Agro Automóvel Papo Carreira Tecnologia

Com 20 anos de obras, o que falta para a conclusão da Transnordestina?

Ferrovia tem 527 quilômetros no Ceará, com quatro lotes já concluídos.

Escrito por
Mariana Lemos mariana.lemos@svm.com.br
Foto de trem da ferrovia Transnordestina.
Legenda: Transnordestina tem diversos trechos em obras no Ceará.
Foto: Thiago Gadelha.

A construção da Transnordestina completa oficialmente 20 anos em junho de 2026, entre rescisões de contrato e paralisações. Com novo prazo de entrega para 2027, as obras da ferrovia tem tomado ritmo acelerado nos últimos meses.

A ferrovia de 1,2 mil quilômetros irá ligar Eliseu Martins, no Piauí, ao Complexo do Pecém, no Ceará. Já foram concluídos 727 quilômetros e há outros 326 km em obras, segundo a Transnordestina Logística S.A. (TLSA), empresa responsável pela obra. 

"A fase 1 compreende o trecho de Paes Landim (PI) até o Porto do Pecém (CE), e estará concluída em 2027, dentro do cronograma", afirma a companhia. A conclusão física dessa fase está em 81%. 

Já a fase 2, de Paes Landim a Eliseu Martins (ambas cidades do Piauí), está em fase inicial das obras de infraestrutura. 

Em fevereiro deste ano, chegou da China o último lote de trilhos necessário para concluir a montagem completa da linha férrea.

Impacto da Transnordestina 

A ferrovia é uma das grandes apostas para a otimização do transporte de cargas no Nordeste. Entre os efeitos esperados estão integração da produção, desenvolvimento de negócios locais e estímulo à exportação.

Com a Transnordestina, o Porto do Pecém deve aumentar em 400 o número de navios que recebe e dobrar a movimentação de cargas

Veja também

A ferrovia deve transportar grãos (como soja e milho), combustíveis, ração, minérios, frutas e outros itens. A capacidade prevista é de 30 milhões de toneladas por ano. 

PROBLEMAS ESTRUTURAIS E DESCONTINUIDADE FINANCEIRA SÃO RISCO

A promessa de operação comercial em 2027 é possível, mas é preciso considerar que o projeto enfrentou inúmeros atrasos ao longo de duas décadas, aponta Marcus Quintella, diretor da FGV Transportes

"Os atrasos são muito desafiadores. E o que pode atrasar a obra? Você atravessa mais de 50 municípios com riscos ambientais, desapropriações que precisam ser feitas, tem a terraplanagem que pode exigir substituição do solo ou alguma obra especial", comenta. 

Outro fator, segundo o especialista, é o risco de descontinuidade financeira com uma possível mudança da gestão federal. Em 2024, as obras chegaram a ser paralisadas por atrasos na liberação de recursos do Governo Federal. 

Segundo a TSLA, ao longo de 2024, a empresa não recebeu nenhum repasse federal devido à desatualização no contrato e falta de comprovação da aplicação de recursos. Os repasses voltaram de forma acelerada nos últimos meses.

A empresa deve receber nos próximos dias cerca de R$ 152,4 milhões do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE) para as obras. Em janeiro, foram liberados R$ 106,2 bilhões, o primeiro aporte do ano.

Os dois valores completam a parcela de R$ 1 bilhão prevista para liberação em 2025. Outros R$ 1,7 bilhão devem ser liberados até 2027. A fase 1 da ferrovia tem investimento de R$11,3 bilhões, segundo o Ministério dos Transportes.

OBRAS EM TODOS OS TRECHOS DO CEARÁ

A Transnordestina tem 100% das obras mobilizadas no Ceará. Há intervenções em andamento em todos os trechos pendentes, entre trabalhos de infraestrutura e superestrutura (montagem dos trilhos). 

Cerca de metade da linha férrea no Ceará deve estar totalmente concluída até julho de 2026, totalizando 253 de 527 quilômetros. Dos 11 lotes, quatro já foram entregues. 

Imagem mostra mapa de lotes em prontos e em obras da ferrovia Transnordestina.
Legenda: Mapa acompanha fases de execução da obra no Ceará.
Foto: Fabiane de Paula.

A ferrovia é executada pela Marquise, responsável por nove lotes, e pela Agis Construção, contratada para os lotes 9 (Baturité–Aracoiaba, com 46 km) e 10 (Aracoiaba–Caucaia, com 51 km)

Esses trechos tiveram ordem de serviço assinada no fim de dezembro e são considerados os de maior dificuldade estrutural, devido ao relevo serrano e terreno acidentado. 

Segundo a Agis, a previsão de conclusão da infraestrutura do trecho 10 é de maio de 2027, enquanto o trecho 9 deve ser finalizado em meados de agosto de 2027. 

FERROVIA JÁ OPERA EM FASE DE TESTES

A ferrovia iniciou, em janeiro, operação em fase de testes em trechos que já foram concluídos. O transporte em regime de comissionamento funciona com escala reduzida e transportando menos cargas que a capacidade total. 

Neste primeiro momento, a Transnordestina vai transportar grãos, algodão, minérios, gesso, gipsita e contêineres. 

Por ano, a fase de comissionamento poderá levar até 1 milhão de toneladas de cargas. Os trens vão ter duas locomotivas e 20 vagões cada, com velocidade máxima de 60 km/h, seguindo as determinações estabelecidas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). 

Com a conclusão da linha férrea, a operação em fase de testes deve escalonar até que ocorram ajustes de material e testes de segurança, segundo Marcus Quintella.

As indústrias e empresas de transportes também devem se adaptar ao transporte ferroviário, com contratos logísticos e operacionalização do acesso aos terminais.

"A ferrovia organiza uma demanda existente, ela não vai criar a demanda, a demanda está lá. Hoje o modelo rodoviário é predominante, então você tem que migrar. Tem que ter fluxos logísticos muito vem trabalhados para que o dono da carga entenda que isso é mais vantajoso".

Newsletter

Escolha suas newsletters favoritas e mantenha-se informado
Este conteúdo é útil para você?
Assuntos Relacionados