Em Juazeiro, Ciro reforçou estratégia de tentar blindar a disputa local da polarização nacional
O ex-ministro sabe que é difícil montar uma aliança local sem o PL e o Bolsonarismo, mas não fica confortável em abraçar Flávio Bolsonaro.
No encontro regional de oposição realizado no fim de semana em Juazeiro do Norte, Ciro Gomes confirmou a estratégia, antecipada por esta Coluna, de blindar a eleição estadual da polarização nacional entre Lula e o campo bolsonarista que deve ser liderado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL).
A declaração do ex-ministro funciona como a chancela pública de um movimento: unificar a oposição no Ceará a partir de um projeto local, liberando aliados para apoiarem, nacionalmente, os candidatos de suas opções.
"Se isso virar Lula ou Bolsonaro, a gente entra redondo pelo cano. Temos que trazer essa eleição pra cá, pro chão do Ceará", afirmou Ciro, ao alertar que a polarização nacional inviabiliza o debate sobre temas sensíveis do Estado como segurança pública, facções criminosas e gestão.
Qual a estratégia?
O raciocínio é pragmático e conveniente. Ciro, pelos posicionamentos políticos recorrentes nos últimos anos, tem dificuldade de abraçar a maior força da oposição nacional, que é o bolsonarismo. Entretanto, ele sabe que seria uma tarefa difícil formar um palanque local robusto sem o PL e suas lideranças.
Além do mais, ele tem interesse em atrair parceiros como a federação formada por União Brasil e PP, cuja posição nacional ainda é desconhecida. Assumir um lado no debate nacional seria, para Ciro, o caminho mais curto para a fragmentação local. Ao admitir essa diversidade, ele tenta transformar o que seria um problema em ativo político.
"Um gosta do Bolsonaro, outro gosta do Lula. Está tudo bem", disse, para emendar com o ponto central da estratégia: o pacto é estadual, não presidencial.
Veja também
Reposicionamento de discurso
Ao afirmar que “não acredita mais neste sistema” nacional, Ciro sinaliza também um reposicionamento de discurso. Menos embate ideológico, mais foco em governabilidade e segurança, temas que ele considera com forte apelo no eleitorado cearense e que podem se perder se a eleição vira um plebiscito Lula versus Bolsonaro.
A leitura parece correta, mas descolar as duas disputas e reduzir os efeitos da polarização têm sido tarefa quase impossível nos últimos anos.