Mais termelétricas serão mais prejuízos e ameaça ao setor produtivo
Para o presidente da Fiec, Ricardo Cavalcante, o resultado do recente leilão de reserva de capacidade prejudicará a atração de investimentos verdes para o Ceará e para o Nordeste.
De autoria do presidente da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec), Ricardo Cavalcante, o texto abaixo fere um tema crucial do setor energético brasileiro: o resultado do último leilão de energia promovido pelo ministério de Minas e Energia e pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Privilegiando as energias fósseis em detrimento das renováveis e vencido por poucas empresas, esse certame segue provocando intenso debate, uma vez que, além das agressões ao meio ambiente, trará o aumento extraordinário e inexplicável da conta de luz de todos os brasileiros.
Ricardo Cavalcante analisa o assunto pelo viés técnico e financeiro. Leiam com atenção o que ele escreveu:
“Atualmente o Nordeste brasileiro conta com 67,7 GW de usinas em operação para geração de energia. Destes 56,5 GW são de origem renovável, com 79% de usinas eólicas e solares. Já as termelétricas fósseis se apresentam com 11,3 GW. Isso faz com que a matriz elétrica do Nordeste seja composta em 86% por fontes renováveis.
No entanto, esse cenário pode mudar significativamente em função do recente Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP), que resultou na contratação de 16,5 GW de termelétricas fósseis, sendo 9,5 GW em novas usinas, das quais 69% serão instaladas na Região Nordeste. Assim, o índice de renovabilidade da matriz elétrica do Nordeste poderá cair significativamente. No Ceará, por exemplo, poderá passar dos atuais 79% de renovabilidade para cerca de 70%. Esses novos indicadores poderão prejudicar fortemente a atração de investimentos verdes para o Ceará e para o Nordeste.
A contratação de energia de reserva tem como uma de suas justificativas servir de respaldo em períodos de crises hídricas, substituindo a energia que seria gerada nas hidrelétricas e preservando água nos reservatórios. Ocorre que 70% da energia armazenada nas hidrelétricas do país está concentrada na Região Sudeste, enquanto o Nordeste responde por apenas 17,7% do total. Como, então, se justifica a contratação de 69% das novas termelétricas na Região Nordeste?
“Ao expandir a oferta em áreas já com excedentes e estruturalmente exportadoras de energia renovável, foram ignorados os conceitos de sinal locacional e a necessidade de reserva de potência nos grandes centros de carga no Sudeste e Sul do País, locais onde se concentram os grandes reservatórios de energia do sistema. Como essa energia será transmitida para o Sudeste? A custo de mais cortes de geração renovável?
“As energias renováveis estão sendo motivo de cortes recorrentes (curtailment) que impactaram mais de 20% da energia renovável eólica e solar que poderia ter sido produzida no Brasil em 2025, com perdas bilionárias para toda a cadeia produtiva. Além disso, o aumento da geração térmica no Nordeste pode ampliar ainda mais o desperdício de energia renovável e tornar insuficientes os empreendimentos de transmissão recentemente licitados para reduzir o problema e escoar a energia da região.
“Assim tal escolha impõe um custo econômico desproporcional ao consumidor brasileiro. Os investimentos em sistemas de transmissão de energia, originalmente projetados para escoar a energia renovável e barata do Nordeste, poderão fazer parte de uma competição física por espaço na rede, penalizando a transição energética e contrariando o princípio de expansão de custo mínimo do setor elétrico.
“E para completar, por que não foram incluídas no LRCAP as baterias, que no Mundo todo já tem mais de 260 GW instalados e o Brasil ainda nem sequer começou? Diversos estudos demonstram que os custos para o consumidor poderiam ser mais de 30% abaixo dos preços contratados no LRCAP. Cases internacionais em países como Argentina, Chile, Estados Unidos, Alemanha e Australia demonstram que pelo menos parte substancial da contratação poderia ter sido realizada usando a tecnologia de energia eólica e solar com baterias. Estamos em um processo de transição energética mundial, e não podemos desperdiçar as vantagens competitivas de que dispomos que são as energias renováveis, ainda mais em um momento que o preço dos combustíveis fósseis está sofrendo pressões por elevação devido aos conflitos internacionais no Golfo Pérsico.
“Os sistemas de armazenamento são a tecnologia mais eficiente para trazer flexibilidade ao setor elétrico. Eles equilibram instantaneamente a oferta e a demanda e garantem capacidade ao sistema ao deslocar a energia renovável — hoje desperdiçada — para os períodos mais críticos de consumo. Tudo isso por um custo muito menor que usando termelétricas.
“O ônus financeiro desta contratação massiva de termelétricas recairá sobre todos os consumidores brasileiros que poderão ter que arcar com aumentos de custos da ordem de 10%. Esses aumentos poderão ser ainda maiores para o setor produtivo, comprometendo em muito a competitividade das cadeias produtivas.”
FIEC PROMOVERÁ EVENTO SOBRE ECONOMIA AZUL
Vem aí, nos próximos dias 8 e 9 deste mês o Ocean Summit 2026, evento organizado pela Federação das Indústrias (Fiec) para tratar da economia do mar, ou economia azul. Ele será realizado no Auditório Waldir Diogo da Casa da Indústria e seu objetivo será reunir toda a cadeia produtiva da economia do mar, incluindo empresários, pesquisadores.
O economista Guilherme Muchale, gerente do Observatório da Indústria, e Dana Nunes, superintendente do Iel Ceará, que coordenam o evento, transmitem mensagem a esta coluna, informando que o Ocean Summit 2026 será “uma oportunidade para entender na prática como a Economia Azul, ou Economia do Mar, pode gerar desenvolvimento, inovação e sustentabilidade.
Da programação técnica do evento, consta palestra do criador do conceito de Economia Azul, o belga Gunter Pauli, além de apresentações sobre tendências e “cases” de sucesso e mais mesas redondas, oficinas temáticas e e oportunidades de networkig.
Dana Nunes informa que o evento será gratuito e destinado a todos os envolvidos nas atividades da economia azul, o quer dizer, também, empresários do setor pesqueiro, incluindo beneficiadores e exportadores de pescados.
Deve ser lembrado que, em novembro do ano passado, a Fiec promoveu, em Portugal, um seminário que debateu sobre todos os aspectos da cadeia produtiva da Economia Azul. As sementes desse evento, plantadas em Portugal, ecomeçam a germinar com força aqui no Ceará.
O horário dos dois dias do Ocean Summit 2026 será de 8 às 18 horas.
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