Conheça a história do americano John Sanford, criador da primeira usina de açúcar no Ceará

Em Sobral, o engenheiro também prestou apoio aos pesquisadores do eclipse solar de 1919

Escrito por Agência de Conteúdo DN,

Ceará
Legenda: Alexandre Fontenelle Vasconcelos, bisneto de John Sanford, com o livro que conta a história de como o americano contribuiu para a economia do município de Sobral
Foto: Denise Marçal

Há 103 anos, em 29 de maio de 1919, o eclipse solar total colocou a cidade de Sobral no mapa da Ciência. Foi lá que uma expedição formada por cientistas britânicos, americanos e brasileiros conseguiu elucidar a empírica Teoria da Relatividade, de Albert Einstein. Mas enquanto os pesquisadores estudavam o fenômeno, alguns residentes da cidade estiveram nos bastidores contribuindo para o êxito da jornada científica na Terra do Sol.

Um deles foi o americano John Sanford, nova-iorquino radicado em Sobral, criador da primeira usina de açúcar do Estado, em 1908. O engenheiro, cujo nome batiza uma das principais avenidas da Princesa do Norte, teve participação na equipe de apoio aos pesquisadores do Eclipse Solar de 1919. Ali, ele atuou como intérprete não oficial e anfitrião, hospedando cientistas americanos no sítio dele na Meruoca, região serrana, a 24km de Sobral.

Existe ainda a hipótese de que o americano, pela sua formação em engenharia no Instituto Politécnico do Brooklin, teria construído as bases dos telescópios utilizados pelos pesquisadores. “Como o John Sanford era um construtor, um empreiteiro e técnico qualificado, ele pode ter acompanhado a construção dos suportes de alvenaria dos telescópios, um trabalho de precisão que foi necessário ser feito para suportar equipamentos”, especula Emerson F. de Almeida, diretor técnico científico do Museu do Eclipse e professor assistente do curso de Física da Universidade Vale do Acaraú (UVA).

De acordo com o diretor, os suportes foram feitos antes das comissões chegarem, por encomenda de Henrique Morize, diretor do Observatório Nacional, que recebeu especificações técnicas sobre o tamanho dos equipamentos, como seriam embasados e em que posições deveriam ser colocados.

Legenda: O engenheiro John Sanford (1864-1961) atuou como intérprete não-oficial e anfitrião dos cientistas americanos em Sobral
Foto: Acervo pessoal

“Uma das pessoas responsáveis (pela construção dos suportes) pode ter sido John Sanford, mas a informação exata sobre isso se perdeu no tempo, pois não existe registro. É uma suposição, porque nós não sabemos se havia outras equipes de construtores que pudessem fazer esse tipo de embasamento também na época. John Sanford era uma das pessoas que poderiam fazer, mas a gente não sabe se foi ele exatamente”.

O apoio de John Sanford aos pesquisadores foi citado no diário resumo (The Eclipse Expedition To Sobral), pelo chefe da equipe inglesa Andrew Crommelin. Outra referência pode ser encontrada no artigo escrito por Ronaldo Mourão, principal astrônomo brasileiro, para o Jornal do Brasil. Como relata Emerson F. de Almeida, o americano cuidava dos deslocamentos dos pesquisadores, alimentação e bem-estar deles. “A estadia deles nos finais dos dias de trabalho era na Serra da Meruoca, para onde a população sobralense subia para se refrescar um pouco do calor da cidade que eles consideravam ‘enervante’”. 

Trajetória na Meruoca

Anos antes da chegada dos astrônomos no Ceará, o trabalho de John Sanford na região de Sobral e Meruoca já havia deixado um legado na economia e infraestrutura local. Em 1908, em uma viagem a Nova Iorque, adquiriu um maquinário específico para a mecanização de parte da lavoura e para a implantação da primeira usina de açúcar e aguardente do Ceará, localizada no Sítio Monte, propriedade na Serra da Meruoca que até hoje pertence à família Sanford.

Legenda: Sítio Monte, em Meruoca, onde funcionava a usina de açúcar da Família Sanford
Foto: Acervo pessoal

Todo o processo, da chegada do maquinário no porto de Camocim, passando pelo trajeto de trem até Sobral e depois para a serra da Meruoca, durou cerca de três meses. “Foi uma grande epopeia a subida das máquinas, trazidas dos Estados Unidos, puxadas a burro por toda a subida da Serra da Meruoca”, conta Liana Sanford, bisneta de John e atual proprietária do Sítio Monte. “Toda a população serrana noticiava o andamento dessa trajetória”, completa.

Na usina, eram produzidos açúcar refinado, mascavo, rapadura, aguardente e outros subprodutos da cana-de-açúcar. Essa história é narrada no livro “História Política da Meruoca”, escrito por Manoel Rodrigues do Nascimento e Mauricio Mascarenhas Sanford, bisneto de John Sanford e vereador de Meruoca.

Segundo Denis Melo, professor de História da Universidade Vale do Acaraú (UVA), o trabalho de subir o maquinário serra acima se tornou popular entre as histórias contadas pelos moradores mais velhos da região.

“Essa usina não foi importante apenas economicamente, por apostar na utilização agrária para gerar renda e dividendos, num tempo em que se produzia apenas para consumo interno. Mas, também, por representar, para parte da população da Meruoca, a vitória do engenho humano sobre a natureza, dada a dificuldade de transporte, num período em que não havia estrada para subir a serra, sendo tudo transportado no lombo de animais ou no carro de boi”, comenta Denis.

