PIB do CE encolhe 5,32%; primeira queda no 2º trimestre em 12 anos
O recuo foi o maior entre os estados que já anunciaram o desempenho de suas economias no período
A economia cearense já vinha dando sinais de que não iria resistir à crise, mas apenas ontem foi divulgada a evidência mais forte desse cenário. Segundo estimativa do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), o Produto Interno Bruto (PIB) cearense caiu 5,32% no segundo trimestre de 2015 em comparação com igual período do ano passado. Essa é a primeira vez em 12 anos que a soma de todos os bens e serviços produzidos no Estado apresenta decréscimo em um segundo trimestre.
Ipece: crescimento em 2015 será 'pouco acima de 0%"
Até então, 2003 era o último ano em que a economia cearense havia encolhido no período de abril a junho, com queda de 0,53%. Naquele ano, havia se iniciado a série histórica do PIB trimestral, divulgada pelo Ipece.
Considerando-se todos os períodos de três meses, o quatro trimestre de 2003 havia sido o último de retração na economia cearense (-1,02%). No segundo trimestre deste ano, O Ceará também registrou o pior resultado dentre os cinco estados que já tiveram suas estimativas divulgadas. Todos eles apresentaram queda: São Paulo (-5%), Minas Gerais (-3,5%), Bahia (-1,9%) e Rio Grande do Sul (-0,6%).
O PIB cearense também teve retração bem maior do que a registrada na média nacional no período (-2,6). "No Ceará, antes desses resultado, nós tínhamos 17 trimestres consecutivos em que nós vínhamos crescendo sempre acima da média nacional", afirma o diretor geral do Ipece, Flávio Ataliba.
O forte encolhimento da economia no Ceará surpreendeu os analistas do Ipece, que já esperavam retração, mas não com essa magnitude. A queda foi puxada, em grande parte, pela variação negativa de 3,52% no setor de serviços, que representa cerca de 73% do PIB do Ceará.
"O que acontece é que nós estamos sofrendo a conjuntura nacional, e isso se reflete através do aumento da taxa de juros, aumento da inflação, aumento do desemprego, restrição do crédito. Todos esses fatores condicionados impactam na economia nacional e mais fortemente no Ceará por ele possuir o setor de serviços com grande peso em sua economia", avalia Ataliba.
Na avaliação do diretor geral do Ipece, também tem influência na variação negativa do PIB a elevada base de comparação utilizada, o segundo trimestre de 2014. "Nesse período, nós estávamos bem na véspera da Copa do Mundo. E naturalmente vários segmentos foram aquecidos por conta do movimento relacionado aos negócios da Copa do Mundo", defende.
Serviços
Os serviços tiveram queda justificada, principalmente, pelas retrações nos segmento do comércio (-4,06%) e da administração pública (-0,28%), que possuem, respectivamente, participação de cerca de 21% e 30% na composição da atividade econômica do setor.
No caso do volume de vendas do comércio, o Ipece destaca que as principais quedas no acumulado dos seis primeiros meses deste ano em relação a igual período do ano anterior foram registradas em supermercados, móveis, e eletrodomésticos, mostrando que as famílias, com poder de compra corroído, estão gerando menos demanda.
O setor de agropecuária tem pouco peso na composição da economia cearense, mas influenciou de forma significativa na retração do PIB do segundo trimestre, ao cair 23,51%.
Seca
"O nosso perfil da agropecuária é muito dependente do período de chuvas. Ao contrário do que ocorreu no ano passado, em que a gente teve uma boa distribuição tanto temporal como espacial das chuvas, não foi o que aconteceu em 2015. Nós tivemos chuvas muito concentradas no litoral, que não é o forte da produção agrícola", diz a técnica de agropecuária do Ipece, Ana Cristina Lima.
Nesse contexto, todos os grãos tiveram queda nas estimativas de safra deste ano em relação à produção de 2014, com destaque para o arroz (-20,21%) e o feijão (-22,93%). Com relação às frutas, tiveram quedas as que pertencem, principalmente, a culturas irrigadas, como o melão (-40,29%), a melancia (-26,42%) e a banana (-5,59%).
Houve, ainda, queda do PIB no setor da indústria (-3,72%), impulsionada, sobretudo, pela retração em seu segmento mais representativo, o da indústria de transformação (-9,12%).
"Se antes nós enfrentávamos questões de competitividade, agora nesse segundo trimestre a situação ficou um pouco pior porque a indústria está se ressentindo da redução do consumo das famílias", avalia o analista e especialista em indústria do Ipece, Witalo Paiva.
Ciclo vicioso
Dentre os segmentos da indústria de transformação que tiveram queda, Paiva destaca a fabricação de bebidas e produtos alimentícios. "Corre-se um risco de entrar em um clico vicioso, ou seja, o comércio não encomenda da indústria, que não tem para quem vender, que demite, que reduz salário, que dá prejuízos para o comércio. Você entra em uma ciranda perniciosa".