Chefe do PCC que 'recrutava' adolescentes para facção é condenado a 19 anos no Ceará
O homem era responsável pelo 'batismo' de novos integrantes e tinha ligação com Marcos Herbas Camacho, o 'Marcola', nº 1 do PCC.
Um dos líderes do PCC e responsável por aliciar crianças e adolescentes no crime foi condenado pela Justiça do Ceará a 19 anos de reclusão. Conhecido como 'Faixa Preta', o suspeito Marcos Vinícius Pereira da Silva atuava como o 'Geral dos Menores do Estado', em Independência, no interior do Ceará.
A reportagem teve acesso a documentos que revelam que 29 adolescentes foram recrutados para atuar pelo Primeiro Comando na Capital (PCC), no Ceará.
A condenação de 'Faixa Preta' foi proferida na última quarta-feira (7) e é resultado da Operação Vesúvio da Polícia Civil do Ceará (PCCE), que resultou na condenação de outras 10 pessoas.
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Marcos Vinícius Pereira foi sentenciado por associação para o tráfico de drogas e por integrar organização criminosa, com o agravante de emprego de arma de fogo e aliciamento de crianças e adolescentes.
Além da pena de 19 anos, dois meses e 22 dias, foi adicionada uma multa de 1.555 dias, com o valor de cada dia valendo um trigésimo do salário mínimo.
Quem é o 'Faixa Preta' dentro do PCC
Marcos Vinícius, o 'Faixa Preta', acumula diversas funções na organização criminosa, a qual ele tem a sigla e a data de fundação tatuadas no peito.
O homem era líder do grupo de 29 crianças e adolescentes que integram o Primeiro Comando da Capital - (PCC), chamado de "Sintonia Geral dos Menores do Estado". Ele compartilhava a liderança com outro suspeito identificado apenas como 'Gordão Parceiro de Quadro'.
No momento que foi preso, 'Faixa Preta' tinha sido 'promovido' ao cargo de 'Geral da Regional do Estado', passando a ser responsável por liderar os 'disciplinas' e atuar como elo entre esse grupo e as outras lideranças da facção em diversas regiões do Estado.
Os 'disciplinas' são os responsáveis por controlar, ditar regras e aplicar punições aos integrantes da facção - agindo como um mecanismo que mantém a hierarquia, a ordem e o controle dentro da organização.
Segundo o Relatório Técnico da Polícia Civil obtido pela reportagem, ao ser promovido dentro da facção, o suspeito "passou a manter interlocução com diversos integrantes da organização criminosa em âmbito nacional, comunicando sua nova posição hierárquica".
Em conversas captadas pela Polícia, o suspeito informa aos outros criminosos que conseguiu se comunicar com Marcola - apontado como o chefe do PCC em São Paulo - e que o mesmo afirmou que 'se precisar ele, está à disposição de todos'.
Além disso, o suspeito encaminhava para o grupo interno da organização criminosa diversos 'cara-crachás' e registros de 'batismos' de novos integrantes.
Facção se organizava por grupos de mensagem; veja imagens
Um grupo de Whatsapp denominado 'Racha dos Amigos', criado por Marcus Vinicius, era o canal de organização do PCC, em Independência (CE). Além dele, outros 10 suspeitos de integrar o grupo também foram denunciados.
Em conversas captadas pela investigação, é possível ver um dos denunciados, conhecido como 'Tx', pedindo notícias sobre a passagem do Raio - Comando de Policiamento de Rondas de Ações Intensivas e Ostensivas da Polícia Militar do Ceará (PMCE) - no município.
Em outro momento, 'Faixa Preta' envia um comunicado sobre o avanço territorial do PCC no distrito da Pavuna e da Vila da Mata, na Pacatuba (CE) e no Timbó, em Maracanaú.
Um dos aliados de 'Faixa Preta', chamado de Vilmar Alves Bezerra, ou 'Piloto' também enviava informativos de ações da facção no grupo de mensagens.
Após a morte de um homem identificado apenas como Vinicíus, o 'Piloto' enviou no grupo uma mensagem dizendo que: "Quem mandou matar o Vinicius foi o safado do ´Pequeno'. Já viemos repassar para ele que a dor que os familiares do Vinicius estão passando ele também vai passar. Sangue se paga com sangue e vida se paga com vida".
Conforme a investigação, o tráfico de drogas na região operava por escala previamente estabelecida nos grupos de mensagens, inclusive com definição de horários e pontos de distribuição.
Em uma das conversas, Marcos expõe valores de drogas que seriam traficadas: "No óleo vai 140 pedras. É R$ 400,00 do cara e R$1.000,00 dele, mano. E no pó, acho que é 35 papelotes de pó, aí é R$500,00 dele e R$200,00 do cara".
Além de mensagens, diversas fotos de tabletes de drogas variadas foram encontradas no celular dele.
Como aconteceu a Operação Vesúvio que desbancou o grupo
A investigação começou em 2024, quando a polícia recebeu uma denúncia anônima sobre uma adolescente que supostamente estaria em uma motocicleta, indo buscar duas armas de fogo com 'Faixa Preta' e outro homem, conhecido como 'Cumpade Olavo'.
Como resultado da denúncia, foi instaurada uma Verificação de Procedência de Informação (VPI), que resultou em medidas de busca e apreensão na casa dos dois envolvidos e da adolescente - à época com 16 anos.
As buscas resultaram na apreensão do aparelho celular de Marcos Vinícus e na consequente investigação do grupo 'Racha dos Amigos'. Depois disso, outros nove celulares foram apreendidos e foi deflagrada a Operação Vesúvio, em julho de 2024.
Algumas mulheres atuavam em parceria com 'Faixa Preta', dentre elas, Márcia Maria Carvalho, que tinha função de armazenar e comercializar entorpecentes no turno da noite, além de ser a 'olheira' que monitorava ações da PMCE, em Independência (CE). Na casa dela, foram apreendidos oito quilos de maconha.
De todos os investigados, dois homens identificados como Natanael da Silva, o 'Gago' e Luís Guilherme do Nascimento, o 'Tx', são os únicos que ainda estão foragidos.
*Estagiária supervisionada pelo jornalista Emerson Rodrigues.