O que é Burnout materno e o que o Legislativo tem feito para ajudar as mães
Política de apoio e prevenção ao problema relacionado à maternidade está em análise pelo Senado Federal.
Cansaço físico e mental extremo, distanciamento emocional, ansiedade, dores de cabeça e musculares, além de problemas cardíacos e gastrointestinais. Estes são alguns dos sintomas que caracterizam a síndrome do Burnout, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde desde 2025. Contudo, não é apenas o trabalho remunerado que causa o problema: 9 em cada 10 mães brasileiras sofrem com algum sintoma de Burnout parental.
"É um esgotamento emocional, muito parecido com o burnout que tem no trabalho, só que na responsabilidade do cuidado dos filhos e da família", resume a fundadora e CEO da B2Mamy, Dani Junco. A instituição, junto com a KindlePass, foi responsável pela pesquisa que mostrou que 88% das mães sofrem com algum sintoma da síndrome do Burnout por conta da maternidade.
O problema é maior quando elas são mães solos ou quando elas não possuem rede de apoio — seja familiar ou remunerada. Mães de crianças atípicas e mulheres negras também são recortes que agravam o quadro de estafa mental, conforme a pesquisa realizada em 2024.
Os dados foram usados como referência durante a aprovação do projeto de lei que institui a Política Nacional de Apoio e de Prevenção à Estafa Mental ou Burnout Maternidade pela Câmara dos Deputados. A proposta está sob análise do Senado Federal e aguarda a votação na Comissão de Assuntos Sociais antes de ir para o plenário da Casa.
Segundo levantamento do PontoPoder, esse é o único projeto que trata diretamente sobre o tema em tramitação no Congresso Nacional.
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Urgência de apoio às mães
Autora do projeto de lei, a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) reforça que a proposta tem como objetivo reconhecer a "função social da maternidade" e, por isso, a necessidade de políticas de apoio às mães.
"Cuidando das mães e aliviando as pressões que têm levado inúmeras mulheres ao adoecimento por buscarem um ideal inatingível de maternidade. Mais que isso, o projeto procura salientar que o dever do cuidado dos bebês, das crianças e adolescentes não é apenas das mães, mas da família, da sociedade e do Estado", diz a justificativa do projeto de lei.
O texto afirma que a prevenção e apoio às mães, com garantia de "bem-estar físico, mental e emocional" destas mulheres, começaria ainda na gestação, passando pelo parto, a infância e a adolescência dos filhos ou em situações de adoecimento das crianças.
Isto porque o Burnout materno tem consequências sérias não apenas para essas mulheres, mas também para crianças e adolescentes sob cuidados delas em rotinas, frequentemente, sobrecarregadas com a tripla jornada — trabalho remunerado, tarefas domésticas e tarefas de cuidado.
Dani Junco explica que o esgotamento mental das mães costuma resultar em um de dois comportamentos: a apatia total ou a violência. "Na apatia total, a mãe não consegue lidar com a criança, brincar com ela, dar atenção para ela", explica. "A mãe se distancia do comprometimento e faz só o mínimo possível ou ela acaba gritando ou sendo violenta fisicamente".
"Um país preocupado com o futuro das novas gerações deve criar uma política de apoio às principais cuidadoras das suas crianças, que em nossa sociedade desigual, na prática são as mães", acrescenta Maria do Rosário, na justificativa do projeto de lei.
O que diz o projeto de lei?
O projeto de lei elenca políticas públicas em diferentes áreas, como a Saúde e a Educação, além de medidas a serem adotadas no ambiente do trabalho e também campanhas de conscientização sobre o tema e sobre a necessidade de apoio às mães.
A Política Nacional deve ser implementada, segundo o projeto, em ações integradas "entre os órgãos de saúde, de assistência social e de educação, com vistas ao suporte emocional, à conscientização e à prevenção relativos à estafa mental e burnout na maternidade".
O texto propõe, por exemplo, a promoção da saúde mental para gestantes e mães de crianças ou adolescentes no Sistema Único de Saúde (SUS). O foco, segundo a proposta, é na "prevenção e no tratamento da depressão pós-parto, estafa mental ou burnout relacionados à maternidade".
O texto também prevê a prioridade para o apoio especializado às mães que tenham um dos quadros citados. Sob responsabilidade do SUS, também deverão ser feitas capacitações com profissionais da saúde com vista a realizar esse atendimento especializado "focada na sua identificação precoce, na orientação adequada às mulheres e no acompanhamento multidisciplinar quando necessário".
Na saúde primária, existe ainda o incentivo a criação de grupos de apoio à maternidade, como forma de compartilhamento de experiência entre as mães.
