Água: americanos trazem modelo de gestão para o CE
Sistema de sucesso utilizado na Califórnia servirá de base para estudo que visa otimizar a irrigação do Estado
Utilizar a água disponível da forma mais inteligente possível, sabendo exatamente a melhor maneira de armazená-la e utilizá-la na produção agrícola. Foi essa a principal mensagem que dois pesquisadores americanos, especialistas em gestão hídrica, deixaram para os agricultores cearenses, como forma de combater a seca. Em palestra realizada ontem, no Palácio da Abolição, Richard Snyder e Cayle Little explicaram como a Califórnia continua sendo referência mundial na agricultura, mesmo passando por uma seca de três anos.
"Temos atualmente 12 açudes no estado, todos abaixo do nível esperado para este ano. Além disso, também estamos há anos sem neve, que é nossa principal fonte de armazenamento, através do degelo. Ainda assim, seguimos com grande produção agrícola e milhões de hectares irrigados, graças a um grande e longo trabalho de pesquisa e conscientização dos agricultores", ressalta Richard Snyder, pesquisador da Universidade da Califórnia, Davis (UCDavis) e um dos criadores do Sistema de Informação para o Manejo da Irrigação na Califórnia (Cimis).
O sistema californiano, aliás, servirá de molde para a elaboração de um estudo estratégico que definirá as melhores formas de gerenciamento da água na agricultura irrigada cearense. A iniciativa é da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece), que desembolsará R$ 122 mil para a execução do projeto, através do Instituto Centro de Ensino Tecnológico (Centec).
"Nos próximos 90 dias, teremos um documento que vai nos possibilitar usar a água de uma forma mais racional e inteligente. Buscamos essa parceria com professores da Califórnia para nos espelharmos em um sistema que tem mostrado eficiência em um estado com clima semelhante ao nosso", ressalta o presidente da Adece, Ferruccio Feitosa.
Na medida certa
Ainda segundo Snyder, além do trabalho de conscientização dos produtores rurais, um dos grandes triunfos da Califórnia na agricultura irrigada é a medição da evapotranspiração das plantações, que calcula tanto a perda de água do solo por evaporação como também da planta por transpiração. Dessa forma, diz, os produtores sabem a quantidade exata de água a ser utilizada.
"O mecanismo utilizado para fazer isso também consegue dizer quanto de água ele tem a disposição. Antes, o equipamento mais barato custava US$ 3,2 mil, mas desenvolvemos um novo de US$ 145,00 que já está sendo adquirido por agricultores americanos", diz Snyder.
Conforme Cayle Little, engenheiro da Divisão da Gestão Integrada das Águas do Departamento de Recursos Hídricos da Califórnia (DWR), em 1986, apenas 0,5% dos agricultores californianos utilizavam a medição da evapotranspiração na produção. Atualmente, conta, esse número já ultrapassou os 50%. "35% dos alimentos consumidos nos Estados Unidos saem de 1,2% de sua terra agrícola. É um exemplo de como podemos maximizar a produção em determinados locais", diz o americano.
Após a conclusão
Batizado de "Estudo técnico para a alocação de água destinada à irrigação", o projeto inspirado no modelo californiano é inédito no País e será executado na região do Médio e Baixo Jaguaribe. Quando for concluído, o mesmo será entregue à Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) e à Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). "A ideia é que esses dois órgãos possam colocar em prática os resultados do estudo para que possamos usar toda a inteligência adquirida como forma de ter o maior percentual de terra irrigada no Ceará", destaca Ferruccio Feitosa.
Para o presidente do Instituto Centec, Francisco Viana, o estudo representará um "upgrade" no "grande trabalho desenvolvido pela Funceme", que, através do Sistema de Informações Meteorológicas para Irrigação no Ceará (Simic), já leva informações para os produtores agrícolas do Estado. "O lado bom da crise é que podemos desenvolver projetos assim, confrontando o que já fazemos com algo que é referência mundial. É sempre bom evoluir e essa iniciativa chegou a hora certa", comenta.
Áquila Leite
Repórter