A usina de açúcar durou até 1937, sendo descontinuada após imposições do Instituto do Açúcar e do Álcool do governo Getúlio Vargas. Após esse período, John Sanford, que possuía experiência em engenharia, prestou serviços ao governo do Estado na construção de estradas. “John Sanford chegou ao Brasil tendo o curso técnico de construção de estradas e barragens. Então, quando o filho Paulo voltou formado em Agronomia para administrar o sítio, John se afastou da propriedade e foi trabalhar para o governo nas estradas e barragens, entre as quais Sobral – Meruoca e Meruoca - Massapê”, conta Mauricio Mascarenhas Sanford.

A experiência de John Sanford na construção de obras públicas é relatada pelo economista Alexandre Fontenelle Vasconcelos, bisneto de John Sanford. "Entre 1921 e 1923, ele foi convidado pela companhia Norton Griffiths & Co. Ltda, para dirigir a construção do açude Patu em Senador Pompeu. Em 1932, ele cooperou na construção da estrada de rodagem de Fortaleza-Sobral, no trecho compreendido entre Itapajé e Patos".

Memória afetiva

Como relata o vereador de Meruoca, morador do Sítio Monte, até hoje são mantidos a casa de farinha, engenho e maquinários antigos do americano. “A casa tem sua estrutura toda original, como também os armazéns. Temos ainda funcionando a casa de farinha, o engenho e produção de um pouco de café e algumas frutas", conta Maurício.

Além da importância econômica para a região, o Sítio Monte é o reservatório de memórias afetivas da família de John Sanford. Liana Mascarenhas Sanford, bisneta do americano, recorda-se das férias em família no sítio. Foi lá onde ela conheceu o bisavô, em 1954, quando tinha 9 anos. Veio do Rio de Janeiro, onde residia com a mãe, Minerva Sanford Lima Mascarenhas, 99 anos, neta mais velha e matriarca da família.

Legenda: Minerva Sanford Lima, neta de John Sanford e matriarca da família, com Liana Mascarenhas Sanford, bisneta do americano.
Foto: Acervo pessoal

“Minha mãe, Minerva, trazendo seus dois filhos José Marcos e eu, veio fazer uma visita aos seus avós. Em julho era época de moagem de cana-de-açúcar. O engenho era movido por tração animal, junta de bois. Adoramos a novidade. Fazíamos o ‘puxa-puxa’, o doce ‘alfinim’ do mel da cana. Era deslumbrante e um bombom para nós, crianças. Meu bisavô era carinhoso e brincalhão com os bisnetos, que vieram tão de longe para conhecê-lo”, recorda Liana.

Para o economista Alexandre Vasconcelos, bisneto de John Sanford, o americano era conhecido pelo bom humor. “Ele era brincalhão. Brincavam falando dos Estados Unidos de Sobral, então ele dizia que nunca conseguiu sair dos Estados Unidos”, graceja Alexandre, que não chegou a conhecer o bisavô, mas cresceu escutando histórias do patriarca da família.

Ele conta ainda que John Sanford tinha boa reputação na região e era cotado para ingressar na política. “Apesar de ser americano, foi convidado a ser prefeito de Sobral algumas vezes e sempre recusou com expressão firme. Ela gostava mesmo dos seus negócios e da família”, comenta Alexandre, que reuniu todas as informações e documentos existentes sobre a história do patriarca e disponibilizou para consulta no site da família.  

No livro “A Família Sanford no Ceará”, o escritor Paulo de Almeida Sanford, o quarto dos 11 filhos de John Sanford, conta como o pai veio parar no Ceará, com apenas 25anos, sem falar português e sem nenhum conhecido nas terras brasileiras.

Legenda: Paulo de Almeida Sanford, filho de John Sanford e autor do livro “A Família Sanford no Ceará”
Foto: Acervo pessoal

John Roshore Sanford nasceu em 12 de março de 1864 no Brooklin, em Nova Iorque. Em 1889, chega ao Brasil para gerenciar, em Recife, a Keen Sutterly & Co., poderosa indústria de curtumes situada na Filadélfia (EUA). “No início de 1892, Mr. Sanford ausenta-se do escritório em Recife e dirige-se para a cidade de Fortaleza. Assume a gerência em Recife, o seu principal empregado, o hoje célebre Delmiro Gouveia”, destaca Alexandre Vasconcelos.

No ano seguinte, se instala em Sobral, onde se casa com Minervina de Almeida Monte, moça da alta sociedade sobralense. Do casamento, uma família numerosa se originou, chegando hoje à sua quarta geração, com mais de 200 descendentes. A história completa de John Sanford no Ceará com relatos e documentos sobre os feitos do americano na região Norte do Estado pode ser conferida no livro online disponível no site da família. Atualmente, os familiares buscam homenagear o patriarca por meio da nomeação de uma rua em Fortaleza com o nome de John Sanford.

Legenda: Comparação entre John Sanford e seu filho, Paulo Sanford.
Foto: Reprodução

Para baixar gratuitamente o livro “A Família Sanford no Ceará” acesse aqui o link

Serviço:

Para saber mais sobre a história de John Sanford, os interessados podem entrar em contato com o bisneto Alexandre Fontenelle Vasconcelos: (61) 9 8178 8127