Existe também uma medida para "estímulo às políticas de flexibilidade quanto às jornadas de trabalho" das mães, principalmente para a adoção da modalidade híbrida ou remota, principalmente para aquelas que têm filhos de até 4 anos de idade ou que necessitem de atenção e cuidados.
A medida será adotada em um contexto em que 64% das mães brasileiras precisam abandonar ou fazer uma transição de carreira, enquanto mães com filhos ainda na Primeira Infância — período que vai dos 0 aos 6 anos — demonstram 18% a mais de esgotamento do que mães com filhos mais velhos.
Necessidade de rede de apoio
Parte das medidas busca ampliar a rede de apoio da mulher — oferecendo mais tempo de permanência das crianças em ambiente escolar ou incentivando uma maior participação familiar nos cuidados, principalmente dos pais.
Segundo a pesquisa sobre Burnout materno, mães sem nenhum tipo de rede de apoio possuem 59% mais chances de terem de esgotamento moderado a grave — atualmente, 30% destas mulheres não possuem esta rede de apoio.
Para tentar minimizar o problema, o projeto determina o incentivo à criação de espaços de cuidado infantil para "facilitar o ingresso, o retorno e a manutenção do trabalho e do estudo para as mulheres no exercício da maternidade".
Existe ainda a previsão de estímulo à educação infantil em período integral e da prevenção ao abandono escolar da mãe estudante.
"Existem vários lugares no Brasil que não tem nem creche, o que é pior ainda. Mas mesmo as que tem creche, tem um contraturno escolar. E as mães precisam continuar gerando renda", contrapõe Junco. E isso ocorre com ajuda familiar ou, quando isso não existe, com a ajuda de "mães crecheiras", por exemplo.
"São mulheres sem preparo, mas que acabam ajudando ao abrir um espaço nas suas casas para cuidar de x crianças ao mesmo tempo. Então, as mulheres vão se virando e isso vai trazendo muitos desafios, principalmente para quem é mãe solo", acrescenta.
E isso traz outro dado alarmante: "o esgotamento das mães é 20% maior quando o pai não está presente". Então, a presença paterna, a parentalidade ativa é muito, muito importante nessa fase", afirma.
O projeto de lei também traz a perspectiva de conscientizar da necessidade de uma melhor divisão nos cuidados com as crianças, principalmente com a família. São delimitadas três ações nesse sentido:
- Promoção de políticas públicas e de redes de apoio que incentivam cuidados familiares compartilhados e igualitários;
- Incentivo à divisão de tarefas domésticas e de cuidado com crianças entre os membros da família;
- Promoção de campanhas de conscientização sobre a importância do autocuidado e da divisão de tarefas no âmbito familiar;
'É o começo do que a gente precisa'
Para Dani Junco, a proposta em tramitação no Senado Federal "é o começo do que a gente precisa". Não apenas pelas medidas trazidas pelo projeto de lei e que podem contribuir no apoio às mães sofrendo com o burnout parental, mas também pela importância de colocar esse tema em pauta.
Contudo, apenas isso não é suficiente. A fundadora e CEO da B2Mamy cita dois pontos que precisam caminhar juntos com a política pública voltada ao cuidado às mães com esgotamento.
A primeira delas é a necessidade de ampliar a licença paternidade, como forma de permitir que os pais possam ter tempo para dividir as tarefas de cuidado em um período crucial. Em 2026, o período dessa licença aumentou de 5 para 20 dias. "Por mais que isso tenha sido uma vitória, foi longe do que a gente imaginava, do que foi pedido", pontua Junco.
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Outra questão que precisa ser levada em consideração, destaca ela, é a discussão da Economia do Cuidado. Incluída no Sistema de Contas Nacionais em projeto de lei aprovado na Câmara dos Deputados, de autoria da deputada federal Luizianne Lins (Rede-CE), a proposta também aguarda deliberação do Senado Federal.
Nela, se reconhece o valor econômico de atividades como preparar alimentos, limpar a casa, cuidar de crianças, idosos e pessoas com deficiência – tarefas realizadas sem remuneração e, em sua maioria, por mulheres. O objetivo é que esses dados passem a ser considerados na formulação de políticas públicas, ainda que não integrem diretamente o Produto Interno Bruto (PIB).
A sobrecarga materna, que pode resultar em Burnout, é atravessada por vários elementos, como os citados por Junco, e por isso não possui uma solução simples. "Na pesquisa, mostra que as mulheres não querem mais ter filhos. Ela não tem condição, elas estão muito sozinhas, muito sobrecarregadas e quando querem, querem um só", pontua. "É um problema grande e precisa de muita gente".