Dólar turismo chega a R$ 4,60 em casas de câmbio de Fortaleza

Quem está com viagem marcada e precisa comprar moeda encontrará valores mais altos. Moeda atingiu novo pico após fala de Guedes, mas recuou depois de intervenção feita pelo Banco Central, que se repetirá hoje

Legenda: A moeda americana estava em trajetória de alta com a queda de juros no Brasil, movimento que foi impulsionado pela fala do ministro
Foto: Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O dólar voltou a bater recordes nesta quinta-feira (13) e a moeda em espécie foi encontrada de R$ 4,50 a até R$ 4,60 em casas de câmbio na Capital, complicando os planos de quem tem viagem marcada para o exterior. No mercado financeiro, o dólar comercial chegou a bater a máxima de R$ 4,38 após a fala do ministro da Economia Paulo Guedes e fechou em queda de 0,45%, a R$ 4,33 depois da intervenção do Banco Central (BC).

A moeda americana estava em trajetória de alta com a queda de juros no Brasil, movimento que foi impulsionado pela fala do ministro. Na noite de quarta (12), Guedes afirmou que o dólar um pouco mais alto é bom para todo mundo e que, quando o real esteve mais valorizado, empregada doméstica estava indo para a Disney, "uma festa danada".

Segundo analistas, a fala do ministro deu margem para o mercado apostar em uma cotação mais elevada. O dólar abriu em alta de 0,7% e o BC, então, interveio com a oferta de 20 mil contratos de swap cambial, que totalizaram US$1 bilhão. Na prática, a operação promove o aumento da oferta da moeda, já que a instituição oferece contratos que remuneram o investidor pela variação cambial.

Efeitos do câmbio

O cenário deve afetar o mercado de forma negativa para alguns segmentos e positiva para outros. "Talvez gere até um superávit nas exportações, trazendo um crescimento significativo, principalmente no Complexo Industrial do Porto do Pecém, ou uma forte estabilização, já que ao longo dos últimos anos a nossa balança comercial estava deficitária", explica o presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará, Ricardo Coimbra.

Por outro lado, o consumidor poderá sentir mais o peso no bolso - além da gasolina, o trigo utilizado na fabricação de massas e pães, azeite, remédios e peças automotivas são produtos mais sensíveis à alta da moeda americana. "Deve ter uma elevação significativa no preço dos produtos importados, então isso acaba retraindo o consumo", ressalta.

Há também insegurança quanto a financiamentos no mercado externo. Apesar da taxa de juros em outros países ser menor que a brasileira e a moeda estar supervalorizada, o economista Ricardo Eleutério alerta aos riscos. "Tem que torcer para que o dólar se mantenha estável, porque se o preço sobe demais, a dívida também explode", alerta.

Causas

Segundo Eleutério, a redução das taxas de juros é uma das principais causas para explicar a elevada cotação do dólar ante o real. A Selic está hoje na mínima histórica de 4,25% ao ano. "Com a taxa básica de juros diminuindo, as aplicações do mercado financeiro doméstico perdem rentabilidade, os capitais financeiros externos não vêm, o que causa escassez de dólares e, com isso, o valor ascende", aponta.

Tensões no cenário externo também são um ponto crítico. "Sempre que tem alta do dólar nos países emergentes, o Brasil fica entre os três primeiros mais impactados, isso é um dado histórico", aponta o economista, destacando a guerra comercial entre Estados Unidos e China, conflito entre os americanos e o Irã e, mais recentemente, o aparecimento do coronavírus.

Nesta quinta, mais um indicador econômico veio abaixo do esperado pelo mercado, o que contribui para a expectativa de novos cortes de juros. Em dezembro, o setor de serviços teve queda de 0,4% em relação ao mês anterior e encerrou o ano de 2019 com crescimento de 1%. A expectativa do mercado era que o setor crescesse 1,5% no ano, na projeção da Bloomberg.

Intervenção

Na avaliação do economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal, a decisão do BC de ofertar swap "tecnicamente perfeita". "A intervenção teve todo sentido, o BC olhou onde estava disfuncional e era o mercado futuro", disse ele.

"A dinâmica dos fluxos de capital no Brasil mudou", destaca Leal. Para ele, o real só vai se valorizar mais se o Produto Interno Bruto (PIB) se acelerar. Por enquanto, os indicadores nacionais têm vindo fracos, enquanto a economia americana tem mostrado força, o que contribui para valorizar o dólar no exterior e pressionar ainda mais o câmbio aqui no Brasil.

Os estrategistas em Nova York do grupo financeiro holandês ING projetam o dólar em R$ 4,30 nos próximos 30 dias, em média, e R$ 4,05 nos próximos seis meses. Em um cenário com o PIB mais forte, a moeda americana pode cair a R$ 3,90 em 12 meses.