"A herança de Estrigas é vasta e não foi ainda sistematizada", afirma Gilmar de Carvalho

Um dos "filhos" adotado pelo casal Nice e Nilo Firmeza compartilha, em entrevista ao Verso, memórias de um homem-marco para as artes plásticas do Ceará

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"Fui sendo aceito e, quando vi, havia sido 'adotado' pelo casal", conta Gilmar de Carvalho Foto: Francisco Sousa

Por ocasião do centenário do artista plástico Nilo de Brito Firmeza, o Estrigas, celebrado neste dia 19 de setembro de 2019, o pesquisador Gilmar de Carvalho compartilha lembranças do período em que conviveu com ele e a companheira Nice, no Minimuseu Firmeza. O pesquisador da cultura cearense analisa ainda a trajetória de um artista cuja obra permanece atemporal.

Leia a entrevista:

Recorda do primeiro encontro com Estrigas? Como se deu e quais suas impressões iniciais do homem e da obra? 

Muitos dos meus amigos (as) eram próximos ao Estrigas. Falavam muito dele e da Nice. Quando inauguraram o Minimuseu, em 1969, encontrei um "álibi" perfeito para visitá-los. Não gosto de ser invasivo. Fui me tornando amigo aos poucos. Estrigas tinha uma sensibilidade muito grande, diria um "faro". Fui sendo aceito e, quando vi, havia sido "adotado" pelo casal. 

O que me impressionou, numa primeira visita, foi o clima de paz que se instalava naquele sítio: mangueiras centenárias, o trem metropolitano quebrando o silêncio, os passarinhos que cantavam, e que Estrigas tão bem retratou em muitas de suas telas, a hospitalidade da Nice, com seus doces, bolos e tantas iguarias. Senti inveja daquilo tudo. Queria um pouco da tranquilidade que eles tinham para criar. Queria ter poucos e bons amigos, como eles tinham, e ser como eles, quando crescesse... 

O homem era discreto, tímido, mas não se omitia. Falava baixo, mas dizia o que precisava ser dito. Tinha horror ao "empavonamento". Fazia seu trabalho longe dos holofotes. Tinha um senso crítico muito acentuado e uma grande compaixão pelos homens e mulheres. Não conciliava com mesquinharias, baixarias, e fraudes. Era indignado com o que os "marchands" e a mídia fizeram com Chico da Silva. Gostava do Barrica brincalhão, que o visitava com frequência. Lia muito, e isso me impressionava. Fazia uma obra que não se inscrevia nos modismos. O que pintava, desenhava ou trabalhava com aquarelas, era eterno, atemporal. 

O que a Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP) representou na trajetória dele? 

Creio que a influência foi imensa. Estrigas sabia que precisávamos de um contexto, e de um grupo, para termos alguma manifestação realmente séria, importante, que se inscrevesse de verdade na história da arte cearense. A SCAP foi o nosso modernismo tardio. As distâncias eram grandes, e, nos anos 1940, a velocidade era mínima. 

Quando chegou a SCAP, os novos artistas estavam salvos. A "turma", pintava ao ar livre, visitava praias, lugares interessantes de uma Fortaleza minúscula. Depois vieram os cursos livres. Estrigas dizia ter o referencial teórico, mas precisava da técnica. Isso também a SCAP deu aele. Maduro, respeitado, fazendo parte do nosso "olimpo" artístico, ele retribuiu o que a SCASP deu a ele por meio do livro "A Fase Renovadora da Arte Cearense", com selo da Imprensa Universitária. 

A SCAP deu consistência à nossa cena, se misturou com o Grupo Clã, no campo da literatura, ecoou as primeiras manifestações de ruptura do teatro cearense. A SCAP foi contemporânea da música do Luis Assunção, do Aleardo de Freitas, e do Luiz Gonzaga, que tinha o cearense Humberto Teixeira como seu parceiro e ideólogo. Na SCAP, ele conheceu a Maria de Castro Firmeza, a Nice, vinda do Aracati para estudar e trabalhar em Fortaleza. Foi amor de uma vida inteira. 

