Pastor Alemão: saiba tudo sobre a raça canina

Cão é famoso por exercer atividades ligadas ao trabalho policial, como farejamento

Escrito por Marcelo Monteiro marcelo.monteiro@svm.com.br
13 de Novembro de 2021 - 09:00 (Atualizado às 08:03, em 05 de Maio de 2023)
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Legenda: Animal é versátil e pode exercer diversas atividades
Foto: Shutterstock

Estrela de filmes e séries ao longo do tempo, o Pastor Alemão é uma raça bastante popular do Brasil — principalmente nos trabalhos com a Polícia.

Quem já testemunhou uma operação policial possivelmente já deve ter visto um cão da raça junto aos agentes. Segundo o médico veterinário Ricardo Montesuma*, o uso do Pastor Alemão ocorre devido a ele ser uma das raças mais inteligentes, obedientes e de fácil aprendizado.

No entanto, ao longo do tempo, o cão, também conhecido como Lobo da Alsácia, exerceu outras funções, o que, inclusive, é representado em seu nome oficial.

Origem

Como o próprio nome já pressupõe, a raça é oriunda da Alemanha, na Europa. A metódica de criação, de acordo com a Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC), iniciou-se em 1899, após a fundação da Sociedade do Cão Pastor Alemão no país.

Tais cães, aponta o médico veterinário, são oriundos do cruzamento de cães híbridos de lobos e que exerciam atividades de pastoreio, os quais habitavam as regiões central e sul da Alemanha, segundo a CBKC.

A entidade europeia indica que a proposta da raça era a criação de um cão de trabalho propenso a grandes realizações. Devido a tais atributos, a raça é tradicionalmente escolhida para trabalhos de farejamento.

Cão tem energia para realização de diversas atividades
Legenda: Cão tem energia para realização de diversas atividades
Foto: Shutterstock

Para isso, é necessário que o filhote passe por treinamento para estimular o olfato aguçado e o comportamento de caça, conforme Montesuma.

Conforme Caio Pessoa, criador de cães e sócio do Canil Cachinauá, existente há 35 anos, o Pastor Alemão pode exercer bem não só o farejamento, mas, também, as seguintes atribuições:

    • localização de pessoas e animais desaparecidos;
    • busca de provas e vestígios de crime;
    • perseguição, ataque e imobilização de suspeitos de delitos.

É um bom cão de guarda?

A CBKC indica que o Pastor Alemão é seguro, agradável e atento. O temperamento da raça é instintivo, flexível e autoconfiante, dispondo-lhe qualidades adequadas para um cão de proteção, serviço e pastoreio.

Ricardo Montesuma realça que o cão é inteligente, atento, destemido e resignado. "Por não recuarem com facilidade frente a uma situação de perigo, lhes são atribuídas as funções de guarda e pastoreio, das quais a raça é tida como a melhor e mais indicada", aponta.

Cão é facilmente adaptável e tem manejo simples
Legenda: Cão é facilmente adaptável e tem manejo simples
Foto: Shutterstock

Convergindo com o médico veterinário, o sócio do Canil Cachinauá e criador da raça afirma que o Pastor Alemão é destemido, tem "mais perfil de defesa do que de ataque", um olfato "incrível" e é ideal para o ensinamento de comandos. "Por isso, são usados como cães policiais em busca de drogas, bombas, no resgate de pessoas", pontua.

O cão pode ser teimoso, mas, segundo o médico veterinário, é considerado fácil de adestrar. Uma vez socializada, a raça pode conviver de forma forma tranquila com crianças da família e outros cães, o que é atestado pelo proprietário do canil com base nos retornos recebidos, "sempre positivos".

"Se ele vive em um ambiente sereno e é amado, ele é muito bom, silencioso, obediente e fiel, por isso pode ser adequado para famílias com crianças. É também um cão muito corajoso e se afeiçoam imediatamente às pessoas que cuidam dele".
Caio Pessoa
Criador de cães e sócio do Canil Cachinauá

Como criar

O sócio do canil realça a maleabilidade da raça canina, que, resistente e robusta, adapta-se a quaisquer clima ou ambiente. "Um simples espaço arejado e confortável é o bastante para acomodá-lo", diz, indicando que o cuidado relativamente fácil atrai vários interessados no cachorro.

Além disso, os elogios se estendem ao mundo das exposições especializadas — o cão costuma exibir todas as suas qualidades nas provas exigidas.

É perigoso?

Caio Pessoa discorda da fama de agressividade eventualmente atribuída ao cão. "Na verdade, essa é uma raça muito amigável e amorosa com a sua família, sendo um ótimo companheiro para todas as horas", afirma, indicando que o cão necessita de socialização e adestramento quando filhote.

