Ferramentas digitais e encontros presenciais têm ampliado contato com os livros; veja sugestões

Aplicativos, podcasts e clubes de leitura emergem como ferramentas para estimular metas de começo de ano relacionadas à dedicação aos livros

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O professor e escritor Paulo Henrique Passos otimizou a rotina de leituras a partir do aplicativo Cabeceira Foto: Helene Santos

A lógica pode ser dura, mas é bem verdadeira: o que não se usa, atrofia. Olhemos para o nosso corpo, por exemplo. Sem exercícios físicos, o risco de contrairmos doenças aumenta e o resultado se reflete sobretudo na aparência. Parecemos fracos e vamos definhando.

Semelhante movimento acontece com a mente. Na ausência de hábitos que despertem conexões neurais saudáveis, sentimos a falta de pensamentos criativos, ideias inteligentes e até talvez algo mais grave: perdemos, pouco a pouco, a capacidade de imaginar e contar histórias, práticas que fortalecem convívios e experiências. Não se enganem: definhamos da mesma forma.

Assim, um dos desafios da vida moderna é exatamente conciliar tantos afazeres com práticas que convoquem a novas posturas, atentas ao bem-estar e conhecimento. Um desses afazeres tão complicados de se colocar em prática com frequência é a leitura - não importa se para pessoas que sequer pegaram num livro ou para aqueles que, de tanto conviverem entre obras, não sabem mais como lidar para organizar tudo.

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O diálogo entre suportes digitais e aparatos físicos têm otimizado a rotina de leitura de Paulo Foto: Helene Santos

Este último caso é o do professor e escritor Paulo Henrique Passos. Ele costuma ler de dois a três livros ao mesmo tempo, inclusive quando sai de casa. "Sempre levo algum na bolsa, para aproveitar onde quer que seja durante o dia", conta.

No entanto, passou a se queixar de algo: não estava conseguindo sistematizar as leituras de modo a contemplar aquelas que eram mais importantes. Foi quando recorreu a um aplicativo específico para esse fim. "Comecei a me organizar mais, pensando nos livros que quero ler depois. E a me propor desafios de leitura, como o aplicativo sugere".

A ferramenta em questão é o Cabeceira, lançado recentemente pelo clube de assinatura de livros TAG. Aberto e gratuito, funciona como assistente pessoal de quem quer se debruçar mais e melhor sobre obras, um atributo que atraiu Paulo.

Os benefícios, conforme o professor, são muitos. Além de estruturar a rotina com o livro, ele destaca as sugestões que recebe do aparato digital, algo que está potencializando também o conhecimento sobre outros textos, títulos e autores.

"Faz pouco tempo que uso, mas estou apreciando a experiência. Como o aplicativo dá sugestões de leitura de acordo com seus gostos, estou começando a descobrir coisas interessantes que ainda não conhecia".

Uma calculadora de tempo de leitura personalizável, espaço para compartilhamento e registro de conquistas do usuário e até recomendação de títulos a partir das emoções desejadas - relaxar, sonhar, se assustar, rir ou chorar - são outros recursos que podem ser explorados no Cabeceira.

Diretor geral de marketing da TAG, Arthur Dambros acredita que ainda existem poucas opções de aplicativos para este fim disponíveis no Brasil e, por isso, a empresa viu uma oportunidade de suprir a demanda. "Queremos ajudar o País a se tornar uma nação mais leitora", torce.

"O aplicativo oferece ferramentas, como a calculadora, que podem despertar para o fato de que poucos minutos por dia já são suficientes para criar e manter um ritmo de leitura constante. Então, é útil para dar bons insights a quem quer inserir ou sistematizar o hábito de ler na rotina, mas ainda não sabe como", completa Arthur.

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O aplicativo desenvolvido pela TAG Livros foi a melhor opção encontrado pelo professor e escritor Foto: Helene Santos

Escuta

Uma das maiores sensações dos últimos anos, a escuta de podcasts já é realidade antiga para o biólogo e cozinheiro André Pereira. Faz aproximadamente oito anos que ele começou a ouvir, a partir do Nerdcast, o qual acredita ter sido o primeiro escutado por muitas pessoas. "Lembro de ter ouvido o episódio de Avatar em uma viagem com um amigo e, desde então, acompanho este e outros".

O aparato sonoro não apenas turbinou o conhecimento sobre elementos da cultura pop como, pouco a pouco, também chamou a atenção do usuário pela oportunidade de otimizar leituras. "Admito que peguei muitas boas recomendações, não apenas de romances, como também livros técnicos de várias áreas", confessa.

