Fortaleza 300 anos: como a cidade se tornou a maior economia do Nordeste
A Capital da terra da luz ergueu sua economia sobre o sol e o mar por meio do setor de serviços, que, atualmente, corresponde a quase 70% do Produto Interno Bruto (PIB) da Cidade. Mas nem sempre foi assim. A Fortaleza de 1726 era basicamente uma sede administrativa, com atividades pecuária, comercial e portuária incipientes, segundo fontes especializadas.
Isso só começou a mudar a partir do século XIX, com o ciclo do algodão no Ceará. Já no século XX, iniciaram-se o processo de industrialização e diversas transformações que nos levam ao desenho econômico atual: a maior economia do Nordeste, superando Salvador desde 2018.
Na semana em que Fortaleza celebra seus 300 anos, o Diário do Nordeste publica uma série de reportagens multimídia que ajudam a entender como a Capital cearense chegou aos três séculos de existência, das disputas políticas aos marcos econômicos, das mudanças urbanas às memórias afetivas que atravessam gerações.
Nesta matéria, dividimos a trajetória de Fortaleza em três blocos centenários para contar sua história econômica.
No primeiro século, a Fortaleza administrativa
A Capital cearense foi elevada à categoria de vila em 13 de abril de 1726, marco oficial de sua fundação, desenvolvendo-se ao redor da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção.
No início de sua história, segundo o geólogo Alexandre Queiroz, a localidade era considerada de "terceira categoria", enquanto as cidades de Icó, Aracati e Sobral eram classificadas como de "primeira linha", pois concentravam a real riqueza da capitania através da pecuária e das charqueadas.
Naquele momento, a função de Fortaleza era primordialmente administrativa e geopolítica, servindo como proteção do território a partir de seu forte.
Queiroz ressalta que essa definição faz parte de um estudo de 1970, elaborado pela professora Maria Salete de Souza, que analisou a hierarquia urbana do Ceará no período colonial.
Ele reforça que, naquela época, a economia era baseada em uma "drenagem ainda muito restrita da produção do gado", pois a zona portuária ainda não tinha importância no transbordo de mercadorias.
Apenas com a independência da Capitania do Ceará, em 1799, aliadas a medidas do Brasil Imperial após 1808, Fortaleza começou a ser priorizada com "regramentos alfandegários diferenciados e investimentos", ganhando maior controle sobre o território.
Sobre esse período, o economista Ricardo Coimbra explica que a Cidade possuía um pequeno núcleo de produção de subsistência.
Assim, era conhecida como 'Vila dos Perrapados', dependendo do comércio local e das atividades administrativas, sem participação significativa nas charqueadas".
A escolha de Fortaleza como capital, segundo Coimbra, deu-se pela sua "localização geográfica e por possuir um porto natural, embora modesto, considerado o mais viável para o comércio com o Atlântico".
O segundo século: a chegada do império do algodão
O século XIX (de 1801 a 1900) transformou Fortaleza no grande empório comercial do Estado. O motor dessa mudança foi o algodão, o "ouro branco", que encontrou na Capital o seu canal de escoamento para a Europa.
Wandemberg Almeida, presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), destaca que, naquele momento, a demanda internacional cresceu drasticamente devido à Guerra de Secessão nos Estados Unidos, fazendo com que Fortaleza, como entreposto comercial, passasse a "exportar algodão em maior escala".
Nesse contexto, a cidade deixou de estar isolada. Alexandre Queiroz pontua que a construção das linhas férreas no final do século XIX foi o "sistema técnico necessário para turbinar essa economia", conectando o interior ao porto da capital.
Contudo, a economia ainda era vulnerável. Wandemberg observa que, ao chegar em 1930, Fortaleza era uma "economia pouco diversificada, com forte dependência do setor primário e limitada capacidade industrial", sofrendo os impactos da Crise de 1929 e das secas persistentes.
O processo industrial do terceiro século
O último século marcou a transição definitiva para a modernidade. Um dos maiores marcos foi o Porto do Mucuripe, inaugurado na década de 1950.
