Visão 2030: planejar e construir para uma indústria mais forte

Fernando Valente Pimentel, superintendente da Abit, pede competição equilibrada com importados

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
Legenda: A indústria têxtil e de confecções do Brasil opera na ponta tecnológica, mas é castigada por juros altos e alta carga tributária
Foto: Helene Santos
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Elaborado para esta coluna, o texto a seguir é de autoria do diretor superintendente e presidente emérito da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções (Abit), Fernando Valente Pimentel, que aborda a atualização do plano Visão de Futuro 2030 do Setor Têxtil e de Confecção. 

Pimentel afirma que o futuro do setor será moldado pela convergência de grandes vetores de transformação, dentre eles a sustentabilidade, a descarbonização, a economia circular, a digitalização, a inteligência artificial, os novos materiais e a inovação tecnológica. E aborda as questões que tornam difícil a vida do industrial no Brasil. Vale a pena informar-se sobre assuntos tão relevantes de um dos segmentos mais importantes da indústria brasileira. Leia: 

“O setor têxtil e de confecção brasileiro mantém mais de 1,3 milhão de empregos diretos, respondendo por cerca de 6% do PIB da indústria de transformação nacional. São números que revelam não apenas o seu peso econômico, mas também sua extraordinária capacidade de resistir, adaptar-se e se reinventar diante dos mais variados desafios. Crises globais, rupturas logísticas, transformações geopolíticas, mudanças nos padrões de consumo, aceleração digital, novas exigências regulatórias e uma concorrência internacional cada vez mais intensa marcaram os últimos anos. Poucos setores enfrentaram tantas pressões simultâneas e demonstraram tamanha resiliência. 

“É justamente por isso que olhar para o horizonte de 2030 não é um exercício de futurologia, mas sim uma necessidade estratégica. A Abit, em parceria com o Senai CETIQT e com a participação de empresários, trabalhadores, especialistas, representantes do setor público e da academia, atualiza periodicamente o documento Visão de Futuro 2030 do Setor Têxtil e de Confecção, uma ferramenta estratégica alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Seu propósito vai além do diagnóstico: trata-se de identificar tendências, antecipar desafios e apontar oportunidades que permitam ao Brasil consolidar sua posição entre os maiores e mais relevantes produtores têxteis do mundo. 

“A atualização do documento deixa claro que o futuro do setor será moldado pela convergência de grandes vetores de transformação, dentre eles a sustentabilidade, a descarbonização, a economia circular, a digitalização, a inteligência artificial, os novos materiais e a inovação tecnológica. Esses temas já estão presentes no cotidiano das empresas e impactam todos os elos da cadeia produtiva, do campo ao consumidor final. 

“A agenda da sustentabilidade avança rapidamente em escala global. Novas regulamentações internacionais, passaportes digitais de produtos, exigências de rastreabilidade e metas climáticas passarão a influenciar cada vez mais o acesso a mercados e a competitividade das empresas. Nesse contexto, o Brasil parte de uma posição privilegiada. 

“Contamos com uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta, uma cadeia produtiva completa, do campo ao varejo, liderança mundial na produção sustentável de algodão e uma biodiversidade capaz de impulsionar avanços importantes na bioeconomia e no desenvolvimento de novos materiais. Transformar esses ativos em vantagem competitiva efetiva é um dos maiores desafios e, ao mesmo tempo, uma das maiores oportunidades da próxima década.  

“Entretanto, nenhum planejamento estratégico produzirá resultados duradouros se o ambiente macroeconômico e institucional não favorecer o investimento produtivo. Transformar potencial em realidade exige avanços simultâneos em agendas estruturantes, como a redução do custo do capital, a simplificação regulatória, a melhoria da infraestrutura logística, a segurança jurídica, a qualificação profissional, o estímulo à inovação e o fortalecimento da inserção internacional da indústria brasileira. 

“Igualmente fundamental é assegurar condições equilibradas de concorrência. Hoje, empresas que produzem no Brasil, geram empregos, recolhem tributos, cumprem rigorosas legislações ambientais e trabalhistas, investem continuamente em inovação e competem com fabricantes estrangeiros submetidos muitas vezes a exigências significativamente menores. Isso não representa uma competição equilibrada. Ao contrário, trata-se de assimetria que compromete a capacidade de desenvolvimento da produção nacional. 

“A busca pela igualdade tributária e regulatória não significa protecionismo, mas sim a defesa de um princípio elementar de justiça concorrencial. Em um ambiente global integrado, a competitividade deve ser determinada pela eficiência, inovação, qualidade, produtividade e sustentabilidade e não por distorções que favoreçam quem produz fora do País, em detrimento de quem investe, gera empregos e produz dentro dele. 

“A transformação projetada para 2030 exigirá investimentos expressivos em modernização produtiva, digitalização, sustentabilidade, pesquisa e desenvolvimento. Esses investimentos, por sua vez, dependem de um ambiente que estimule o empreendedorismo, fortaleça a confiança empresarial e assegure condições isonômicas de competição. 

“A indústria têxtil e de confecção brasileira está preparada para fazer sua parte. Continuará investindo, inovando, gerando empregos, promovendo inclusão produtiva e contribuindo para o desenvolvimento econômico e social do Brasil. Mas, a construção desse futuro é uma responsabilidade compartilhada. Exige empresas comprometidas com a transformação, trabalhadores cada vez mais qualificados, instituições voltadas à inovação e políticas públicas capazes de criar um ambiente favorável ao crescimento sustentável. 

“O desafio está posto e o potencial é inegável. O Brasil reúne recursos naturais, capacidade empresarial, competência técnica e uma cadeia produtiva completa que poucos países possuem. Cabe agora a todos os atores envolvidos — empresários, trabalhadores, pesquisadores, entidades representativas e gestores públicos — agirem com visão de longo prazo, senso de urgência e disposição para enfrentar os desafios da transformação. 

“O Brasil têxtil de 2030 não será resultado do acaso. Será fruto das escolhas, dos investimentos e das decisões tomadas a partir de agora. Quanto mais cedo avançarmos nessa direção, maiores serão as oportunidades de construir uma indústria ainda mais competitiva, inovadora, sustentável e protagonista no cenário global.” 

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