Médica e dentistas são indiciados por homicídio culposo pela morte de empresário em Fortaleza

O empresário João Victor Batista Pinheiro morreu durante um procedimento de lifting de têmporas realizado em agosto deste ano.

Escrito por Bergson Araujo Costa bergson.araujo@svm.com.br
24 de Setembro de 2026 - 20:02 (Atualizado às 20:23)
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Legenda: O empresário possuía histórico de hipertensão e precisou ser anestesiado.
Foto: Reprodução / Redes Sociais.

Michele França Soares Silvestre, Waledya Araujo Lopes Melo e Heraldo Simões Ferreira Filho foram indiciados por homicídio culposo pela morte do empresário João Victor Batista Pinheiro, 45 anos, registrada no dia 18 de agosto deste ano.

Os três profissionais atuaram diretamente no procedimento estético na clínica Espaço Michele França, localizada no Pátio Dom Luís, bairro Meireles, em Fortaleza.

Em nota ao Diário do Nordeste, na noite desta quinta-feira (24), a Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) informou que o inquérito instaurado para apurar as circunstâncias da morte foi concluído e remetido à Justiça na quarta-feira (23).

O Diário do Nordeste entrou em contato com a defesa de Michele França e aguarda retorno. A reportagem não conseguiu contatar as demais defesas, mas salienta que o espaço segue aberto para manifestações.

Formação dos indiciados, segundo informações disponíveis no Escavador:

  • Michele França: Possui graduação em Odontologia pela Universidade Federal da Paraíba e especialização em Ortodontia pelo Instituto Cearense de Especialidades e Pesquisas Odontológicas.
  • Waledya Araujo: Médica anestesiologista com área de atuação em dor pelo Hospital das Clínicas do Estado do Acre - HC/AC e título de Especialista em Anestesiologia TEA/SBA. 
  • Heraldo Simões: Cirurgião-dentista formado pelo Centro Universitário Christus e Residência Multiprofissional no Cuidado Cardiopulmonar pela Escola de Saúde Pública do Ceará/Hospital Dr. Carlos Alberto Studart Gomes.

QUATRO PROCEDIMENTOS EM SEQUÊNCIA

Em depoimento à polícia, Michele contou que seriam realizados quatro procedimentos estéticos em João: Lifting temporal, FaceTite, MORPHEUS 8 e CO2.

Segundo a dentista, o Lifting temporal seria de responsabilidade de Heraldo Simões. Michele faria o FaceTite, Morpheus 8 e o Laser de CO2. 

Os quatro procedimentos estéticos seriam realizados em sequência na vítima. Dos quatro, somente o primeiro, Lifting temporal, chegou a ser iniciado, sendo o objeto principal da investigação. 

A sedação/anestesia feita pela médica Waledya Araujo seria utilizada para todos os procedimentos, segundo o inquérito.

Segundo o depoimento de Heraldo, o Lifting temporal é um procedimento que, isoladamente, requer apenas anestesia local. No caso de João Victor, como ele seria submetido a múltiplos procedimentos simultaneamente, a equipe optou por uma sedação mais profunda administrada por uma anestesista.

Caminho até a morte

O empresário morreu durante um procedimento de lifting de têmporas, um dos quatro que estavam programados. A vítima era CEO de uma empresa responsável pela pirotecnia de diversos shows e eventos sociais pelo Nordeste.

O depoimento de Michele aponta que ela não tinha certeza se Heraldo tinha as qualificações adequadas para realizar o procedimento. Segundo ela, seria a primeira vez que um Lifting temporal seria realizado na clínica.

Para o procedimento, foram solicitados exames, mas surgiu mais uma complicação: o paciente teria se recusado a fazer o eletrocardiograma, segundo Michele.

Foram encaminhados, segundo Waledya, somente os exames de sangue, "pois João afirmou que tinha realizado uma cirurgia de grande porte, lipoaspiração abdominal há três meses". Por conta disso, ela não solicitou exames complementares.

