Menos impacto em cerâmicas
Atividade de grande impacto, as cerâmicas têm buscado alternativas para garantir a sustentabilidade
É consenso entre os estudiosos da Ecologia que qualquer atividade produtiva resulta em impactos ao equilíbrio ambiental. Algumas em menor, outras em maior proporção. Entre estas, sempre figurou o setor ceramista, que já causa impacto na extração da matéria-prima, o barro; continua no desmatamento para a produção da lenha que alimenta seus fornos; e finda na poluição do ar respirado pelas regiões circunvizinhas e contribuir para o famigerado aquecimento global.
Diante da inevitabilidade do uso de telhas e tijolos para a garantia de abrigo e local de trabalho, no entanto, o setor tem buscado formas de reduzir ao máximo as agressões da atividade sobre o ambiente.
“Quem aqui não utiliza nenhum material cerâmico vermelho em seu dia-a-dia?”. Com essa pergunta, Paulo Sérgio Ramalho Dantas costuma iniciar palestras, desde a conquista, em 2007, do primeiro lugar no Prêmio Finep de Inovação Tecnológica, com o forno Cedan, desenvolvido por ele, em Russas, cidade localizada na Região Jaguaribana, há 152 quilômetros de Fortaleza.
Dantas quebrou a cabeça para desenvolver um sistema onde a temperatura, em 12 câmaras, é rigorosamente monitorada, proporcionando a reciclagem de até 80% do calor gerado na queima, com possibilidade de transferência de calor das várias células em até 90% para as estufas. Dessa forma, garante-se, não apenas uma redução de 75% no uso de lenha, mas uniformidade na produção e significativa redução de perdas com 95% de aproveitamento.
O forno Cedan ainda conta com as vantagens de baixo custo de manutenção, simplicidade operacional, redução na emissão de gases e facilidade na lavagem dos gases pela temperatura final abaixo de 80 graus centígrados.
Preocupado com a sustentabilidade do negócio e também do planeta, Paulo Dantas é rigoroso no uso de lenha de poda de cajueiro (80%) e de manejo florestal: “Divido a área em dez e, quando retorno à primeira, a vegetação já está no ponto de corte”, explica.
Créditos de carbono
Estima-se que o ser humano lance mais de 35,5 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2), o principal gás causador do aquecimento global, por ano na atmosfera. Para minimizar o problema, foram criados projetos de redução de emissões de gases do efeito estufa (GEE). No momento, a Cerâmica Dantas está pronta para colocar créditos de carbono à venda no mercado livre, dependendo apenas dos últimos trâmites burocráticos.
Ação multiplicada
Visionário, além de produzir telhas, Paulo Dantas, está construindo o forno Cedan por todo o País. Já há 14 em funcionamento e mais dois em construção, sendo oito no Ceará, em Russas, Limoeiro do Norte, Jucás, Crato e Sobral e mais seis em Santa Catarina, Bahia, Rio Grande do Norte, Paraíba e Maranhão.
O Ceará tinha 426 cerâmicas no pelo Censo de 2003. Russas concentra o maior número, com mais de 90 unidades. Segundo o sindicato do setor, as cerâmicas cearenses geram10 mil empregos diretos e 30 mil indiretos. Elas produzem tijolos, telhas, lajes e elementos vazados ou combogós. Aproximadamente 80% da produção fica no próprio Estado.
NOVIDADES NO SETOR
Diversos resíduos já substituem lenha
Num gesto simbólico, em sua última passagem por Fortaleza, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, incinerou redes de pesca ilegal apreendidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O que muitos não sabem é que aquela cerâmica escolhida para a incineração é um protótipo que utiliza resíduos mais caloríficos e menos poluentes que a lenha utilizada tradicionalmente na atividade.
Marcelo Tavares, diretor de Marketing do Grupo Tavares — que tem 21 cerâmicas na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), em Itaitinga, Aquiraz, Caucaia e São Gonçalo do Amarente — conta que há mais de dez anos se busca alternativas à lenha na atividade, inicialmente com a utilização experimental do LCC, óleo da castanha de caju, sendo que há três anos foram iniciados os testes para atingir composição com melhores efeitos.
O Grupo conta hoje com oito fornecedores de matéria-prima, entre raspa e pó de serraria, borra de oiticica, quenga de coco, casca de castanha e borra da mamona. Na unidade Assunção IV (Aquiraz), onde o projeto modelo do sistema de queima ecológica iniciou, em 2006, o processo já é 100% renovável. Semanalmente, são utilizados cerca de 3.400 quilos da mistura de resíduos renováveis para a queima da cerâmica, tendo a poda de cajueiro como combustível reserva.
Mais duas unidades do Grupo Tavares estão em processo de adequação para utilizar o composto: uma em Itaitinga e em outra em Aquiraz. “Destacam-se todos os esforços para diminuir a poluição nas outras unidades, onde a lenha que ainda é consumida é oriunda de planos de manejo florestal, devidamente fiscalizados pelos órgãos de defesa ambiental”, afirma Raimundo Assunção Tavares, diretor do Grupo.
“Essa foi a alternativa para a sobrevivência da atividade, entre o rigor da fiscalização e a pressão dos fornecedores. Um plano de manejo chega a demorar um ano e meio para renovar”, completa Marcelo.
“A vantagem é que esses resíduos são materiais renováveis facilmente encontrados. Antes da finalidade ecológica, eram simplesmente descartados pelas indústrias”, ressalta Lourival Tavares, diretor do Grupo. Segundo ele, a eficiência dos resíduos é ainda maior que a da lenha. Aproveitar o material, antes colocado no lixo, também significa queimar gás metano, 21 vezes mais gerador de efeito estufa que o gás carbono, deixando de contribuir para o aquecimento global.
As mudanças também garantem maior controle dos produtos, já que o sistema é automatizado, desde a trituração e mistura dos resíduos, até a alimentação das bocas para a queima. No momento, além de atuar na substituição da lenha, usando equipamentos produzidos em oficinas próprias, o Grupo aplica todas as medidas complementares para entrar no mercado de carbono.
FIQUE POR DENTRO
Saiba como funciona o mercado de carbono
Os projetos de redução de emissões de gases do efeito estufa (GEE) foram criados para conter o crescimento do aquecimento global. Avaliados por metodologias aprovadas pela Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, eles podem gerar créditos de carbono e serem utilizados por países desenvolvidos integrantes do Anexo 1 do Protocolo de Quioto para alcançar suas metas de redução das emissões. O Protocolo de Quioto institui o mercado de carbono como um dos mecanismos para reduzir os custos no corte das emissões, assim como o mecanismos de desenvolvimento limpo (MDL) e a implementação conjunta.
Mas o mercado de carbono também existe fora do contexto de Quioto, com programas voluntários de redução das emissões. O mercado voluntário abre as portas para a inovação e para projetos de menor escala que seriam inviáveis sob Quioto. As negociações são guiadas por regras comuns de mercado, podendo ser efetuadas em bolsas, por intermediários ou diretamente entre os interessados. A convenção para a transação dos créditos é o CO2 equivalente. O Brasil, que já ocupou o primeiro lugar no ranking dos produtores de projetos, perdeu o lugar para a China e a Índia. Esses dois países e mais a Austrália, Coréia do Sul e Japão produzem quase metade dos GEE. Segundo especialistas, o potencial brasileiro é muito grande, com grande expectativa no novo mercado.
fonte: www.carbonobrasil.com
Maristela Crispim
Repórter