Selic a 2,25% põe fim à era de rendimentos altos e baixo risco

Investidores acostumados à poupança e outras opções da renda fixa que queiram rentabilidade acima da inflação terão de aceitar mais riscos nas aplicações. Fundos imobiliários podem ser 'transição' a mercado acionário

Mais um corte da taxa básica de juros (Selic) - agora em 2,25% ao ano - consolida a tendência de juros baixos para os próximos anos e impõe desafios para os investidores. Quem está habituado a aplicar na caderneta de poupança ou em CDBs, por exemplo, terá de buscar outras opções e correr mais riscos para continuar a fazer o dinheiro render.

Os produtos de renda fixa, que até pouco tempo atrás rendiam cerca de 1% ao mês, quando a Selic girava em torno de 12%, hoje rendem cerca de 3% ao ano. E, for se considerada a inflação, próxima a 2%, a rentabilidade real dessas aplicações, hoje, é praticamente zero.

"Esse corte da Selic gera um impacto significativo para aquele pequeno poupador mais conservador. Não só a poupança, mas a renda fixa como um todo terá um ganho real muito baixo, o que significa que vai ter apenas a manutenção dos seus recursos. E isso gera uma perspectiva de uma migração de recursos, provavelmente, para a renda variável ou para fundos multimercados (com diferentes classes de ativos em um único produto)", diz Ricardo Coimbra, presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE).

Coimbra avalia que o Brasil segue um movimento que já ocorreu em países com baixas taxas de juros, onde há uma cultura de investimentos em empresas por meio de ações negociadas em bolsas de valores. "Nesses países, já houve uma migração da renda fixa para a renda variável, com o investidor se posicionando em grandes empresas que apresentem uma perspectiva de remunerar o capital investido, não apenas pela valorização das ações, mas por dividendos. Ele vai comprando ações para acumular. Quando você vira sócio de uma empresa com boas perspectivas, você terá um rendimento muito superior do que teria em uma aplicação de renda fixa".

Mínima histórica

Desde dezembro de 2017, quando foi fixada em 7% ao ano, o menor patamar até então, a Selic vem renovando mínimas históricas, até que, na última quarta-feira (17), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu realizar mais um corte, de 0,75 ponto percentual (p.P.), levando a taxa básica para 2,25% ao ano.

Neste nível, um investimento de R$ 1 mil em um fundo DI (renda fixa) renderá, em um ano, 1,86%, descontando o imposto de renda, o que representaria um retorno de R$ 18,60. Se estivesse na poupança, esse valor renderia 1,57%, ou R$ 15,70, mas com a inflação de 1,60% projetada para 2020, na prática, o investidor perderia dinheiro.

"Para o pequeno investidor, principalmente aquele mais conservador que gosta do conforto da renda fixa, a notícia é desanimadora. O significado da Selic a 2,25% representa, na melhor das hipóteses, uma rentabilidade real zero, quando descontada a inflação. Então isso é ruim? Sim, se você é um investidor muito conservador; mas não, se você é uma empresa ou indivíduo que precisa de crédito porque pagará menos juros", resume o economista Luiz Viana, professor de economia e mercado de capitais da Universidade de Fortaleza.

Diante dessa perspectiva, Viana avalia que o investidor que queira uma rentabilidade um pouco acima que a inflação terá de, necessariamente, aceitar um pouco mais de risco, ou volatilidade em suas aplicações. "Ele precisará diversificar seus investimentos incluindo um pouco de renda variável na sua carteira", diz.

Renda variável

Acompanhando essa tendência de queda das taxas de juros, e consequente perda da rentabilidade de aplicações tradicionais, o investidor cearense vem aumentando sua participação na bolsa de valores nos últimos meses. Apenas neste ano, até maio, o número de cearenses passou de 30,1 mil no começo de janeiro para 46,4 mil, no fechamento de maio, o que representa uma alta de 54%.

Dentro do segmento de renda variável, além das ações de empresas, Viana destaca as atratividades dos fundos de investimentos imobiliários (FIIs), cujas cotas podem ser compradas pelo home broker, assim como as ações, mas possuem uma volatilidade menor e costumam pagar rendimentos mensais aos cotistas a taxas mais atraentes do que a Selic. Assim, os FIIs podem ser o primeiro passo para os pequenos investidores que pretendem comprar ações na Bolsa.

"Observe que a curva de crescimento de número de investidores em FIIs cresceu exponencialmente a partir de 2019, enquanto a curva da taxa Selic continuava em queda livre", diz Viana. "E por que os FIIs foram os escolhidos pelos investidores? Porque, apesar de serem classificados com renda variável, eles apresentam algumas características interessantes que 'parecem' de renda fixa, tornando-se uma área de transição", diz Viana. Segundo a B3, o total de investidores em FII saiu de 640 mil em dezembro de 2019 para 790 mil em março de 2020, uma alta de 23,4%.

Recomendação

Mesmo em um cenário no qual as aplicações em renda fixa rendem pouco ou zero, opções como a poupança ou fundos DI, que tenham liquidez diária, sem burocracia para aplicar ou para resgatar, permanecem sendo um lugar seguro para manter uma reserva de emergência.

Nessas aplicações, é possível resgatar o recurso sem o risco de perdas por volatilidade. E, antes de direcionar qualquer quantia para investimento, é preciso quitar dívidas, cujos juros são mais elevados do que qualquer aplicação, "obviamente mantendo a reserva", diz Ênio Arêa Leão, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Ceará (Ibef Ceará).

"Com o juro real muito baixo, quando você tira o imposto de renda, (o rendimento) vai a zero. O que mostra que a gente não deve ter renda financeira real neste ano e isso deve se manter nos próximos dois ou três anos, a depender da retomada da economia", diz Arêa Leão.

"O primeiro ponto é buscar conhecer mais sobre opções de investimento e não acreditar em milagre. Você tem que fazer investimento com risco controlado, mantendo liquidez pelo menos para as despesas de emergência e construir patrimônio no médio e longo prazo", aponta.

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