“Na avaliação pré-anestésica, o paciente afirmou que era hipertenso, que a pressão era 160 por 90, que é padrão para o caso; Que somente suspende se a pressão for acima de 180; Que o paciente estava bem, e negou todos os sintomas cardiológicos durante a entrevista; Que o paciente afirmou o uso de testosterona, tanto que o valor alto apareceu no exame de sangue”, diz o inquérito.

Um médico do Samu, também em depoimento, contou que Waledya o informou sobre as medicações administradas em João: 3 miligramas de midazolam, 100 microgramas de fentanil, 60 miligramas de lidocaína, 25 miligramas de cetamina e 100 miligramas de propofol. 

“Heraldo, o cirurgião que ainda chegou a fazer o procedimento, comenta que ele evoluiu com esse quadro cerca de 12 minutos após a infusão das medicações”.

Depois da infusão das medicações, o paciente começou a evoluir com um quadro sugestivo de edema de pulmão (conhecido popularmente como "água no pulmão"), com tosse, dispneia, que é a falta de ar, tosse com secreção rosada, seguida de uma parada cardiorrespiratória. 

“Na parada cardiorrespiratória ela me informa que foi tentado reanimar o paciente durante uma hora e 15 minutos e aí, sem sucesso no retorno da vida ao paciente, foi declarado o óbito por eles às 12h52”, disse ainda o socorrista.

VALOR DO PROCEDIMENTO

Ao final, o inquérito aponta que após o pagamento de R$ 32 mil, sendo R$ 4 mil para anestesista e R$ 28 mil para Michele França, João foi submetido ao processo de sedação e anestesia para a realização de quatro procedimentos estéticos, sem nenhuma avaliação cardíaca, mesmo o paciente apresentando uma pressão 16 por 9 e uma testosterona de 3.461, valor que o inquérito compara à concentração média encontrada em quase cinco homens.

No presente inquérito, entendo que os três profissionais foram negligentes nos procedimentos realizados na vítima. Essa negligência (falta de análise da condição cardíaca) foi causa direta do resultado morte naquele momento, naquela condição. Se os profissionais tivessem verificado exames cardíacos da vítima, teriam percebido que o mesmo, naquele momento e situação NÃO PODERIA TER SIDO SUBMETIDO AOS PROCEDIMENTOS DE SEDAÇÃO/ANESTESIA

IRREGULARIDADES DA CLÍNICA

A estrutura da clínica foi um dos pontos levados em consideração para conclusão do inquérito policial. O Diário do Nordeste teve acesso aos documentos que apontam uma série de irregularidades no espaço.

Os agentes apontaram uma sala como espaço de acolhimento humanizado ao paciente. O local possuía mobiliário, equipamentos diversos e também um cabideiro.

Além disso, o espaço não possuía passagem direta para a sala de procedimentos cirúrgicos. Havia outra sala, segundo informações, utilizada para pacientes que desejam aguardar reservadamente a realização de seu atendimento, e nesse local não havia itens para preparo do paciente.

“Tal situação demonstrou uma falta de cautela da clínica para com o paciente e a ausência de precaução para com os procedimentos estéticos que seriam realizados”, segundo o inquérito.

A análise policial constatou que "o consultório odontológico da Dra. Michele França era totalmente inadequado para a realização do procedimento. Até porque, no momento da urgência era desprovido do DEA, ponto que será trabalhado à frente".

AUSÊNCIA DE DESFIBRILADOR

Ainda segundo o documento, apesar das normativas, não houve avaliação cardíaca do paciente para a realização do procedimento de sedação e anestesia, para a realização de quatro procedimentos estéticos consecutivos.

Outro ponto levantado foi a ausência do desfibrilador externo automático (DEA) apesar da exigência estabelecida por normas, tais como a resolução do 286 do CFO.

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