Execução de advogado revela teia de vingança de facção e liga liderança do CV à morte em barraca de praia

A morte de Silvio Vieira da Silva estaria ligada a outro crime ocorrido anos antes. A participação de um chefe do CV e de um colega de profissão da vítima surpreenderam os investigadores

Escrito por
Emerson Rodrigues emerson.rodrigues@svm.com.br
(Atualizado às 09:59)
Montagem com foto do advogado Silvio Vieira, de Breno Xavier e Lucas Rolim
Legenda: O advogado Silvio Vieira teria sido morto a mando de Breno Xavier, o 'Blindado', que teria recebido a colaboração do advogado Lucas Rolim

“Esquece... esquece”... Essas podem ter sido as últimas palavras proferidas pelo advogado Silvio Vieira da Silva, de 54 anos, antes de ser executado a tiros no dia 5 de maio deste ano, em Fortaleza. As palavras teriam sido dirigidas a uma liderança da facção criminosa Comando Vermelho (CV), que planejou a morte do operador do Direito. O homem autor dos disparos teria retrucado para Silvio: “não dá pra esquecer” e começou a atirar. 

A trama de vingança e poder se desenrolou nas ruas de Fortaleza, culminando no brutal assassinato do Vieira, incluindo a participação de outro advogado e criminosos contratados. Documentos obtidos com exclusividade pelo Diário do Nordeste revelam que a morte de Silvio Vieira foi diretamente orquestrada por Breno Araújo Xavier da Silva, conhecido como 'Blindado', um líder da facção criminosa Comando Vermelho (CV) que está escondido no Rio de Janeiro.  

O motivo: o desagrado de "Blindado" com a atuação profissional de Silvio em um processo criminal anterior, que incriminava Breno Xavier pela participação em outro homicídio ocorrido em uma barraca de praia, no ano de 2022. 

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A investigação aponta para uma complexa rede de eventos que ligam os dois crimes. O assassinato de Silvio Vieira não foi um ato isolado, mas sim uma resposta direta e violenta à sua defesa de um cliente que, ao depor, forneceu informações cruciais contra o chefe do CV, Breno 'Blindado'. 

A morte do advogado 

Silvio Vieira da Silva foi executado em plena luz do dia, por volta das 12h30, na Rua Muritinga, número 163, no bairro Genibaú, em Fortaleza. A forma como o crime foi planejado e executado demonstra a frieza e o poder da organização criminosa. 

Para atrair o advogado para o local onde acabaria morto, Breno 'Blindado' teria contado com a ajuda de Antônio Carlos Barbosa da Silva, Francisco Assis Silva Neto e do também advogado Lucas Arruda Rolim. Cinco dias antes de Silvio ser executado, os irmãos de criação Antônio Carlos e Francisco Neto foram presos no dia 30 de abril, no Terminal do Siqueira portando facas, supostamente para praticar um assalto. 

Após a captura, os dois adultos e um adolescente foram levados para a Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA). No dia seguinte, foi realizada a audiência de custódia dos dois adultos e aparece outro personagem importante dessa trama: o advogado Lucas Arruda Rolim. 

Conforme o depoimento de Antônio Carlos, o advogado compareceu e conseguiu a soltura dele e do irmão com tornozeleira, mas nem eles e nem os familiares deles sabiam quem havia pago pelos serviços de Lucas Rolim. Conforme a investigação, tudo fazia parte da trama que estava começando a ser engendrada. 

Antônio Carlos disse que, durante a conversa com o advogado Lucas Rolim, ao questioná-lo sobre quem estaria pagando pelos serviços, Rolim teria respondido: “alguém mandou um advogado para você”. 

Segundo o depoimento obtido pela reportagem, ao sair da Delegacia de Capturas e Polinter (Decap), Antônio Carlos foi surpreendido com a presença de Lucas Rolim do lado de fora à sua espera. Ele contou que Rolim o chamou para uma conversa na rua atrás da Decap em um carro de cor prata.  Dentro do carro, segundo Antônio Carlos, estava Breno ‘Blindado’.  

Plano macabro

O diálogo de Breno com Antônio Carlos mostra a armação e preparação para o plano macabro: “cara, eu te tirei, mas você vai ter que emprestar seu nome para uma parada com um advogado”, teria dito Breno durante a conversa.  

Breno disse para Antônio Carlos que o advogado Silvio Vieira tinha uma dívida com ele, mas não disse qual a dívida. A liderança do CV revelou ainda que o plano precisava ser posto em prática rapidamente, pois ele tinha que voltar para o Rio de Janeiro, onde estava escondido. 

A trama consistia em Antônio Carlos entrar em contato com Silvio Vieira sob o pretexto de contratá-lo para um serviço jurídico, especificamente para a retirada do monitoramento eletrônico. Antônio Carlos contou em depoimento que ligou para Silvio Vieira um dia antes da morte e no dia do crime. 

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Silvio, acreditando que estava diante de um novo cliente, cobrou honorários de R$ 4 mil para retirada do monitoramento dele e do irmão de criação Francisco Assis. Antônio Carlos disse que Breno mandou que ele marcasse o encontro para o pagamento na Rua Muritinga.  

A rua, situada no bairro Genibaú, era estratégica. Ali, segundo as investigações, Breno comandava o tráfico de drogas e poderia impor o silêncio sobre o crime.  

Colegas de trabalho de Silvio Vieira informaram que ele não costumava encontrar clientes na rua e que normalmente pedia pagamento em depósito ou pix, mas diante da insistência do encontro presencial, acabou aceitando. 

Nas duas ligações que fez para o advogado, Antônio Carlos contou que Breno estava ao seu lado passando orientações. No dia 5 de maio, Breno, Antônio Carlos e Assis foram ao local e horário combinado com o advogado Silvio Vieira.  