Naquele ano, Pedro Di Paula, nascido em 1929, rompeu o histórico de trabalho familiar da época e foi ser estivador do novo porto. Ele não está mais aqui para contar essa história desde 2014, mas o seu neto, Diêgo Di Paula, lembra-se bem de ter crescido ouvindo sobre a trajetória do avô.
Segundo ele, a família se orgulha muito de o avô ter garantido o sustento dos cinco filhos por meio desse trabalho.
Além disso, Diêgo comenta que, naquela época, eles moravam na Varjota, bairro cuja população era composta essencialmente por trabalhadores da área portuária.
"Pelas histórias de minha mãe, o que chama mais atenção é que eles sempre tinham tudo antes dos outros. Um desses exemplos foi a televisão em cores e outros objetos que na época, eram considerados de rico", conta.
Para o economista Célio Fernando, vice-presidente da Academia Cearense de Economia (ACE), o porto foi a "maior alavanca de desenvolvimento econômico que Fortaleza conheceu no século XX", substituindo o precário sistema de barcaças (pequenas embarcações) da Praia de Iracema.
A industrialização ganhou corpo entre as décadas de 1960 e 1990, impulsionada pelos incentivos da Sudene, do BNB e pela chegada da energia elétrica de Paulo Afonso (complexo hidrelétrico na Bahia).
De acordo com a geógrafa e professora da UFC, Alexsandra Muniz, a ocupação industrial de Fortaleza ocorreu de forma estratégica na zona oeste, aproveitando a proximidade com o porto, a ferrovia e a "abundância de mão de obra de baixo custo".
Ela destaca que as indústrias se concentraram "ao longo de eixos estruturantes como a Avenida Francisco Sá", atraindo segmentos como o têxtil (fábricas Progresso, São José, Finobrasa e Vicunha), o setor de óleos (Brasil Oiticica) e a indústria alimentícia, com unidades da M. Dias Branco.
Contudo, ela ressalta que foi uma "industrialização periférica, dependente e seletiva", que já nasceu com baixo nível tecnológico e vinculada a decisões externas.
O redesenho a partir da década de 1990
No entanto, a partir dos anos 1990, Fortaleza viveu uma "desindustrialização precoce", conforme Célio Fernando, com as fábricas migrando para a Região Metropolitana (como Maracanaú) e para o interior, enquanto a Capital se especializava em serviços, turismo e construção civil.
De acordo com o economista e professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Lauro Chaves, a desindustrialização é um processo natural em grandes centros urbanos em crescimento.
"A cidade passa a apresentar problemas crônicos de logística, gargalos de infraestrutura e uma elevação acentuada nos custos operacionais", lista.
Já para a professora, o Alexsandra o que foi vivido não é um simples declínio, mas uma "reorganização espacial da produção" motivada pela guerra fiscal e busca por menores custos.
Segundo ela, "Fortaleza deixa de ser o espaço privilegiado da produção industrial direta e passa a concentrar funções de comando, gestão, circulação e consumo", consolidando-se como uma metrópole terciária.
Esse deslocamento para municípios como Maracanaú, Horizonte e Pacajus transformou antigas áreas industriais, como a Jacarecanga, em espaços de "esvaziamento funcional ou requalificação seletiva associada à especulação imobiliária".
Por falar nisso, no mesmo período, conforme Célio Fernando, "duas indústrias sem chaminé" começaram a desenhar silenciosamente o futuro econômico de Fortaleza: o turismo e a construção civil.
O turismo, impulsionado pela beleza das praias cearenses, pelo clima generoso e pela hospitalidade singular do povo nordestino, foi crescendo como vetor de geração de renda e emprego, alcançando todos os estratos da economia local, do vendedor ambulante ao grande empresário hoteleiro".
A construção civil, por sua vez, transformou a paisagem urbana de Fortaleza, gerando empregos para trabalhadores de baixa e média qualificação, movimentando cadeias produtivas inteiras e respondendo tanto à demanda habitacional das famílias migrantes quanto ao boom imobiliário das décadas seguintes.
"Essas duas indústrias, que não poluem o ar com chaminés, mas que têm impactos socioambientais próprios quando mal planejadas, tornaram-se pilares estruturais da economia fortalezense e precisam ser tratadas com políticas de sustentabilidade, qualificação da mão de obra e ordenamento territorial rigoroso", reforça.
