Venda de lugares, noite na fila e aglomeração: os desafios para ter acesso ao auxílio de R$ 600

Benefício, que tem o objetivo de minimizar o efeito da pandemia sobre as famílias, têm causado transtornos e exposição ao vírus

Legenda: As aglomerações se repetem nas agências da Caixa, Bradesco, Itaú e Banco do Brasil na Parangaba, na manhã desta segunda-feira (4)

O auxílio emergencial, benefício criado pelo Governo Federal para minimizar os efeitos da crise do novo coronavírus sobre as famílias, tem sido a garantia de comida em casa de centenas de pessoas. Para, de fato, ter acesso ao dinheiro, no entanto, muitos tem enfrentado aglomerações, noites em filas e até venda de lugares. As situações vêm sendo relatadas desde o começo dos saques, em abril.

A agência da Caixa em Maranguape já amanheceu com dezenas de pessoas esperando atendimento. A desempregada Paula Raquel chegou às 6h e revela estar se arriscando por necessidade. "Eu to com o aluguel atrasado e o pessoal quer receber a todo custo. A gente fica aqui se expondo, arriscando a família quando chega dentro de casa. A gente fica se arriscando pra tentar receber esse dinheiro", afirma.

Ela ainda revela a prática de venda de lugares na fila. "Tem gente aqui que vende a R$ 50, R$ 70 um canto. É um absurdo. Tem gente que tá aqui e nem precisa, é só pra ganhar dinheiro às custas dos outros. E o pessoal precisando no dinheiro, compra", detalha Paula.

Mesmo na fila preferencial e tendo chegado às 6h, muitas pessoas ainda estão à frente da desempregada, que lembra que vários dormiram na fila. "A situação tá complicada lá em casa. Tem o dinheiro e ao mesmo tempo não tem, porque fica essa desorganização aqui. Tem gente que dorme na fila. Se o índice está aumentando aqui em Maranguape é por causa disso aqui, dessa aglomeração à toa", denuncia.

Noite de espera

Um dos que passaram a noite no local foi o humorista Everton Ferreira, que chegou às 15h deste domingo (3). Ele revela que não conseguiu acesso no aplicativo Caixa Tem - plataforma disponibilizada pelo banco para movimentar o dinheiro do auxílio na poupança digital - e se viu obrigado ir até a agência resolver. "Passei a tarde na fila, a noite, a madrugada e estamos esperando ser atendidos. Não é muito bom, tem a insegurança, a gente tem medo, fica com frio, com fome", lamenta.

Ele detalha que, por ser humorista, a renda está comprometida durante o isolamento social, evidenciando a importância do benefício para a família. "Estamos aqui só por necessidade mesmo. Gostaria de estar em casa. E não é só eu. Às 3h da manhã, a fila já etava dobrando o quarteirão", reforça.

A situação não poupa nem os mais vulneráveis. A costureira Maria da Penha está grávida de nove meses e chegou na agência em Maranguape às 6h. Segundo ela, também tentou outros canais para ter acesso ao dinheiro e não conseguiu. "Aí tem que enfrentar essa fila. Até para parir tem que ter dinheiro", brinca a grávida que senta no chão devido ao cansaço.

Em uma das agências de maior movimentação nas últimas semanas, em Messejana, a autônoma Maria Núbia Paz passou mais de 24 horas esperando atendimento. Ela chegou às 6h do última dia 20 de abril. "Não consegui atendimento, aí resolvi ficar até hoje (21 de abril)", conta.

Para conseguir passar tanto tempo no local, ela revela que o filho foi deixar comida para ela permanecer na fila."Tá valendo a pena. Não estou aqui à toa. Tenho fé que vou sair beneficiada com meu auxílio", afirmou.

Aglomerações pela Capital

As aglometações se repetem nas agências da Caixa, Bradesco, Itaú e Banco do Brasil na Parangaba, na manhã desta segunda-feira (4), tendo em vista que, sendo o primeiro dia útil do mês, muitas pessoas saíram para receber aposentadoria e outros benefícios. 

No Centro, concentração é observada na Rua General Sampaio. Já na agência da Caixa na Praça do Ferreira, agentes da Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis) e da Autarquia Municipal de Trânsito, Serviços Públicos e Cidadania (AMC), juntamente com a guarda municipal e a polícia militar, iniciam trabalho educativo em 20 agências do banco.

Cones estão sendo colodados para delimitar o local de cada cliente, mantendo a distância de um metro e meio. Kits com duas máscadas de panao tambem foram distribuídos junto com orientações para realizar os serviços de casa, pela internet.

Na última sexta-feira (1º), o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, anunciou a contratação de 5 mil funcionários para reforçar o atendimetno durante a liberação do auxílio-emergencial. A maioria são vigilantes para organizarem as filas e evitar aglomerações nas agências. Dez dias antes, o banco já havia contratado 2,8 mil vigilantes.

Bancos recomendam evitar agências

Cientes de que a primeira semana útil do mês tem maior movimentação nas unidades, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) reforçou em nota enviada nesta segunda-feira (4) a orientação de evitar ir até agências bancárias durante a pandemia, lembrando que quase todos os serviços são acessíveis pela internet e aplicativos.

Segundo a instituição, os bancos adotaram uma série de medidas para organizar as filas dentro e fora das agências, como marcações nas calçadas com no mínimo 1,5m de distância. Mesmo com os cuidados, o diretor de autorregulação da Febraban, Amaury Oliva, ressalta ser imprescindível que as pessoas só se dirijam às agências em último caso, para aqueles atendimentos que não podem ser realizados por outros canais, como internet, aplicativo ou telefone.

"Se o cliente realmente precisar ir ao banco, ele deve utilizar máscara de proteção logo que sair de casa, para se proteger. Caso não tenha máscara descartável, ele deve utilizar uma caseira. Ao chegar na agência, é importante respeitar o distanciamento em relação aos demais clientes e em hipótese alguma formar aglomerações", alerta.

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