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"O trabalho do Estrigas é dele, como homem do seu tempo e do seu lugar, mais influenciado pelo que leu, que pelo sucesso do Antônio Bandeira ou do Aldemir Martins, dois dos seus grandes amigos", analisa Gilmar de Carvalho Foto: Francisco Sousa

O que diferencia o trabalho artístico de Estrigas do de outros grandes nomes das artes plásticas cearenses com os quais ele se relacionou? 

Estrigas era um homem de personalidade forte. A ideia de grupo foi fundamental para ele, que, no plano político, também defendia o coletivo, em detrimento de um individualismo doentio e egoísta que se instalou de vez na contemporaneidade. 

Ele gostava das saídas com o pessoal da SCAP, das brincadeiras, das trocas de experiências, das discussões teóricas, que passaram a ter o suporte das revistas estrangeiras do Mário Baratta, outro grande nome deste período, a quem Estrigas homenageou com um livro editado pelo Museu do Ceará. 

Mas ele sabia o que fazia. Nunca foi uma "maria vai com as outras". Tinha seu caminho, construído, com solidez e trabalho. Influências, todos as temos, mas daí a resvalar para a clonagem, nunca. O que mais me chamou a atenção, em relação a ele e a Nice, era que se amavam, conversavam muito, mas se respeitavam. Cada qual tinha sua proposta e sua trajetória. Em nenhum momento, elas (as trajetórias) se confundiram ou se tangenciaram. 

O trabalho do Estrigas é dele, como homem do seu tempo e do seu lugar, mais influenciado pelo que leu, que pelo sucesso do Antônio Bandeira ou do Aldemir Martins, dois dos seus grandes amigos. 

Além de dentista, artista plástico, ilustrador, professor, pesquisador e autor de livros, ele reunia outras facetas? Quais? 

Estrigas foi dentista pelas pressões familiares à época. Nascido de uma família de classe média alta, com pai ilustrado, irmãos que se destacaram na vida pública cearense, não poderia ter apenas o ensino fundamental. 

Ele era curioso demais, tinha biblioteca em casa, e foi ser dentista para ter um curso superior e suprir sua subsistência. 

Sabia das dificuldades de viver de arte em Fortaleza, e não queria sair daqui. 

Estrigas fez tudo com disciplina, seriedade, marcado por uma ética pessoal muito sólida, e pela indignação, em relação às desigualdades sociais. 

Foi um grande artista. Professor informal de muitos jovens artistas, se não pelo acompanhamento, peta tutoria, ao pé do cavalete, mas pelo que sua obra representava. Era exemplo, modelo, mesmo sem querer ser ou de arvorar dessa condição. 

Foi crítico de arte, movido talvez, pelo desejo de amplificar sua influência e abrir caminhos, corrigir o que lhe parecia equivocado, e reforçar o mercado. 

Foi um grande historiador da arte cearense, com livros publicados sobre Raimundo Cela, Chico da Silva, Barrica, Bandeira, Mário Baratta, Zenon Barreto. Também se ocupou de traçar a trajetória do Salão de Abril. Foi às cavernas de Itapipoca para estudar nossa arte rupestre. Publicou volumes com suas críticas, em uma espécie de diário, e fez também poesia. 

Deixou um legado representativo para as artes cearenses, também em termos de reflexões, do apontar caminhos, sem querer ser dono da verdade, mas servindo como um farol em meio à neblina provocada pelos ventos fortes que revolvem este areal que nos cerca. 

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"Eu ia buscar a afetividade dele e da Nice, quando precisava", lembra Gilmar de Carvalho Foto: Francisco Sousa

Afetivamente, o que Estrigas representa para você? 

Estrigas representa um amigo mais velho, que se impunha pela responsabilidade, pelo compromisso, pela qualidade, como caráter, como pessoa e como homem público. 

Nestes tempos de falsas celebridades, influenciadores digitais, de tantas bobagens, que são esquecidas no instante seguinte, pela fragilidade dos enunciadores e dos modelos que temos à vista, Estrigas era uma fortaleza. 

Forte sem ser autoritário, amigo sem ser invasivo, homem sem ser machista, sábio sem se "amostrar", como tanta gente quer fazer sem ter fundamento para isso. 

Estrigas foi um grande amigo. Eu ia buscar a afetividade dele e da Nice, quando precisava. Ia conversar, quando queria ouvir algo que eu sabia que valia a pena ser ouvido. Irônico, ele não assumia tom professoral, nem tinha conversas em particular. 

