Os dados sociodemográficos que retratam a população brasileira para subsidiar políticas públicas deixam uma lacuna: quem são e quantas são as pessoas LGBTQIAPN+?
A resposta não pode ser encontrada em dados oficiais do poder público, seja na esfera municipal, estadual ou federal. O último Censo Demográfico do País, realizado em 2022 pelo IBGE, segmenta os brasileiros por raça, classe social, escolaridade e religião.
Não há, no recenseamento, nenhum dado que quantifique a população por orientação sexual ou identidade de gênero. Os efeitos dessa ausência chegam à economia.
O primeiro estudo a mensurar essa conta foi publicado no fim de abril, elaborado pelo Banco Mundial em parceria com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
O levantamento mostra que a exclusão da população LGBTQIAPN+ do mercado de trabalho formal custou ao Brasil cerca de R$ 95 bilhões em 2024, o equivalente a 1% do Produto Interno Bruto (PIB) do País.
LGBTQIAPN+ nas estatísticas erradas
A reportagem procurou dados públicos que mensurassem a população e o poder econômico de pessoas LGBTQIAPN+ no País, mas não os encontrou.
O MDHC informou que, "atualmente, não há dados oficiais que permitam mensurar o impacto econômico do público LGBTQIAPN+ no PIB brasileiro ou segmentações por estado, uma vez que ainda não existe codificação específica sobre orientação sexual e identidade de gênero no Censo Demográfico."
Por meio da assessoria de imprensa, o IBGE informa que "o Censo não é a pesquisa ideal para coletar esse tipo de informação", em referência ao quantitativo da população LGBTQIAPN+, "por ser um tema sensível, uma vez que um informante responde pelos demais moradores do domicílio".
"Uma nova edição da pesquisa está em campo até novembro de 2026, com previsão de divulgação dos resultados até início de 2028", complementa o instituto.
O único dado público disponível remonta a 2022. Com base em autodeclarações de 2019, o IBGE estimou que o Brasil tinha cerca de 3 milhões de pessoas que se declaravam homossexuais ou bissexuais, pouco mais de 5% da população.
Estudos de entidades não governamentais chegam a números bem maiores, entre 15 milhões (Sebrae) e 24 milhões (USP e Unesp) de brasileiros se identificando como LGBTQIAPN+, o que representaria entre 10% e 15% da população.
Para Mitchelle Meira, especialista em políticas públicas para a Diversidade, o grande problema é que as "estatísticas não têm o recorte da orientação sexual e da identidade de gênero".
"Até um dia desses, não tinha recorte racial. Quando a gente cria dados, damos mais transparência a esses números. Precisamos ter uma política efetiva, com cuidado", pondera.
Invisibilidade recai ainda mais forte sobre a população transgênero
A lacuna é ainda mais profunda quando o recorte é a população transgênero. As únicas informações disponíveis contabilizam apenas a população LGBP, considerando a orientação sexual, não o gênero.
Um dos poucos dados aceitos pela comunidade foi elaborado em parceria pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2022.
Os cerca de 2% da pesquisa que não se identifica como cisgênero representam uma parcela de mais de 4 milhões de brasileiros, conforme dados da população brasileira disponibilizadas no último Censo.
De acordo com as universidades, 1,19% dos brasileiros se identifica como não-binário e 0,68% como transgênero. Juntos, representam mais de 4 milhões de pessoas.
Ineficiência econômica e desiguladade
Gean Duarte, economista e fundador da Bixa Rica, aponta que a ausência de dados oficiais sobre a população LGBTQIAPN+ gera ineficiência econômica.
"O poder público cria políticas genéricas que não resolvem problemas reais e aumenta custos sociais, como exclusão do mercado de trabalho, evasão escolar, problemas de saúde mental, violência e informalidade. Quando uma população inteira enfrenta barreiras estruturais, a produtividade do país cai", classifica.
Não se consegue gerar políticas de empregabilidade ou programas de permanência escolar. A população trans sente ainda mais brutal. A exclusão econômica costuma ser mais intensa, especialmente no acesso ao emprego formal. Sem dados, a desigualdade continua sendo tratada como exceção, quando muitas vezes é estrutural".
O economista explica como esse problema se apresenta na economia brasileira de maneira prática, e enfatiza que o empreendedorismo surge como uma das saídas mais viáveis diante desse cenário.
"Muitos LGBTQIAPN+, especialmente trans, recorrem ao empreendedorismo por falta de portas abertas no mercado tradicional. Existe também potência: negócios criados pela comunidade entendem dores reais, criam produtos mais autênticos e movimentam uma economia mais inclusiva. Empreender também é ocupar espaço econômico e dizer que existimos, consumimos, produzimos e geramos riqueza", decreta o economista.
Créditos
Luciano Rodrigues, Repórter | Louise Dutra, Infografia | Fabiane de Paula, Ismael Soares, Kid Júnior e Thiago Gadelha, Produtores Audiovisuais | Bruna Damasceno e Hugo R Nascimento, Supervisores de Jornalismo | Victor Ximenes, Coordenador de Jornalismo | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | G André Melo, Gerente de Audiovisual | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo e Esporte