Em Juazeiro, Ciro reforçou estratégia de tentar blindar a disputa local da polarização nacional

O ex-ministro sabe que é difícil montar uma aliança local sem o PL e o Bolsonarismo, mas não fica confortável em abraçar Flávio Bolsonaro.

Escrito por
Inácio Aguiar inacio.aguiar@svm.com.br
(Atualizado às 12:27)
Legenda: O histórico das últimas eleições tem mostrado ser difícil superar a polarização
Foto: Marcos Moreira/SVM

No encontro regional de oposição realizado no fim de semana em Juazeiro do Norte, Ciro Gomes confirmou a estratégia, antecipada por esta Coluna, de blindar a eleição estadual da polarização nacional entre Lula e o campo bolsonarista que deve ser liderado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL). 

A declaração do ex-ministro funciona como a chancela pública de um movimento: unificar a oposição no Ceará a partir de um projeto local, liberando aliados para apoiarem, nacionalmente, os candidatos de suas opções. 

"Se isso virar Lula ou Bolsonaro, a gente entra redondo pelo cano. Temos que trazer essa eleição pra cá, pro chão do Ceará", afirmou Ciro, ao alertar que a polarização nacional inviabiliza o debate sobre temas sensíveis do Estado como segurança pública, facções criminosas e gestão. 

Qual a estratégia? 

O raciocínio é pragmático e conveniente. Ciro, pelos posicionamentos políticos recorrentes nos últimos anos, tem dificuldade de abraçar a maior força da oposição nacional, que é o bolsonarismo. Entretanto, ele sabe que seria uma tarefa difícil formar um palanque local robusto sem o PL e suas lideranças. 

Além do mais, ele tem interesse em atrair parceiros como a federação formada por União Brasil e PP, cuja posição nacional ainda é desconhecida. Assumir um lado no debate nacional seria, para Ciro, o caminho mais curto para a fragmentação local. Ao admitir essa diversidade, ele tenta transformar o que seria um problema em ativo político. 

Reposicionamento de discurso 

Ao afirmar que “não acredita mais neste sistema” nacional, Ciro sinaliza também um reposicionamento de discurso. Menos embate ideológico, mais foco em governabilidade e segurança, temas que ele considera com forte apelo no eleitorado cearense e que podem se perder se a eleição vira um plebiscito Lula versus Bolsonaro. 

A leitura parece correta, mas descolar as duas disputas e reduzir os efeitos da polarização têm sido tarefa quase impossível nos últimos anos.