Quando o talento da sua equipe começa a mirar a sua cadeira

Escrito por
Delania Santos ds@delaniasantos.com
Legenda: A ambição, quando bem direcionada, é um ativo.
Foto: Shutterstock/New Africa

Formar pessoas competentes é uma das maiores responsabilidades e uma das maiores provas da liderança. Mas há um momento pouco falado nessa jornada: quando alguém do seu time não apenas cresce, mas começa, de forma sutil ou explícita, a se posicionar para ocupar o seu lugar. E é aqui que a liderança deixa de ser apenas técnica e passa a ser profundamente emocional e intencional. Vamos refletir?

Por mais preparado que um líder seja, esse tipo de situação pode despertar sentimentos ambíguos: orgulho pelo desenvolvimento do outro e visão de novas oportunidades de crescimento dentro ou fora da organização ou, ao mesmo tempo, um desconforto silencioso diante da possibilidade de substituição.

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Sob a perspectiva do liderado, a questão não está necessariamente ligada a ambição ou, muito menos, a deslealdade. Profissionais qualificados normalmente sabem o que querem para suas carreiras, e a ambição, quando bem direcionada, é um ativo.

O ponto de atenção está em como essa ambição se manifesta, como o líder reage a ela e como a organização potencializa o seu capital humano.

Diversas pesquisas indicam que a perspectiva de crescimento na carreira é um dos principais fatores de atração e retenção de profissionais altamente qualificados. Nesse contexto, organizações que possuem uma cultura meritocrática bem estabelecida e uma arquitetura clara de cargos e salários tendem a conduzir processos de sucessão com menos ruídos, reduzindo conflitos e disputas de poder, embora isso não os elimine completamente.

Por outro lado, quando os critérios de promoção não são transparentes ou a estrutura organizacional limita o crescimento vertical como ocorre, muitas vezes, em empresas familiares, cria-se um terreno fértil para disputas mais intensas e, por vezes, pouco sutis. O líder se sente inseguro por não ter certeza sobre sua condição dentro da empresa e o liderado enxerga a posição do líder como sua única cartada.

A ausência de clareza nos papéis, aliada à falta de maturidade relacional, fragilidade na liderança e baixa confiança nos critérios institucionais, pode transformar o ambiente em um verdadeiro campo de tensão, comprometendo não apenas as relações, mas também os resultados do negócio.

Como identificar se há disputa desleal pela liderança?

Disputas desleais drenam energia e ampliam o cenário de incerteza para todos os envolvidos. Um líder que não está refém da própria vaidade, que não se apega ao cargo e que conhece profundamente sua equipe, assim como seus próprios objetivos de carreira, desenvolve repertório emocional para discernir intenções.

Consegue perceber quando determinados comportamentos ultrapassam a ambição legítima e passam a sinalizar desalinhamentos mais profundos. E esses sinais, embora nem sempre explícitos, costumam se manifestar em padrões reconhecíveis:

  • Tentativas de protagonismo fora de contexto: ocorrem quando o profissional busca visibilidade em momentos ou espaços que não lhe cabem, antecipando-se a decisões, conduzindo discussões sem legitimidade formal ou assumindo posições que ainda não fazem parte do seu escopo. Não se trata de iniciativa saudável, mas de um movimento desalinhado que pode gerar ruído e desconforto na dinâmica da equipe;
  • Exposição desnecessária do líder: manifesta-se em atitudes que colocam o líder em situação de vulnerabilidade diante de outros, como questionamentos públicos sem alinhamento prévio, correções em fóruns inadequados ou a revelação de informações fora de contexto. Esse tipo de comportamento fragiliza a relação de confiança e pode ser interpretado como tentativa de deslegitimação.
  • Movimentos de influência paralela: são articulações feitas nos bastidores, fora dos canais formais de decisão, com o objetivo de construir apoio, ganhar espaço ou direcionar percepções. Embora sutis, esses movimentos criam desalinhamentos e enfraquecem a governança, pois desviam a comunicação de fluxos transparentes.
  • Uma competição que não é declarada, mas é percebida: trata-se de um ambiente onde não há confronto explícito, mas os sinais de disputa são claros: comparações constantes, busca por destaque individual, retenção de informações e uma tensão implícita nas interações. É uma competição silenciosa, que muitas vezes não é nomeada, mas impacta diretamente o clima e a colaboração.

Ignorar esses sinais é um erro. Reagir de forma defensiva, também! Esse cenário exige estabelecer limites claros de atuação, ancorados em exemplos concretos, fatos e dados. Mais do que apontar o que não é aceitável, é papel do líder explicitar o que se espera e, principalmente, o porquê.

Ao substituir o tom acusatório por uma comunicação objetiva e orientada a desenvolvimento, cria-se espaço para ajustes sem ruptura.Em paralelo, é fundamental que esses movimentos sejam devidamente compartilhados com instâncias superiores ou áreas responsáveis, como o Recursos Humanos. Não como forma de escalada do problema, mas como estratégia de alinhamento, proteção institucional e coerência na condução da situação.

O que o líder deve fazer, se o movimento do liderado é genuíno?

Quando o desejo de crescimento é expressão de ambição e não de deslealdade, é natural que o liderado manifeste esse movimento. Isso pode ocorrer de forma direta, em momentos formais como reuniões de feedback, ou de maneira mais sutil, ao se engajar em projetos e iniciativas que extrapolam sua atuação formal.

Para que o líder atue nessa situação com maturidade, é importante realizar dois movimentos:

O primeiro é clareza estrutural e o que deseja para a própria carreira. O crescimento acontece com mais equilíbrio quando o líder tem clareza do seu destino nessa transição.

Se a estrutura da empresa não permite crescimento, é o momento de pensar quando será o seu próximo desafio no mercado, decidir o que fará se parar de trabalhar (se este for o caso) ou estar disposto a perder um talento. Porque se nada for planejado para garantir o crescimento desse profissional, ele vai sair!

O segundo movimento é uma conversa franca. Liderança não se sustenta em suposições. Quando há sinais consistentes, é papel do líder trazer o tema para um diálogo adulto e entender intenções, alinhar expectativas e estabelecer limites.

Liderança não é um cargo que se ocupa, é movimento. E em ambientes onde o crescimento é incentivado, é natural que novos talentos se destaquem. A pergunta não é se alguém vai querer avançar. É se o líder está preparado para crescer junto com esse movimento ou se será ultrapassado por ele.

Nesta coluna, trarei reflexões sobre carreira, liderança, coaching e as principais tendências que impactam o mundo do trabalho. Sua participação é muito bem-vinda. Comente, envie sua pergunta ou fale comigo pelo Instagram @delaniasantosds. Aproveite também para se inscrever no canal do YouTube @delaniasantosds. Será um prazer ter você comigo nessa jornada. Até a próxima!

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