Anotações de Flávio Bolsonaro desenham aliança de oposição no Ceará com Ciro Gomes à frente

Mais longe de um pensamento ideológico, pré-candidato do PL sinaliza alianças pragmáticas no Nordeste.

Escrito por
Inácio Aguiar inacio.aguiar@svm.com.br
(Atualizado às 11:10)
Legenda: O ato de filiação de Ciro ao PSDB, ainda no ano passado, contou com a presença de André e Alcides Fernandes
Foto: Thiago Gadelha/SVM

Um documento que circulou nos bastidores do Partido Liberal e ao qual a imprensa nacional teve acesso lança luz sobre o que, até aqui, era tratado como articulação reservada no Ceará. As anotações do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência da República, desenham no Estado um cenário de apoio do PL a uma possível candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao Governo. 

O rabisco de articulações, divulgado pelos jornais Folha de S. Paulo e O Globo, registra nomes e funções em vários estados, entre eles o Ceará. Aqui, o deputado Alcides Fernandes aparece como candidato ao Senado e como responsável por liderar o palanque presidencial de Flávio no Ceará. As anotações confirmam um cenário desejado por Ciro e seus aliados: ter o apoio do PL, mas deixando o palanque nacional para os candidatos do próprio partido. 

O desenho inclui ainda a perspectiva de formação de uma chapa com nomes já citados na oposição como Priscila Costa (PL), Roberto Cláudio (União Brasil) e Capitão Wagner (União Brasil). 

As anotações mostram, conforme já relatado nesta Coluna, que mesmo após a determinação pública de suspensão das negociações com Ciro, anunciada depois da passagem de Michelle Bolsonaro pelo Ceará em novembro, quando a ex-primeira-dama fez críticas duras à possibilidade de aliança, os diálogos nunca cessaram. Seguiram, de forma discreta, sob comando de André Fernandes. O deputado é o interlocutor do PL no Estado.

O cenário desenhado leva a crer que a decisão de “frear” as tratativas teve muito mais caráter simbólico, para conter a reação da base bolsonarista mais ideológica, do que efeito prático sobre a estratégia local. 

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Pragmatismo acima do discurso 

As anotações de Flávio revelam também que o Ceará não é um caso isolado. Há registros de parceria com ACM Neto na Bahia e com Ciro Nogueira no Piauí.  

O movimento indica pragmatismo político do grupo bolsonarista, que busca ampliar palanques competitivos nos estados, algo mais distante do que acredita a base mais ideológica. Mostra ainda um reposicionamento de Flávio que vinha incentivando candidaturas próprias do PL nos estados. 

Nesse contexto, o Ceará surge como peça relevante no Nordeste, região historicamente desafiadora para o bolsonarismo. Uma aliança com Ciro, liderança consolidada no Estado, amplia capilaridade e oferece estrutura eleitoral já testada. 

A estratégia de Ciro 

Do lado tucano, a movimentação também é coerente com o plano traçado por Ciro Gomes. A Coluna já revelou que o ex-ministro trabalha para desvincular o debate estadual da disputa presidencial, abrindo espaço para que partidos com projetos nacionais distintos possam compor no Ceará. 

A lógica é simples: transformar 2026 no Estado em uma eleição de perfil administrativo e local, não ideológico. Essa engenharia permitiria, por exemplo, que o PL apoiasse sua candidatura ao Governo enquanto mantém palanque próprio à Presidência. 

Nos bastidores, outro nome reforça essa construção. O senador Rogério Marinho (PL-RN), designado coordenador nacional da pré-campanha de Flávio e figura próxima do ex-presidente Jair Bolsonaro, é simpático à aliança no Ceará. 

Sem surpresa no grupo cirista

A revelação das anotações não pegou de surpresa aliados de Ciro. Internamente, o apoio do PL já era tratado como provável. O documento apenas dá materialidade ao que vinha sendo articulado longe dos holofotes. 

Se confirmada, a composição desenha o campo oposicionista no Ceará e pode isolar outras candidaturas no campo, como a de Eduardo Girão.