Era sábio, inteligente e sagaz para dar pistas, sem que elas fossem pedidas, e seus conselhos nunca tinham este ar "careta" de conselho. 

O que contava era sua postura, eram suas atitudes, era seu jeito cúmplice, e sua imensa generosidade. 

Foi maravilhoso tê-los conhecido, e ter convivido, tão proximamente, com ele e com a Nice. 

O que foi seu guia na sintetização deste centenário para o livro “A Grande Arte de Estrigas – Memória Crítica”, e para a exposição “100 Estrigas”, em cartaz no Mauc? 

O livro "A Grande Arte " foi um pedido dele. Queria ser ouvido e que a conversa fosse registrada por meios técnicos. 

Francisco Sousa armou sua tenda no Mondubim, e acionou sua câmera, eu sentava num banquinho, para fazer as perguntas, e estava pronta nossa "bossa nova". 

O livro foi publicado quando ele fez 90 anos. A tiragem pequena impediu uma discussão maior, a partir do que ele disse ou fez. 

Agora, no centenário, o INESP reedita esta obra. O João Milton teve a sensibilidade para compreender a importância deste documento do Estrigas, espécie de legado, de testamento crítico. 

Da mesma forma, a TV Assembleia usou pedaços de gravações e editou um documentário curto, mas lindo, inesquecível, onde Estrigas fala da vida e da morte com uma naturalidade dos santos e dos desapegados destas misérias do cotidiano. Angela Gurgel dirige o núcleo dos documentários da TV Assembleia, que nos dá este presente nos cem anos do Estrigas

O eixo curatorial girou em torno do bem querer. Estrigas será mostrado a partir dos amigos e amigas que têm obras dele. As legendas com os nomes dos donos e das donas dos quadros é tão importante quanto o que estamos mostrando. 

Graciele Siqueira, diretora do Mauc, museóloga, com mais de dez anos de Ceará, foi parceira nesta empreitada, recolha e montagem. 

Sem os amigos e amigas do Estrigas, esta festa não aconteceria, apesar da boa vontade da Secult e do Mauc. Foi significativa a ajuda do Porto Iracema, do Plebeu, da Galeria Multiarte, do Sobrado do Dr. José Lourenço, do Museu do Ceará, da Assembleia Legislativa, da TV Assembleia e do INESP, que se juntaram em um mutirão de afetividade e de respeito pelo Estrigas. 

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"Era sábio, inteligente e sagaz para dar pistas, sem que elas fossem pedidas, e seus conselhos nunca tinham este ar 'careta' de conselho", diz Gilmar sobre Estrigas Foto: Francisco Sousa

Quais as principais contribuições que Estrigas deu para o que temos hoje em termos de equipamentos e políticas públicas para as artes plásticas no Ceará? Que herança ele deixou para a cultura cearense e qual sua análise de como ela vem sendo trabalhada? 

A contribuição do Estrigas foi grande, em tudo o que se refere à arte e à cultura. 

O elogio que fazia dos Cursos Livres da SCAP, se projeta nos cursos superiores de arte que temos hoje (IFCE e ICA/UFC), com Mestrado, inclusive, e em breve, com Doutorado. 

Não se pode pensar no artista que não estuda. O artista boêmio foi tragado pela voragem do tempo. Por outro lado, o mercado não pode ser parâmetro de tudo. 

Temos hoje, muitos artistas que concorrem a editais. São políticas públicas que tem sido testadas. Mas quando temos um retrocesso implantado, um desmanche das conquistas de tantos anos, e quando a censura ressurge dentro de uma pauta conservadora, de falsa moral e de "proteção à família", isso tudo parece muito assustador para o futuro das artes. Vamos ter de repensar muitas coisas, "inventar" outras saídas, e manter o espírito crítico e transgressor da arte. 

A herança de Estrigas é vasta e não foi ainda sistematizada. Penso que um bom início seria a reedição dos seus livros. O INESP inaugura esta linha com "A Grande Arte", mas todos deveriam ser reeditados. O pensamento do Estrigas, vivo, instigante, precisa ser estudado e discutido, não apenas nos cursos de arte, mas por todas as pessoas que queiram se inteirar das artes cearenses no século XX.