A última etapa do plano estava em andamento. Silvio Vieira chegou primeiro. Antônio Carlos e Assis desceram do carro e se dirigiram para uma “bodega”. Breno desceu também e foi ao encontro de Silvio.  

Imagem do carro Jeep Renegade de Silvio Vieira
Legenda: O advogado foi executado dentro do carro dele, no bairro Genibaú, em Fortaleza

Ao perceber a aproximação de Breno, o advogado Silvio Vieira disse: “esquece”. Breno respondeu: “não posso esquecer” e atirou.  

Breno efetuou pelo menos seis disparos de arma de fogo, causando a morte imediata do advogado. Os executores ainda levaram os celulares e o computador da vítima, numa tentativa de simular um crime de roubo. 

A motivação do crime foi classificada como torpe, refletindo a insatisfação da facção Comando Vermelho com a atuação de Silvio.  

Por que o advogado Lucas Rolim, que foi ajudado por Silvio Vieira quando foi preso por levar bilhetes para integrantes do Comando Vermelho, supostamente atuou ajudando Breno para auxiliar na morte do colega? Essa explicação ainda não foi revelada pelas autoridades.   

O caso da barraca de praia 

Para os investigadores, a origem da retaliação contra Silvio remonta a 31 de julho de 2022, quando Felipe do Vale Lucena foi assassinado em uma barraca na Praia do Futuro, em Fortaleza. Segundo as investigações do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Lucas Jeová Coelho Mendes foi o autor dos disparos, com Breno Araújo Xavier da Silva atuando como mandante e fornecendo o veículo para a fuga do atirador. 

Imagem do personal trainer Felipe do Vale Lucena, assassinado em uma barraca de praia
Legenda: Felipe do Vale Lucena foi assassinado em uma barraca de praia

Durante o processo sobre a morte de Felipe Lucena, uma testemunha chave para o caso, Luiz Ronan Teles Gomes prestou depoimento no dia 10 de agosto de 2022. Ele estava na festa na companhia de Breno, mas para a Polícia, Ronan omitiu detalhes importantes do caso no primeiro depoimento. 

No dia 21 de setembro de 2022, Ronan foi ouvido novamente. Dessa vez, ele estava acompanhado do advogado Silvio Vieira.  

Ronan contou que Breno pediu que ele ajudasse a colocar os atiradores da morte de Felipe Lucena para dentro da festa. Disse ainda que acredita que Breno tenha participado da morte de Felipe, pelo fato de ele ter se relacionado com a ex de Breno. 

Para a Polícia, Breno 'Blindado' acreditou que Silvio Vieira, como advogado que acompanhou o segundo depoimento de Luiz Ronan, teria influenciado o cliente a fornecer informações que fundamentaram a denúncia, a decisão de pronúncia e a consequente prisão preventiva de Breno no caso da barraca de praia.

Essa percepção de que a atuação de Silvio Vieira teria sido prejudicial aos interesses de Breno e da facção Comando Vermelho foi o estopim para a ordem de execução do advogado. Breno 'Blindado' foi pronunciado pela morte de Felipe Lucena, mas o processo está parado para que um pedido de insanidade mental impetrado pela defesa dele seja analisado pela Justiça.

A defesa de Breno não foi localizado pela reportagem. O espaço segue aberto para futuras manifestações.

O envolvimento do advogado Lucas Arruda Rolim e a fuga de "Blindado" 

Três homens foram presos por suspeita de participação na morte de Silvio Vieira como executores. No entanto, com as novas revelações, esses homens não teriam agido diretamente no crime.   

Além de Breno, o advogado Lucas Arruda Rolim também é investigado por sua suposta participação no homicídio de Silvio Vieira. Ele foi preso em 23 de julho de 2025 e seu aparelho celular foi apreendido para extração de dados, visando obter mais provas da sua participação. 

Na época da prisão, a defesa do advogado Lucas Rolim enviou nota para a redação e se pronunciou sobre o caso. Assinada pelos advogados Raphaele Farrapo e Delano Cruz, a nota afirma que "no que tange às acusações envolvendo um membro de nossa equipe, Dr. Lucas Rolim, afirmamos categoricamente que são infundadas e serão devidamente comprovadas. A banca deposita total confiança na inocência do Dr. Lucas, cuja vida profissional e pessoal estava intrinsecamente ligada à do Dr. Silvio Vieira, com quem mantinha uma relação de profunda amizade e parceria".

Após a audiência de custódia de Francisco Assis e de Antônio Carlos, o advogado Lucas Rolim pediu para a mulher de Antônio Carlos não contar para ninguém que ele estava no caso. Ao ser perguntado sobre quem estava pagando os honorários, Rolim teria respondido que era “um padrinho” de Antônio Carlos. 

Conforme a investigação, a ligação de Lucas Rolim com o CV tem alguns anos. Em 2019, o Diário do Nordeste noticiou que, conforme o setor de Inteligência da Polícia Civil, Lucas integrava a logística do Comando Vermelho (CV). Naquele mesmo ano, ele chegou a ser preso duas vezes. 

A investigação, comandada pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), apontou que Lucas Arruda auxiliava “na elaboração de planos de fuga e influência no tráfico de drogas”. 

Ainda segundo documentos obtidos pela reportagem, Lucas intermediava de forma frequente a comunicação entre os membros do CV que estão presos e os que se encontram em liberdade. 

Lucas permanece preso. Após o assassinato de Silvio Vieira, Breno "Blindado" fugiu.

Conforme a investigação, ele atualmente se encontra foragido no Rio de Janeiro, sob a proteção da facção criminosa Comando Vermelho. De lá, ele seguiria repassando ordens para criminosos do CV no Ceará.  

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