Combate às facções no Ceará: delegado-geral destaca 'inteligência financeira' e integração

O Ceará se encaminha para o quinto mês seguido de queda de CVLIs.

Escrito por
Emanoela Campelo de Melo emanoela.campelo@svm.com.br
policia civil farda viatura.
Legenda: De acordo com a Polícia, R$ 2 bilhões de patrimônio com origem duvidosa estão sob análise após investigações.
Foto: Reprodução/SSPDS.

A continuidade da redução dos índices violentos atrelada ao combate às facções criminosas segue como prioridade para a Segurança Pública do Ceará. Em entrevista concedida ao Diário do Nordeste, o delegado-geral da Polícia Civil do Ceará (PCCE), Márcio Gutierrez, reforçou a integração das Forças de Segurança e os investimentos, como os realizados na área de "inteligência financeira".

De acordo com a Polícia, R$ 2 bilhões de patrimônio com origem duvidosa estão sob análise após investigações. O número acompanha o aumento do número de capturas de integrantes de organizações criminosas: quase o dobro, se comparados os últimos anos de 2024 e 2025.

"A Polícia Civil tem investido muito na parte da Inteligência financeira. O crime organizado se alimenta dos recursos financeiros, atuando para o enriquecimento dos seus membros. Uma atividade, realmente, de busca patrimonial. Então, temos investido muito na nossa capacidade de investigar lavagem de dinheiro, analisar informações de Inteligência financeira, para ampliar ainda mais a capacidade de asfixiar essas facções criminosas", disse Márcio Gutierrez.

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Em paralelo, o Ceará se encaminha para o quinto mês seguido de queda de Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLIs). De 1º de abril até o último dia 20 foram registradas 69 mortes violentas no Estado.

"Temos avaliado positivamente esse ambiente de redução. Não é a redução pontual de um indicador, mas sim de vários indicadores que são relevantes para formar a sensação de segurança. Temos conseguido fazer a contenção da violência, sabemos que precisamos trabalhar e avançar mais. Os indicadores em queda nos levam a crer que estamos no caminho certo, fazer com que a criminalidade recue"
Márcio Gutierrez
Delegado-geral da PCCE

Em Fortaleza, a região da Grande Messejana ainda é tida como um 'ponto de preocupação constante'. As estatísticas da Pasta revelam que a AIS 16, formada pelo Ancuri, Barroso, Coaçu, Conjunto Palmeiras, Curió, Guajeru, Jangurussu, Lagoa Redonda, Messejana, Parque Santa Maria, Paupina, Pedras e São Bento, também apresentam redução, mas em um ritmo mais lento.

delegado-geral marcio gutierrez falando ao microfone, simbolo policia civil do ceará.
Legenda: "Temos conseguido fazer a contenção da violência", disse Márcio Gutierrez.
Foto: Divulgação/SSPDS.

"Com a atuação da Polícia, do Sistema de Segurança Pública, temos avaliado que temos ainda locais que demandam muita atenção, que ainda estão em estado de conflagração. Existem ali disputas territoriais, de facções criminosas, e isso acaba gerando ali a letalidade. Tudo isso está no nosso campo de estratégia, observação e análise, para que a gente consiga fazer a contenção. No Interior Sul reforçamos nossa investigação, fazendo trabalho para aumentar nossa capacidade investigativa e operacional. Aqui também na região da Grande Messejana o efetivo vem sendo reforçado para capturarmos as pessoas que mantêm essa disputa", disse Gutierrez.

ABSOLVIÇÃO 'EM MASSA'

Nos últimos meses, a reportagem noticiou 'absolvições em massa' de acusados de integrar facções criminosas, principalmente o Comando Vermelho (CV). 

Uma das decisões mais recente foi proferida a favor de Carlos Mateus da Silva Alencar, conhecido como 'Fiel' ou 'Skidum', apontado como liderança local do grupo armado e um dos homens que há mais de dois anos segue na lista dos mais procurados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS).

Em março deste ano, Skidum, Carlos Henrique Sobrinho de Souza, Davi Santos Oliveira, Francisco Cleison dos Santos Souto, João Vítor Silva Sousa, Kauam Silva Martins, Lincoln Pereira da Silva, Magnum de Azevedo Damasceno, Wemerson Oliveira Maia e Leilson Sousa da Silva foram absolvidos depois que desembargadores do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) apontaram a ilegalidade na coleta de provas em fase de inquérito.

Conforme a decisão, o acesso ao conteúdo dos aparelhos celulares dos investigados aconteceu sem a devida autorização judicial e sem a comprovação de consentimento livre e voluntário por parte deles.

Com isso, todas as ‘provas' vindas a partir do acesso a esses aparelhos foram anuladas e identificadas "falhas na cadeia de custódia".

Questionado sobre a nulidade de provas, como no caso citado, o delegado-geral disse que a Polícia Civil do Ceará "hoje trabalha com base nos melhores protocolos de Inteligência e investigação que nós temos no País".

Para Márcio Gutierrez, "o que acontece e nos preocupa são mudanças de entendimento. A gente trabalha com base em legislação e jurisprudência. Uma conduta no momento em que ela foi realizada e no âmbito geral estava dentro do protocolo exigido, e futuramente, lá no momento do julgamento, se avaliou que aquilo não era o certo, que deveria ter sido de outra forma, aquilo acaba nos preocupando mais. Esse tipo de nulidade precisa ser realmente comprovado o prejuízo. A anulação põe em cheque muitas vezes investigação que durou dois, três anos, que custou muito aos cofres públicos, que custou tempo dos policiais".

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