Caso isso não ocorra, a tendência, segundo ele, é de que o cão fique desconfiado quando próximo de pessoas alheias ao convívio em razão de seu instinto protetor.

Características físicas

De porte médio, a raça é levemente alongada, em relação à altura, bem musculosa e com ossatura "seca", o que, para o CBKC, denota uma construção geral sólida.

Os machos possuem entre 60 e 65 centímetros (cm) de altura na cernelha e pesam entre 30 e 40 quilogramas (kg). As fêmeas, por sua vez, possuem entre 55 e 60 cm, pesando de 22 a 32 kg.

O criador de cães acrescenta, como especificidades da raça, orelhas triangulares e erguidas, além de olhos acastanhados. Contudo, ele diverge da percepção dos padrões impostos às raças, definindo o cão como de tamanho médio-grande, se não propriamente grande. 

"O comprimento do tronco é maior que a altura na cernelha de 10% a 17%, de modo que a percepção é a de um cão um pouco mais comprido do que alto", explica.

Variedades de pelo

A raça tem duas variedades de pelagem, segundo Montesuma: de camada dupla (pelo curto) ou pelo externo, longo e duro (pelo comprido). 

Apesar de bem distintas, as duas variações de pelagem da raça possuem subpelo
Legenda: Apesar de bem distintas, as duas variações de pelagem da raça possuem subpelo
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A CBKC destaca que, nos casos de camada dupla, o pelo de cobertura deve ser duro, fechado e "tão denso quanto possível". Já no caso da pelagem externa, o pelo deve ser longo, macio e "não tão densamente fechado", com tufos nas orelhas, nos membros e causa espessa.

Cores do Pastor Alemão

Independentemente da cor, trufa do animal sempre é preta
Legenda: Independentemente da cor, trufa do animal sempre é preta
Foto: Shutterstock

Em relação à cor, os cães, segundo a entidade, são pretos com marcas que variam do marrom avermelhado, amarelo e até cinza claro, com subpelo apresentando leve tom acinzentado. Ricardo Montesuma propõe a seguinte classificação para as variações: 

  • bicolor (marrom ou avermelhado com manto preto, a popular "capa preta");
  • melanístico (predominantemente preto com extremidades castanhas ou marrons);
  • unicolor (inteiramente preto).

O CBKC indica que, independentemente das cores, a trufa do animal deve ser preta. A cor branca não é admitida na raça — marcas da cor ou mais claras no antepeito, desde que pequenas e imperceptíveis, são permitidas. 

A instituição de cinofilia também indica que cães com máscara ausente, cor dos olhos clara, marcas esbranquiçadas, unhas claras e ponta da causa avermelhada são tidas como falta de pigmentação.

Filmes e séries 

A fama da raça nas corporações policiais já lhe rendeu presença em diversas produções artísticas. No entanto, o cão precursor da midiatização da raça, tem ligação com corporações militares antes mesmo de aparecer nas telas. 

O cão Rin Tin Tin, que viveu entre 1918 e 1932, foi descoberto durante a Primeira Guerra Mundial, pelo agente da Força Aérea norte-americana Lee Duncan. O militar encontrou a mãe do cão e a ninhada em um canil bombardeado, resgatando um casal de filhotes, Rinty — apelido dado pelo tutor — e Nanette.

Rin Tin Tin e seus descendentes participaram de diversas obras ficcionais
Legenda: Rin Tin Tin e seus descendentes participaram de diversas obras ficcionais
Foto: reprodução

Em 1922, o cão participou de um show de cães em Los Angeles, sendo convidado a participar de um filme. Com uma atuação bem-sucedida, o animal participou de diversas películas ao longo da década, chegando a ganhar um programa radiofônico, o "The Wonder Dog" e filmes e séries derivadas, estreladas por cães descendentes dele.

No entanto, o clã Rin Tin Tin não dominou sozinho as obras cinematográficas. Outros cães da raça também participaram de produções de amplo alcance.

Diversos cães da raça atuaram em papéis ligados ao ofício policial
Legenda: Diversos cães da raça atuaram em papéis ligados ao ofício policial
Foto: reprodução

Entre os exemplos, está "K-9: Um Policial Bom pra Cachorro", ficção policial com três sequências. Iniciada em 1989, a saga conta a história do extravaganete detetive Michael Dooley, ao lado do cão Jerry Lee.

Além disso, a raça também tem papéis de protagonismo em séries televisivas. Na brasileira "O Vigilante Rodoviário", um cachorro chamado Lobo acompanha o vigilante rodoviário Carlos, que atua contra criminosos e busca manter a lei em rodovias de São Paulo.

Na releitura da série, outro ator e três cães, com habilidades diferentes, entraram em cena
Legenda: Na releitura da série, outro ator e três cães, com habilidades diferentes, entraram em cena
Foto: divulgação

Na série, exibida originalmente nos anos 1960, na extinta TV Tupi, a dupla transmite simpatia e inspira proteção e segurança por meio de mensagens educativas. A produção chegou a ganhar um longa-metragem após 17 anos da versão original.

