Baú da Política: José Walter, o prefeito que criou e emprestou o nome para bairro de Fortaleza
O Diário do Nordeste explora a história política e social do Ceará a partir do legado de políticos que dão nomes a bairros da Capital
Era o início dos anos 1970, quando nasceu, em Fortaleza, uma ocupação diferente do que existia até então na Capital. Com casas padronizadas, todas com quintal, ruas repletas de árvores e vias setorizadas por letras e números, surgia, assim, o maior conjunto habitacional da América Latina, que posteriormente se tornaria um dos mais conhecidos bairros de Fortaleza, o Conjunto Prefeito José Walter. O curioso é que o batismo oficial como bairro ocorreu de uma forma incomum para os dias atuais, quando o homenageado ainda estava exercendo o cargo de prefeito.
Localizado ao lado do Mondubim, a partir de um terreno comprado pela Prefeitura de Fortaleza ainda em 1960 para atender à crescente demanda por moradia, o conjunto habitacional é inicialmente chamado de Núcleo Habitacional Integrado do Mondubim, mas logo é renomeado em reconhecimento ao idealizador do projeto.
Esta reportagem, que inaugura o “Baú da Política — Especial Bairros” de Fortaleza, relembra a história e o legado de “Zé Walter”. Nesta série de reportagens, o Diário do Nordeste explora a história política e social do Ceará a partir do legado de políticos que dão nomes a bairros da Capital.
Veja também
QUEM FOI O PREFEITO JOSÉ WALTER?
Natural de Capistrano, o engenheiro civil José Walter Cavalcante governou Fortaleza entre 1967 e 1971, indicado pelo então presidente Costa e Silva, durante o regime militar. O cearense carregava no currículo a experiência como diretor da Estrada de Ferro Fortaleza-Baturité. Esse “perfil técnico” pesou quando os militares foram escolher o novo prefeito da Cidade.
À frente da Prefeitura, ele comandou obras marcantes e, algumas vezes, controversas, como define o professor, historiador e ex-vereador de Fortaleza, Evaldo Lima. Foi sob ordem de José Walter que o Município demoliu a icônica Coluna da Hora e o Abrigo Central, na Praça do Ferreira. Por outro lado, o político foi responsável pela inauguração do Ginásio Paulo Sarasate e pela ampliação da quantidade de vias asfaltadas em Fortaleza.
“Ele se caracterizou por intervenções urbanas marcantes, mas algumas são bem controversas e despertaram, na época, bastante polêmica entre os memorialistas. A demolição da Coluna da Hora e do Abrigo Central são exemplos, porque eram símbolos da Praça do Ferreira, então derrubar foi absolutamente controverso”
“Mas, sem dúvidas, o legado mais importante dele é o bairro Conjunto José Walter. Foi uma região planejada, com organização urbana singular. Ele, inclusive, pensou na característica de que toda casa tivesse um quintal, (o prefeito) dizia ser inadmissível para um cidadão, um trabalhador, não ter um quintal em casa”, acrescenta Evaldo Lima.
Ruas e avenidas do bairro seguem divididas por letras e números:
DE PREFEITO A NOME DE BAIRRO
A primeira etapa — de quatro — do chamado Núcleo Habitacional Integrado do Mondubim foi inaugurada em 20 de março de 1970. Com desenho inovador do arquiteto Marrocos Aragão, inspirado em cidades planejadas, o projeto previa cerca de 5 mil moradias populares.
Popularmente, o local já era chamado de “Conjunto José Walter” mesmo antes de ser concluído. Além de ter tirado o projeto do papel, o prefeito comandava as obras na época, o que acabou gerando ainda mais identificação.
Para oficializar a homenagem, o vereador Raimundo Linhares apresentou o projeto de lei nº 52, em 25 de agosto de 1969, sugerindo a denominação de "Engenheiro José Walter Barbosa Cavalcante" ao local.
A matéria seguiu tramitando ao longo do ano seguinte e ainda recebeu uma emenda dos vereadores Raimundo Linhares e Myrtes Campos, alterando o futuro nome do espaço para "Prefeito José Walter Barbosa Cavalcante".
A mudança foi aprovada em 18 de dezembro de 1970 e foi encaminhada pelo então presidente da Casa, Agostinho Moreira e Silva, para o prefeito da Capital à época, José Walter. A matéria foi promulgada e virou a lei nº 3832, de 6 janeiro de 1971, publicada no Diário Oficial de Fortaleza cinco dias depois.
HOMENAGEM EM VIDA
Quando o bairro foi renomeado, Fortaleza era comandada pelo prefeito José Walter. Ele, inclusive, viveu o suficiente para ver o bairro que construiu se consolidar como um dos mais conhecidos de Fortaleza. O político morreu no dia 3 de julho de 2025, aos 97 anos. Após deixar a gestão municipal, ele não retornou para a política.
A homenagem a pessoas vivas, hoje proibida por lei, era possível e até comum até os anos 1980, explica o historiador Evaldo Lima.
“Essa questão de homenagem apenas a pessoas que já morreram é um fenômeno recente, remonta à Constituição de 1988. Tanto que algumas ruas de Fortaleza tem até hoje homenagem a políticos e outras personalidades vivas, é porque foram nomeados antes disso”, aponta.
Em Fortaleza, a proibição de homenagear pessoas vivas surgiu somente com a Lei nº 5530, de 17 de dezembro de 1981, o Código de Obras e Posturas.
No Capítulo XLV, que versa sobre a denominação de logradouros públicos e numeração de prédios, o artigo 680 estabelece que para a denominação serão escolhidos:
- nomes de pessoas, datas ou fatos históricos que representem, efetivamente, passagens de notória e indiscutível relevância;
- nomes que envolvam acontecimentos cívicos, culturais e desportivos;
- nomes de obras literárias, musicais, pictóricas, esculturais e arquitetônicas consagradas;
- nomes de personagens de folclore; de acidentes geográficos, ou se relacione com a flora e a fauna locais.
“Sob nenhum pretexto dar-se-ão às ruas, praças, avenidas, viadutos ou jardins públicos, nomes de pessoas vivas. Sob nenhum pretexto dar-se-ão aos bairros nomes de pessoas vivas ou mortas, ressalvadas as atuais denominações. Não serão admitidas modificações na denominação já tradicional de logradouros públicos ou bairros, ressalvado o disposto no art. 582”, acrescentam os três parágrafos do artigo.
O Código de Obras e Posturas foi substituído, em 2019, pelo Código da Cidade, a Lei Complementar nº 270. A norma mais recente mantém, em sua seção III, Artigo 522, parágrafo 1º, a proibição de “bairros, praças, vias, edifícios públicos municipais e suas dependências, bem como a todo e qualquer logradouro público municipal” ter nome homenageando pessoas vivas.
UM BAIRRO FOLCLÓRICO
Além da urbanização planejada e da homenagem ao ex-prefeito de Fortaleza, o bairro José Walter ganhou um caráter folclórico por conta de uma “fama” propagada pelo típico humor cearense. Dizia-se que, como todas as casas do local eram iguais, era mais fácil para que as esposas e os maridos entrassem na casa dos vizinhos, traindo seus respectivos cônjuges. Outro boato disseminado dizia que, por ser um bairro mais afastado, era ideal para instalar as amantes, longe da residência oficial da família.
Ao longo dos 55 anos desde a inauguração da primeira etapa do então Núcleo Habitacional Integrado do Mondubim, o bairro Prefeito José Walter seguiu crescendo, ampliando sua rede de serviços e atraindo novos moradores, consolidando-se como principal legado do ex-prefeito de Fortaleza homenageado com a denominação do bairro.