Ele pondera que, nesse momento, Fortaleza consolidou-se como sede administrativa e financeira desse processo, concentrando matrizes, bancos e mão de obra qualificada, enquanto os impactos ambientais das indústrias recaíam sobre as populações das áreas periféricas da Região Metropolitana.
O operariado urbano cresceu, sindicatos se organizaram, e bairros como Bom Jardim, Jangurussu e Mondubim ganharam uma identidade ligada ao trabalho fabril. Esse processo, no entanto, foi acompanhado por uma migração campo-cidade intensa e não planejada, ou seja, famílias inteiras deixaram o semiárido em busca de emprego industrial e encontraram, muitas vezes, apenas cortiços, ausência de saneamento e vulnerabilidade urbana".
O boom dos anos 2000
Entre 2003 e 2023, a riqueza gerada pela Capital cearense apresentou um salto expressivo, saindo de aproximadamente R$ 15,2 bilhões para R$ 86,9 bilhões, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Esse crescimento reflete a consolidação da cidade como polo de serviços e tecnologia. Ao longo desse período, apenas um recuo foi registrado.
Em 2020, o PIB caiu 3,8% em relação ao ano anterior, reflexo da pandemia de Covid-19. No ano seguinte, a recuperação foi intensa, com o indicador saltando de R$ 64,8 bilhões para R$ 73,4 bilhões, uma alta de cerca de 13,3%.
Nesse intervalo de 21 anos, 2018 marcou um avanço relevante para a economia local com a implementação do hub aéreo da Air France/KLM/GOL, viabilizada após a Fraport assumir a gestão do Aeroporto de Fortaleza.
Hoje, a cidade vive o ciclo da economia digital. Célio Fernando ressalta que Fortaleza possui atualmente a "maior concentração de cabos submarinos em todo o continente", o que atrai data centers e a insere na "economia do conhecimento".
"Esse é, talvez, o fenômeno econômico mais surpreendente e ainda pouco compreendido pela própria população da cidade. A posição geográfica de Fortaleza é singular, ela é o ponto do continente americano mais próximo da Europa e da África, o que a torna destino natural para cabos submarinos transatlânticos", avalia.
Desafios e o futuro: a economia criativa e a dívida social
Apesar dos avanços tecnológicos, os especialistas alertam para os desafios estruturais. Célio Fernando e Lauro Chaves apontam que o maior problema é a "redução das desigualdades urbanas", já que a riqueza gerada pela infraestrutura digital precisa chegar às periferias.
Olhando para o futuro, surgem novas apostas como a economia do mar e a criativa. Célio Fernando vislumbra o potencial do "Iracemawood", um polo de produção audiovisual que aproveitaria a tradição cinematográfica cearense e sua infraestrutura digital para se tornar uma "indústria sem chaminé" de classe mundial.
Alexsandra Muniz reforça que o desafio central dos próximos 100 anos "não é apenas tecnológico, mas político e territorial". Para ela, a questão decisiva para o próximo século é "se a cidade continuará crescendo". Se sim, como isso irá ocorrer, para quem e sob quais condições, ela questiona.
"Fortaleza precisa transitar de uma plataforma funcional ao capital global para um modelo de desenvolvimento baseado em planejamento com justiça territorial", garantindo o "direito à cidade para toda a população" e superando a informalidade que ainda atinge mais de 50% dos trabalhadores.
Sobre essa nova vocação de hub digital, a geógrafa alerta para o risco da cidade tornar-se apenas uma "plataforma técnico-operacional a serviço de grandes corporações globais".
Ela cita o caso do data center da ByteDance (TikTok) como um exemplo de "enclave produtivo", caracterizado por "alta densidade tecnológica e forte inserção global, mas reduzidos encadeamentos com a economia regional" e baixa geração de empregos locais qualificados.
Além disso, aponta que esses empreendimentos pressionam recursos críticos como energia e água em um contexto de semiárido.
Já Lauro Chaves lembra que o futuro da Cidade precisa ser moldado pelos princípios da economia circular, da sustentabilidade urbana e do ESG (Governança Ambiental, Social e Corporativa), transformando Fortaleza em uma plataforma de integração global com a Europa, África, América do Norte e Ásia.