Negócios

O Ceará conseguiu diversificar a pauta exportadora após o tarifaço dos EUA?

A representatividade dos Estados Unidos nos produtos exportados pelo Ceará saiu de 47,6% para 35,2%.

Escrito por Mariana Lemos mariana.lemos@svm.com.br
13 de Junho de 2026 - 07:00
capa da noticia
Legenda: Ceará aumentou o volume exportado de janeiro a maio de 2026, na comparação com o mesmo período de 2025.
Foto: Thiago Gadelha.

Um dos estados mais afetados pelo tarifaço imposto pelos Estados Unidos, o Ceará viu a necessidade de ajustar sua política de comércio exterior para não depender do comércio norte-americano. 

As empresas cearenses conseguiram aumentar o montante enviado a outros países. Contudo, ainda há necessidade de expandir os setores da pauta exportadora, segundo especialistas ouvidos pelo Diário do Nordeste

A representatividade dos Estados Unidos nos produtos exportados pelo Ceará saiu de 47,6% para 35,2%. O país segue como o maior parceiro comercial cearense, mas o montante enviado caiu de US$ 366 milhões para US$ 294 milhões.

O comparativo considera os meses de janeiro a maio de 2025 com o mesmo período de 2026, com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Apesar da queda no país norte-americano, o volume total exportado pelo Ceará aumentou 8,5%, passando de US$ 770 milhões para US$ 835 milhões. Entre os países que mais cresceram em envios estão México, Espanha e Alemanha.

O México não figurava entre os 10 maiores importadores de produtos cearenses em 2025 e se tornou o terceiro maior comprador nos primeiros cinco meses de 2026. O montante enviado ao país latino cresceu mais de nove vezes, saindo de US$ 5 milhões para US$ 47 milhões.

Já a Espanha mais que triplicou as compras de itens cearenses e passou do 11.º para o segundo lugar. A Alemanha cresceu o montante recebido do Ceará de R$ 16 milhões para R$ 43 milhões.

NECESSIDADE DE DIVERSIFICAR PRODUTOS

Embora a expansão da malha de países seja positiva, é preciso diversificar os produtos enviados ao exterior, defende Karina Frota, gerente do Centro Internacional de Negócios (CIN) da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec).

Karina Frota destaca que o aumento de 8,5% no total exportado foi puxado sobretudo por produtos semimanufaturados de ferro, que há anos dominam a pauta exportadora cearense. 

"No México, esse produto respondeu por cerca de US$ 42,3 milhões, quase 90% das exportações cearenses ao país. Na Espanha, somou cerca de US$ 33,9 milhões, aproximadamente 72% do total vendido para esse mercado", aponta.

O aumento das compras no México pode ser fruto de importadores de aço norte-americanos, que realizaram compras pelo país vizinho, sugere Larissa Amaral, professora de Comércio Exterior da Universidade de Fortaleza (Unifor). 

"Uma suposição é que as filiais das empresas norte-americanas recebem esses produtos para tentar fugir dos acidentes de tarifa impostos pelos Estados Unidos. Então, pode ser que a comercialização esteja triangulada", comenta. 

Além do aço, o Ceará também aumentou os envios de melões, quartzitos, partes de motores e geradores e água de coco.

CRESCIMENTO DE NOVOS DESTINOS DEVE SE CONFIRMAR NO LONGO PRAZO

Ainda é precoce confirmar uma transformação no comércio exterior cearense, considerando principalmente as diferenças de exportações conforme a sazonalidade, explica Larissa Amaral.

Dessa forma, é preciso continuar os esforços para encontrar novos destinos aos produtos cearenses, reduzindo a dependência dos Estados Unidos no período de instabilidade política.

Nitidamente há um esforço de diversificar o mercado com relação aos Estados Unidos. A gente não consegue mudar destino de exportação tão rapidamente como a gente gostaria, mas, com mais tarifas e alguns problemas logísticos também, a gente tende a buscar novos mercados.
Larissa Amaral
Professora de Comércio Exterior da Universidade de Fortaleza (Unifor)

A tendência de redução do protagonismo estado-unidense nas exportações cearenses só deve se confirmar se outros mercados consumidores continuarem a crescer, comenta Karina Frota.

"No longo prazo, uma menor concentração nos EUA pode reduzir riscos comerciais e dar mais estabilidade às exportações. Porém, se essa diversificação continuar baseada principalmente no aço, o Ceará ainda ficará vulnerável aos ciclos da siderurgia e à demanda de poucos compradores internacionais", pondera.

O tarifaço de 50% para que produtos brasileiros entrem nos EUA vigorou de agosto de 2025 a fevereiro de 2026, quando a Suprema Corte norte-americana derrubou a medida por irregularidades na aplicação por decreto presidencial

Agora, os EUA pretendem taxar os produtos brasileiros a partir de investigação do Escritório de Comércio, seguindo os trâmites legais. A nova tarifa não deve atingir uma série de produtos, como carne, café, frutas, aeronaves e minerais críticos. 

Assim como nas tarifas de 2025, os produtos cearenses mais enviados não se enquadram na lista de exceções. Aço, calçados, pescados e pedras ornamentais serão taxados caso a nova tarifa entre em vigor.

Este conteúdo é útil para você?
Assuntos Relacionados

1

2 3 4 5