima, Camila Maria Gomes Rodrigues, ser esmagada pelo veículo, e não falou mais nada à Polícia sobre o assunto. O inquérito que apura o caso, no entanto, aponta que o autor do crime teve plena consciência do que fez.
Uma testemunha que presenciou o crime, cometido na última segunda-feira (3), na cidade do Crato, na Região do Cariri, relatou que, assim que o caminhão conduzido por Fabiano passou por cima da moto pilotada por Camila, ele teria dito: "Vamos embora, vamos embora". Depois disso, fugiu rumo a Picos, no Piauí, onde foi capturado pelas forças de segurança locais.
Em documentos obtidos pela reportagem, um tio da vítima contou à Polícia que Fabiano tinha um "ciúme doentio" de Camila e que controlava as saídas da sobrinha, inclusive, com familiares, desde o início do namoro, cerca de três meses atrás.
Além disso, a vítima teria confidenciado ao parente que era pressionada a manter relações sexuais com o investigado, mas que não o denunciava ou terminava o relacionamento porque ele aparentava gostar muito do filho dela, um menino autista de sete anos de idade. Fabiano também "forçava a barra" para que o casal não se separasse.
Preso, ele responderá por feminicídio com emprego de meio cruel e recurso que dificultou ou impediu a defesa da vítima. Devido à brutalidade do crime e ao risco de nova fuga, a Polícia Civil solicitou a conversão da prisão em flagrante em preventiva, mas não se sabe ainda se Fabiano já foi submetido a audiência de custódia.
Vítima estava parada na frente do caminhão
O depoimento de um amigo de infância do agressor foi fundamental para entender a dinâmica do crime. À Polícia, ele afirmou que os dois começaram a beber durante a tarde, na presença de Camila, e que presenciou o casal discutindo por causa de mensagens no celular.
Segundo ele, a mulher foi a pé buscar sua moto em casa e retornou ao bar em seguida. Depois disso, Fabiano pediu ao amigo que o levasse até a casa da vítima para buscar seu caminhão, que estava estacionado na frente da casa, e suas roupas, porque pretendia viajar. O filho de Camila foi quem abriu a porta da residência para o namorado da mãe.
No relato da testemunha, pouco depois de Fabiano embarcar no veículo, Camila teria passado de moto ao lado e parado em frente ao caminhão para forçá-lo a parar. O amigo afirmou que viu claramente quando Fabiano passou por cima da moto e deixou a namorada com o corpo dilacerado em via pública, sem prestar socorro.
Em choque, a testemunha, que dirigia logo atrás, chegou a seguir o investigado até a subida de uma serra, até que parou e disse ao amigo: "Não vou mais, faça o que você quiser".
Tio ouviu o barulho do motor acelerando
O tio de Camila contou, em depoimento, que, por volta das 23 horas, ouviu o barulho do motor do caminhão Volvo de Fabiano acelerando bastante. Naquela noite, estranhando o fato de o namorado da sobrinha estar saindo àquela hora, ele chegou a enviar áudios para o agressor e para Camila perguntando para onde iriam, mas não obteve resposta.
Pouco depois, ouviu um tumulto na rua, de pessoas comentando que Fabiano havia matado Camila passando o caminhão por cima dela. Quando chegou ao local, a Polícia já estava lá.
Prisão no Piauí
Depois de serem acionados pela Polícia Militar do Ceará (PM-CE) sobre o feminicídio e a possibilidade de um caminhão branco da marca Volvo passar pela região, os policiais do Piauí iniciaram um patrulhamento em busca do suspeito e interceptaram o veículo na rodovia federal BR-316, em Picos.
Questionado pelos militares sobre o crime, ele afirmou apenas que "não viu nada". Além disso, um dos PMs que atendeu à ocorrência destacou, em seu depoimento, que desconfiou que o veículo tivesse sido lavado recentemente, uma vez que não apresentou marcas de sangue.
Com Fabiano, foi apreendido o caminhão, um celular, documentos pessoais e R$ 1,3 mil em espécie.