Pecuária do Ceará já tem o Nelore Myo, de dupla musculatura

Em Milagres, o pecuarista Yuri Landim investe no desenvolvimento da raça, que dá 20% a mais de carne do que o gado zebuino

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 07:41)
Legenda: O Nelore Myo (foto) chegou ao Ceará pela região do Cariri, vindo de Goiás, onde tudo começou. A Faec quer expor a raça na Expocariri
Foto: Divulgação
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Está acontecendo, na maior surdina, uma revolução na pecuária de corte do Ceará. O cearense Yuri Landim, dono de uma pequena fazenda na área rural de Milagres, no Cariri cearense, de cuja área de 100 hectares apenas 50 estão a produzir, desenvolve um projeto de melhoria genética do Nelore Myo, uma raça 100% brasileira, criada em Goiás, no Centro Oeste brasileiro, pelo veterinário e pecuarista Rodrigo Alonso, que descobriu suas virtudes. De Goiás, por ousada iniciativa de Landim, o Nelore Myo migrou para o Sul do Ceará, onde cresce de modo positivamente surpreendente.  

O melhoramento genético do Nelore Myo surgiu do Belgian Blue (azul belga), que, segundo o Google, possui “uma mutação natural no gene da myostatina (proteína que limita o crescimento muscular), resultando em sua inativação. Sem esse ‘freio’ biológico, os animais desenvolvem dupla musculatura, com cerca de 20% a mais de massa muscular e carne de alta qualidade”. É verdade, pois o rebanho de Landim é visivelmente musculoso. 

Conversando ontem, por uma rede social, com o presidente da Federação da Agricultura (Faec), Amílcar Silveira, que está muito entusiasmado com esse projeto, Yuri Landim não teve dúvida de dizer que “o futuro da pecuária cearense vai requerer precisão e qualidade acima de tudo”. Por isto, ele acrescentou, “o projeto Nelore Myo tem compromisso com o rendimento da carcaça, mas hoje já agrega novas variáveis, como a maciez da carne e o marmoreio”.  

(Ensina o Google que marmoreio “é a gordura intramuscular, ou seja, pequenos veios de gordura entremeados nas fibras musculares da carne; visualmente, assemelha-se aos veios de uma pedra de mármore, característica que valoriza cortes bovinos, como Angus e Wagyu, por aumentar a maciez, a suculência e o sabor.) 

Como, nessa mesma rede social, vários pecuaristas de diferentes regiões do Ceará demonstraram interesse em também participar do projeto, Yuri Landim cuidou de transmitir-lhes mais detalhes sobre o Nelore Myo. Ele disse que o uso da myostatina proporciona ao Nelore a hiperplasia da célula muscular e não a hipertrofia. Esta se refere ao crescimento da quantidade de células; aquela trata do crescimento das células. Para melhor entendimento, Yuri Landim explicou: 

“Vamos supor que um centímetro de carne tenha 10 células musculares; isto se chama hiperplasia. A hipertrofia faz duas células se tornarem um centímetro, o que torna a carne mais dura. Já a carne que tem mais células, isto é, a hiperplasia, tem mais facilidade de desprender uma célula da outra.” 

Esta coluna pode antecipar que, na próxima ExpoCariri, a ser realizada na última semana de outubro, em Barbalha, o Projeto Nelore Myo terá um estande próprio para disseminar sua tecnologia. O objetivo conjunto de Yuri Landim e de Amílcar Silveria é disseminar essa ideia para que, nos próximos três anos, a raça Nelore Myo já tenha uma população capaz de multiplicar-se pelo estado todo.  

O tema é técnico e, por isto mesmo, a pedido da coluna, Yuri Landim elaborou o texto abaixo, que é bem esclarecedor do que se trata o Projeto Nelore Myo: 

“O Nelore Myo é um projeto que vem sendo conduzido desde 2004 no Brasil, com o objetivo de fazer a introgressão da variante no gene da miostatina na raça Nelore. A miostatina (MSTN) é uma proteína responsável pelo desenvolvimento muscular nos bovinos. Os animais que possuem mutação no gene MSTN apresentam o fenótipo conhecido como Dupla Musculatura, encontrado em raças taurinas como Belgian Blue, Piemontês, Charolês, Limousin, Rubia Gallega, entre outras.  

“Entretanto, essa variação genética não é encontrada nas raças zebuínas, que são as mais utilizadas na pecuária de corte nacional devido à sua maior rusticidade e adaptabilidade ao clima e sistemas de produção do país. Assim, o médico veterinário Rodrigo Alonso, realizou, em Goiás, o cruzamento das raças Nelore e Belgian Blue para produzir os primeiros animais da linhagem.  

“A partir das fêmeas ½ sangue, sempre foram usados touros Nelore Padrão (PO e CEIP) para produção das sucessivas gerações (3/4, 7/8, 15/16, 31/32 e 63/64, 127/128), utilizando tecnologias genômicas para assegurar a presença da variante MSTN em todos os animais utilizados. 

“Depois de 22 anos de trabalho, hoje temos uma linhagem que possui em sua composição genética mais de 99,9% Nelore e menos de 0,1% Belgian Blue, que é justamente o Gene Myo. Com a disseminação desse projeto o Nelore Myo chamou a atenção pelo grande volume de carne e alto desempenho e começou a ganhar espaço na pecuária brasileira, destacando-se.  

“Em 2022 o pecuarista, jornalista (integrou o quadro de reportagem da TV Verdes Mares Cariri) e empresário Yuri Landim, proprietário da Fazenda Lagoa dos Torrões, em Milagres (CE), conheceu a genética através das redes socias, e adquiriu um bezerro nelore Myo homozigoto positivo para gene da miostatina.  

“Na época, esse animal tinha 7 meses de idade pesando 255kg e já chamava atenção de todos pelo volume da musculatura. Por se tratar do primeiro Nelore Myo a chegar à região do Cariri, no Sul do Ceará, onde a estiagem prevalece por 8 meses, o bezerro que surpreendeu novamente a todos.  

“Após um ano, criado no sertão em meio a escassez de água, esse animal dobrou seu peso. Com os resultados obtidos, Landim investiu novamente na raça, adquirindo novos animais diretamente da central Nelore Myo e montando seu plantel criado 100% a pasto, e os resultados continuaram surpreendendo.  

"Depois de 3 anos de uso da genética na fazenda, Landim ressalta as vantagens de ter investido na raça. Sua produção, passou a desmamar animais com 8 meses de idade pesando em média de 240 quilos e alcançando o ponto ideal para o abate aos 24 meses de idade. Hoje a fazenda de Landim prospera atendendo à pecuária moderna, que exige alta produção em pequenos espaços. A fazenda tornou-se referência na criação da raça no estado, agregando um alto valor produtivo na sua pequena propriedade com apenas 50 hectares."

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