A raça também teve espaço de destaque na série policial austríaca "Comissário Rex" ("Komissar Rex, no original), com 18 temporadas, e da portuguesa "Inspector Max", com seis, com os cães assumindo protagonismo a partir da inclusão de seus nomes já nos títulos das obras.

Doenças 

Ricardo Montesuma enumera algumas enfermidades relativas à raça, destacando a displasia coxofemoral como a mais conhecida entre os animais. A patologia se caracteriza pela má formação da articulação coxofemoral, entre o osso pélvico e o fêmur.

Geralmente passada de forma hereditária, a disfunção pode, também, ser influenciada pelo ambiente ou pelo manejo do animal. "O tutor deve controlar a alimentação do animal para evitar a obesidade, além de atividade que requeiram esforços exagerados, pisos lisos e traumas", indica o médico veterinário.

Caso ocorra, o cão pode necessitar de acompanhamento fisioterapêutico, intervenção cirúrgica e suplementação das articulações. O animal com displasia coxofemoral também não deve ser reproduzido.

Além da mais conhecida, o profissional enumera as seguintes patologias frequentemente associadas à raça:

  • torção gástrica (quando o próprio estômago do animal gira e acaba prendendo os intestinos, o que provoca impedimento da passagem dos alimentos);
  • megaesôfago (aumento desregulado do esôfago);
  • piodermite (infecção bacteriana na pele);
  • doença de Von Willebrand (doença em que o cão não consegue estancar o sangue).

Principais cuidados

Exercícios

O médico veterinário ressalta que o cão necessita de altos gastos de energia diariamente, o que é atestado pelo criador da raça. "Os pastores alemães são cães naturalmente ativos. Fazer exercícios diários é bom para a saúde e pode eliminar algumas doenças comuns. Eles precisam de um grande espaço para correr e de mais tempo para jogar", explica Pessoa.

O sócio do Canil Cachinauá aconselha caminhadas com o cão todos os dias, com o uso de uma coleira adequada e durável para manutenção do controle sobre o animal, bastante forte.

Alimentação

Além disso, ele também aponta oferecimento de uma alimentação com rações do tipo super premium, dado o porte do animal — os ossos do cão precisam se manter fortes para ele conseguir realizar atividades sem problemas.

A dieta do Pastor Alemão precisa ser rica em proteínas, glicosamina, condroitina, Ômegas 3 e 6, além de vitaminas A, D, K e E. Esse conjunto ajuda na prevenção de torção gástrica, um problema que, segundo Pessoa, é uma tendência na raça e pode levar o cachorro à morte.

Dentição

Ricardo Montesuma complementa que, além das refeições do cão, o tutor tenha cuidado com os dentes do animal. "Para que o animal não apresente resistência à escovação dos dentes feita pelo tutor, é interessante que esse hábito seja estimulado desde filhote", orienta.

O procedimento deve ser realizado pelo menos três vezes na semana, o que auxiliará na não formação de tártaro.

Vacinação e vermifugação

Além da oferta de alimentação adequada, o veterinário indica que o animal seja acompanhado por um profissional da área para avaliações gerais de saúde, vacinas e vermifugação.

A imunização obrigatória pode ser iniciada a partir dos 45 dias de vida, podendo se estender até o quarto mês. A vermifugação, por sua vez, costuma ter início já na segunda semana, podendo ser repetida mensalmente no primeiro ano de vida do animal.

Quanto custa

O profissional de saúde animal indica que a raça custa em média R$ 5 mil, valor também apontado pelo criador de cães. Caio Pessoa, contudo, indica que o preço pode ter variação, podendo ser iniciado a partir de R$ 3,5 mil em canis especializados.

No entanto, ele orienta que interessados em exemplares de Pastor Alemão exijam a seleção dos pais do bicho em órgãos como o Clube Brasileiro do Pastor Alemão (CBPA) e a Sociedade Brasileira de Cães Pastores Alemães (SBCPA).

Expectativa de vida

Um Pastor Alemão pode viver de nove a 13 anos, conforme o médico veterinário. O sócio do canil estipula média de 12 anos.

Ricardo Montesuma é médico veterinário formado pela Faculdade Terra Nordeste (Fatene), com pós-graduações nas áreas de Clínica Médica e Cirúrgica de Pequenos Animais e Patologia Clínica Veterinária.

** Caio Pessoa é criador de cães da raça Pastor Alemão e sócio do Canil Cachinauá, fundado em 1986 pelo pai dele, José André Pierre Pessoa, e com títulos importantes a nível nacional, como o de campeão na exposição Sieger Brasil.

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