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Podcasts, como Nerdcast e Mamilos, auxiliam o biólogo e cozinheiro André Pereira a conhecer outros títulos Foto: José Leomar

Entre os principais autores que conheceu, estão especialmente aqueles de países não falantes de língua inglesa, como a alemã Cornélia Funke e o russo Sergei Lukyanenko.

No pacote das contribuições que os podcasts trouxeram à rotina de André - ele também recomenda alguns outros, como o Xadrez Verbal, de política internacional, e o Mamilos, de variedades, que, apesar de não necessariamente literários, sempre recomendam obras - também está inclusa a facilidade de acesso ao meio e o fato de poder dividir as tarefas do dia a dia enquanto escuta os episódios.

"Atualmente tenho bem menos tempo para ler, então essa é uma opção que me ajuda, além dos audiobooks", diz. "Hoje em dia, acompanho podcasts via Spotify, o que facilita o compartilhamento de episódios, já que ele conta com uma ferramenta própria para isso".

Adquirir um leitor digital como o Kindle igualmente lhe ajudou a ler mais, uma vez que programas como o Kindle Unlimited dão acesso a milhares de livros com uma pequena taxa mensal.

Alexandre Munhoz, gerente-geral de Kindle na Amazon, destaca que, "ocupando menos espaço de armazenamento nos celulares e tablets, o recurso permite a leitura instantânea mesmo antes do término do download, e sendo independente da velocidade de cobertura da internet, o aplicativo atende a necessidade de muitos leitores por mais acessibilidade das ferramentas".

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Além de podcasts, André também investe na escuta de audiobooks e utilização de ferramentas como o Kindle Foto: José Leomar

Encontro

Engana-se quem pensa, contudo, que o estreitamento do contato com a tecnologia minou as possibilidades de encontros para discutir literatura. Pelo contrário, são variáveis que se complementam.

A produtora cultural, preparadora de textos e escritora Camile Queiroz que o diga. Há mais de três anos participando do Vórtice Imaginário, ela começou a usar aplicativos e escutar podcasts por meio da inserção no clube de leitura.

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A escritora e preparadora de textos Camile Queiroz participa do Vórtice Imaginário, com foco na ficção especulativa Foto: Helene Santos

"Quando há o genuíno interesse por literatura, todos os suportes interagem e se complementam, fortalecendo a vivência do leitor. A partir do clube, como temos um mês para concluir o livro escolhido, passei a ler diariamente e por mais tempo", observa.

Nesse movimento, ela conta ainda que tenta manter uma média de dois livros por mês, considerando aquele selecionado pelo grupo e outro de sua escolha.

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O romance "O Conto da Aia", de Margaret Atwood, foi uma das muitas obras que Camile descobriu por meio do clube de leitura que participa Foto: Helene Santos

Ao rememorar o que passou a conhecer por meio dos encontros - realizados em diferentes espaços da cidade - Camile traz à tona autores como Neil Gaiman, um dos nomes mais celebrados do gênero fantasia, o principal trabalhado pelo clube; e escritoras como Octavia Butler e Margaret Atwood, de "O Conto da Aia".

"Além do aprofundamento do conhecimento literário e cultural, estar no clube de leitura me trouxe novos amigos, intensificou minha paixão pela leitura e me deu mais disciplina no hábito de ler. Isso desencadeou um processo de estabelecer uma relação cada vez mais profissional com o mundo da literatura", destaca.

Não à toa, fez uma especialização em Escrita Literária e hoje atua como preparadora de textos em uma editora, além de desenvolver um trabalho autoral como escritora. Conforme diz, "os livros são meu trabalho e meu lazer". Qual suporte você vai abraçar, então, para tentar dizer o mesmo?

 

>> Confira as sugestões de Paulo Henrique Passos, André Pereira e Camile Queiroz de ferramentas para otimizar leituras:

Aplicativos 
Cabeceira: Cataloga e organiza livros e recomenda obras a partir de emoções desejadas
Anny books: Organiza o tempo de leitura, com desafios e níveis
Jotterpad: Anota trechos de obras, com foco no conteúdo 

Podcasts
Nerdcast: sobre adaptações de livros e quadrinhos
Xadrez Verbal: recomenda obras de teor político e artigos de ciências sociais
Mamilos: destaca títulos sobre variedade de assuntos atuais 

Clubes de leitura
Vórtice Imaginário: tem como foco a ficção especulativa
Leia Mulheres: fomenta discussões sobre a ótica de importantes escritoras
Aqueles realizados nas livrarias Leitura (Del Paseo) e Lamarca (Benfica)