'Pode derrubar ela': 6 anos após execução, réu por armar emboscada contra a prima ainda não foi a júri
A vítima tinha dívida de R$ 1,4 mil e foi assassinada pelo agiota, em Fortaleza.
Passados seis anos e meio do assassinato de uma jovem de 18 anos, atraída ao local do crime pelo próprio primo dela, o caso segue com desfecho processual pendente. Um dos homens acusados pelo ataque morreu antes que a Justiça agendasse o júri. Caio Oliveira da Costa, primo da vítima, permanece em liberdade à espera pelo dia que deve sentar no banco dos réus.
Caio e Wellington Luis Esteves das Neves foram denunciados pela morte de Milena Soares da Silva. Em março de 2024, o magistrado da 3ª Vara do Júri decidiu pronunciar a dupla, ou seja, que os réus fossem levados ao Tribunal do Júri.
As defesas recorreram ao 2º Grau, mas em novembro do mesmo ano a decisão de pronúncia foi mantida. Os desembargadores da 3ª Câmara Criminal entenderam que seria necessário o encaminhamento dos réus "a julgamento pelo Tribunal do Júri, pois detém competência constitucional para o exame da questão".
Desde então, as novas movimentações do processo foram sobre recursos e julgamentos destes recursos de reaver bens apreendidos ao longo da investigação, como uma motocicleta. A ação transitou em julgado no último dia 9 de fevereiro deste ano de 2026 e, no dia seguinte, foram encaminhados os autos à 3ª Vara do Júri "para adoção das providências cabíveis".
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A defesa de Caio Oliveira, representada pela advogada Tatiana Matos, diz que o réu segue cumprindo medida cautelar sob monitoramento eletrônico e "nega que fez parte do ato".
O Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) informou, em nota, que "o processo está com prazo aberto para diligências, esclarecimentos ou juntada de documentos, período que antecede a marcação da data do júri popular".
ESQUEMA DE AGIOTAGEM
O motivo para a execução de Milena seria uma dívida no valor de R$ 1,4 mil a ser paga para Wellington, que atuava como agiota em Fortaleza. Um dia antes de ser morta, a jovem chegou a prestar Boletim de Ocorrência informando formalmente às autoridades que estava sob ameaças de Wellington Luís.
De acordo com a denúncia do Ministério Público do Ceará (MPCE), os réus eram amigos desde o colégio, e Caio era quem teria apresentado a prima ao agiota, se comprometendo de que ela honraria os empréstimos a juros.
Quando a vítima ultrapassou o prazo estipulado para o pagamento, Wellington teria passado a ameaçar Caio e Milena.
"Para livrar-se de possíveis retaliações e sabendo que Wellington já cogitava matar a vítima, resolveu arquitetar o cenário ideal para que ocorresse o homicídio de Milena. Conforme apurou-se da quebra de sigilo de dados e extração de informações do telefone celular apreendido com Wellington, Caio Oliveira teria elaborado um plano para atrair a vítima até a presença do comparsa, para que este pudesse praticar o homicídio".
A pedido do agiota, Caio atraiu a vítima ao local do crime. No dia 22 de julho de 2019, em Fortaleza, Milena estava transitando em um carro quando foi surpreendida por quatro disparos de arma de fogo.
O motorista do veículo que a transportava foi atingido de raspão
"Conforme apurado, descobriu-se que a vítima estava transitando em um veículo 'alugado' mediante aplicativo, indo para a Rua Rui Monte, bairro Antônio Bezerra, momento em que parou na Rua Água Verde, instante em que Wellington Luis Esteves das Neves, que estava em uma motocicleta, parou ao lado do veículo e a abordou, utilizando uma arma de fogo. Ato contínuo, o acusado passou a desferir vários disparos em desfavor da vítima, sem que houvesse nenhuma discussão", conforme a denúncia.
A DESCOBERTA DA EMBOSCADA
No dia 23 de julho de 2019, Wellington foi preso em flagrante. Na casa do suspeito, os policiais encontraram vasto material referente à agiotagem, inclusive um caderno com anotações no nome de Milena, e três celulares.
Em um dos celulares havia conversas entre Caio e Wellington, em horários aproximados ao do homicídio: "é possível que Wellington estivesse falando com Caio quando matou Milena já que testemunhas disseram que o homicida estava com o celular no ouvido quando praticou o homicídio", apontou a Polícia em relatório.
"Saliente-se que tanto nos dias anteriores, quando no dia do ilícito e logo após a consumação do crime, os réus se falaram por telefone, restando patente que Caio não só sabia que Wellington iria consumar o homicídio em análise como, por diversas vezes, instigou o comparsa a executar a conduta delituosa, afirmando que Wellington 'poderia derrubar' sua prima".
Primeiro, o Ministério Público denunciou o agiota. Caio foi preso semanas depois e confessou aos policiais que vinha sendo ameaçado pelo amigo, "que dizia que se iria matá-lo caso ele não pagasse a dívida da prima Milena".
Na versão de Caio, ele negou que sabia que a prima seria assassinada. No entanto, para a acusação, "a atuação dissimulada de Caio, foi possível a execução do homicídio por Wellington, pois obteve êxito em atrair à vítima ao sítio do crime, temos que ambos devem responder pelo crime em apreço em concurso de pessoas, sendo também lhes aplicável as qualificadoras do motivo torpe e da impossibilidade de defesa".
O órgão acusatório acrescenta que o primo da jovem "não só instigou como contribuiu efetivamente para a consumação do ilícito, para o fim abjeto de não pagar pela dívida de sua prima, mesmo asseverando que serviria de garantia quando procurou o agiota, restando aplicável a qualificadora do motivo torpe em seu desfavor, portanto. A sua atitude dissimulada perante a ofendida, sua prima, também dificultou a defesa desta".
O homicídio teria acontecido em um momento de total desprevenção por parte de Milena, que estava desarmada quando foi executada.