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Cearense convive com 'explosões' no quintal onde há possível petróleo: 'os animais saem correndo'

Estrondos podem indicar presença de gás natural e petróleo, diz especialista.

Escrito por
Letícia do Vale leticia.dovale@svm.com.br
Recipientes no chão contendo substância escura semelhante a petróleo, entre folhas secas e galhos, em área externa.
Legenda: Barulho assusta moradores da propriedade.
Foto: Marcelo Andrade/IFCE.

O agricultor Sidrônio Moreira, de 63 anos, convive com pequenas "explosões" vindo de um dos poços artesianos cavados no quintal de sua propriedade, o Sítio Santo Estevão, a cerca de 35 km do centro de Tabuleiro do Norte. No local, uma possível ocorrência de petróleo está sendo investigada.

As explosões ocorrem desde novembro de 2024 e se somam a outras dificuldades já enfrentadas pela família, como a falta de água e a perda da renda extra proveniente da produção na propriedade. 

Conforme explica a família, foram feitas duas perfurações na propriedade de 49 hectares em busca de recursos para irrigar a plantação e alimentar os animais do sítio: um poço de cerca de 40 metros de profundidade e outro de 20 metros. 

No entanto, em vez de água, do chão brotou um líquido escuro e de odor semelhante a óleo e asfalto fresco. Alguns dias após a descoberta, veio o primeiro estrondo, conforme relata Sidnei Moreira, agricultor e filho do seu Sidrônio. 

“É como se você desse um soco num tambor de ferro fechado. A primeira vez eu achei que podia ser um pedaço de pedra caindo no poço, mas não é porque aconteceu de novo. A gente nota que vem de baixo. Acontece uma ou duas vezes por mês. Vem do poço mais fundo, de 40 metros. Os animais se espantam, saem correndo
Sidnei Moreira
Agricultor e filho do seu Sidrônio
  

De acordo com o agricultor, o cenário assusta não só pela substância e barulhos desconhecidos, mas pela distância, de menos de 10 metros, entre o poço e a residência da família. 

Fenômeno incomum gera temor em moradores 

No momento, o grupo aguarda um retorno da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) sobre o achado. A entidade foi contatada em julho de 2025, após a família receber orientações do engenheiro químico do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), do campus de Tabuleiro do Norte, Adriano Lima.

A agência, por sua vez, visitou o sítio em março deste ano, oito meses depois.

“Eles (ANP) disseram que não saberiam explicar o que é o estrondo agora, sem análise, e disseram para não se aproximar. Agora, é uma dificuldade porque é na nossa casa, como que a gente não se aproxima? Não dá 10 metros da nossa porta. A gente tem medo de ser gás, algum produto tóxico, a gente não conhece e tem medo”, lamenta Sidnei. 

Questionada sobre o que poderiam ser as “explosões” relatadas, a Agência informou que não dispõe de elementos suficientes para avaliar o cenário. Segundo a entidade, o fluido encontrado está sob análise, no entanto, “ainda não há uma conclusão sobre sua composição”. Também não foi estipulado prazo para o fim do processo. 

Outra questão observada por Sidnei é a elevação do nível da substância no poço. 

“Assim que a gente furou havia só uns 2 metros do material. Pela minha medição, a última vez o material tava com uns 7 metros. Todo mês ele sobe uns 4 dedos. Minha preocupação é transbordar”, descreve. 

Atualmente, a família mantém os dois poços cobertos. Além disso, qualquer atividade de perfuração e plantio na propriedade foi suspensa, devido aos riscos de contaminação pela substância desconhecida.

Estrondo pode ser de gás natural, aponta especialista

Na visão do engenheiro de petróleo e membro da Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET), Ricardo Pinheiro, é possível que os estrondos relatados sejam oriundos do gás natural liberado por uma fratura comunicante de um poço de petróleo mais profundo

Ambas as substâncias são combustíveis fósseis formados pela decomposição de matéria orgânica e podem ser encontradas juntas em determinados pontos no subsolo. 

De acordo com o especialista, o gás natural, ao entrar em contato com a superfície, se espalha e se descomprime rapidamente, gerando um som próximo a um "pneu estourando" e dando a impressão de uma "explosão". 

"Muitas áreas que têm acúmulo de petróleo têm fraturas, que podem vir lá debaixo das zonas acumuladoras de petróleo. O que ele deve ter conseguido foi a comunicação com alguma dessas fraturas. Elas nunca são de grande vazão. Ela vai trazer só um pouquinho de petróleo e um pouquinho de gás"
Ricardo Pinheiro
Engenheiro de petróleo
 

Ele lembra, ainda, que o Sítio Santo Estevão está localizado próximo ao campo de Jaçanã, área de produção de petróleo localizada na Bacia Potiguar, no Rio Grande do Norte. No local, indica Ricardo, é comum o encontro de petróleo e gás juntos. 

Outra pista da presença de gás natural, segundo o engenheiro, é o aumento no nível da substância no poço, que estaria sendo empurrada pelo combustível gasoso. 

Agricultor em área rural segura pote com líquido escuro, ao lado de cerca de madeira e vegetação ao fundo.
Legenda: Seu Sidrônio está sem plantar desde a descoberta da substância e tem prejuízo mensal acima de R$ 2 mil.
Foto: Marcelo Andrade/IFCE.

Possível petróleo pode ser economicamente inviável

Apesar do temor de seu Sidrônio e da família, Ricardo Pinheiro acredita que o cenário não irá evoluir para além dos estrondos. 

Segundo o especialista, a frequência reduzida das "explosões" caracteriza um achado com baixo potencial produtivo de petróleo, além de uma provável inviabilidade econômica.

"Se tivesse uma grande perspectiva de produção, não iria parar de emanar o gás. Essas expansões são de pequeno volume, então elas no máximo vão fazer barulho. Se fosse uma coisa maior esse reservatório de petróleo, talvez nem precisaria furar o poço, iriam aparecer naturalmente indícios de petróleo na terra, se tivesse pressão, volume”, salienta. 

Além disso, de acordo com Ricardo, o bloco de Jaçanã, atualmente, é de baixa produtividade e apresenta apenas pequenas emanações de combustível. Mesmo com a aparente tranquilidade, Ricardo ressalta que os moradores do sítio devem manter afastadas das perfurações quaisquer atividades com fogo ou fontes de ignição. 

“Nem água e nem dinheiro, fiquei só com a dívida”, diz seu Sidrônio

Os estrondos são apenas um dos problemas enfrentados no sítio do seu Sidrônio após a descoberta da substância. Sem água e sem poder fazer novas perfurações, conforme orientado pelas autoridades, o agricultor está sem plantar desde a descoberta e enfrenta um prejuízo mensal superior a R$ 2 mil

Além disso, a família adquiriu uma dívida de R$ 25 mil decorrente de empréstimos, contratados para pagar o serviço de perfuração dos poços e a renovação do rebanho.

Outro fator preocupante é que, mesmo que seja confirmada a presença de petróleo, especialistas apontam que a exploração do recurso dificilmente teria viabilidade econômica no local.

 

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