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Por que o pink money deixa a maioria dos LGBT+ de fora?

Luciano Rodrigues luciano.rodrigues@svm.com.br
03/06/2026 - 06:00

O pink money movimenta bilhões no Brasil. Para se ter ideia, em 2023, a comunidade LGBTQIAPN+ injetou R$ 18,7 bilhões na economia brasileira, segundo levantamento da NIQ. Mas quem de fato acessa esse dinheiro no Ceará?

Para Gean Duarte, economista e fundador do Bixa Rica, o conceito carrega uma distorção. "Nem toda pessoa LGBTQIAPN+ tem alto poder aquisitivo. Essa narrativa do 'gay rico' apaga desigualdades internas enormes, especialmente entre pessoas trans, negras e periféricas", avalia. 

De acordo com ele, o pink money só cumpre seu papel quando gera inclusão real. "Quando empresas contratam pessoas LGBTQIAPN+, criam ambientes seguros, apoiam empreendedores da comunidade e investem de forma consistente, isso movimenta renda e amplia oportunidades", lista. 

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Mitchelle Meira, ex-secretária da Diversidade do Ceará, acrescenta que o conceito, da forma como é debatido, foca em um público muito bem delimitado: pessoas LGBTQIAPN+ das classes A e B, predominantemente homens cis, que não querem passar perrengues no turismo.

"São pessoas que têm poucos ou nenhum filho, viajam todo ano, vão gastar em torno de 15% a 20% mais do que heterossexuais. Investem em pagar melhor para não sofrer preconceitos. Aquele dinheiro que se tem para uso básico não chega a ser pink money, chega a ser dinheiro para necessidade. Para a maior parte da população LGBTQIAPN+, é preciso de uma política pública para inseri-las no mercado e na educação", reforça. 

Roberto Kanter, professor de MBAs da FGV, pondera que o conceito precisa ser lido a partir do contexto de cada região. "Em alguns lugares do País, como em grandes capitais, o pink money vai ser um segmento, mas na maioria dos outros lugares, ou é nicho, ou é cluster", obseva. 

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Legenda: Pink money foca mais no poder de consumo dos LGBTQIAPN+ em detrimento da inserção no mercado.
Foto: Kid Júnior, Thiago Gadelha e Ismael Soares.

Um caminho para empreender e pertencer 

Para Kanter, o pink money não representa apenas o consumo direcionado, mas também ocupa também um espaço simbólico na vida da população LGBTQIAPN+. 

"O dinheiro é a consequência de como se materializam desejos, e isso faz com que a comunidade tenha tanta relevância. Quando se faz parte de uma comunidade, não precisa pretender ser quem não é. A pessoa se sente à vontade de se expressar. Isso traz um sentimento de conforto enorme", destaca. 

O pink money é um dos meios pelos quais a comunidade se expressa. Obviamente faz muito mais sentido fazer negócios com quem me identifico, onde me sinto confortável em gastar o meu dinheiro, seja R$ 1 em uma bala ou R$ 1 mil para em uma classe executiva ou ficar em hotéis 5 estrelas".
Roberto Kanter
Professor de MBAs da FGV

Mônica Arruda, gerente da Unidade de Cultura Empreendedora e coordenadora do Programa Plural, do Sebrae/CE, classifica o pink money como uma prática da comunidade que os coloca como consumidores importantes.

"Eles têm uma identidade própria, buscam produtos que atendam às necessidades e à identidade também, não só oferecendo produtos quando eles são empreendedores, mas também consumindo", expõe.

No caso dos empreendedores LGBTQIAPN+, Mônica argumenta que são pessoas que, de modo geral, iniciam o próprio negócio em busca da autonomia financeira, mas as questões estruturais de mercado são entraves para desenvolver a capacidade produtiva.

Empreendedorismo LGBTQIAPN+ é necessidade real para a comunidade.
Legenda: Empreendedorismo LGBTQIAPN+ é necessidade real para a comunidade.
Foto: José Leomar/Diário do Nordeste.

"Tem pessoas que querem buscar projetos próprios, enveredar para projetos pessoais. Por um lado a necessidade; por outro, tem pessoas que são voltadas às áreas criativas, entretenimento, serviços e beleza", destaca. 

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O risco de desviar a pauta

Quando o pink money vira apenas marketing, tem nome: pinkwashing. O termo descreve empresas e organizações que se vestem de apoiadoras da causa em datas estratégicas, mas não adotam práticas reais de inclusão, como políticas de contratação ou ambientes seguros para trabalhadores LGBTQIAPN+.

Para Duarte, o pinkwashing é economia de aparência. "Isso gera desgaste de confiança do consumidor e enfraquece negócios que realmente têm compromisso com inclusão. Pinkwashing captura consumo sem redistribuir valor. É extrair valor simbólico de uma comunidade sem devolver oportunidade, renda ou representatividade", enfatiza. 

Amplo poder de compra da população LGBTQIAPN+ não pode ser confundido com disfarce em busca de lucro, alertam especialistas.
Legenda: Amplo poder de compra da população LGBTQIAPN+ não pode ser confundido com disfarce em busca de lucro, alertam especialistas.
Foto: Kid Júnior.

"Quando empresas usam bandeira colorida em junho, mas não contratam, não promovem diversidade e não investem na comunidade, transformam identidade em propaganda", completa. 

Roberto Kanter acredita que a prática tem prazo de validade. "O pinkwashing tem uma vida curta. Se não for algo interno e verdadeiro, vai escorregar e perceber que é muito mais para inglês ver do que uma manifestação de verdade", avalia. 

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Créditos

Luciano Rodrigues, Repórter | Louise Dutra, Infografia | Fabiane de Paula, Ismael Soares, Kid Júnior e Thiago Gadelha, Produtores Audiovisuais | Bruna Damasceno e Hugo R Nascimento, Supervisores de Jornalismo | Victor Ximenes, Coordenador de Jornalismo | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | G André Melo, Gerente de Audiovisual | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo e Esporte

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