Trilhas das novelas dos anos 1970 inspiram novo álbum produzido por Pupillo

O baterista pernambucano, ex-Nação Zumbi, reuniu nove releituras de trilhas de folhetins globais como 'Selva de Pedra' e 'O Bem Amado'. A maior parte do repertório é instrumental e já está disponível nas plataformas digitais

Legenda: Produtor musical, o baterista lança o segundo álbum este ano, reunindo vários artistas e relelturas de repertórios
Foto: André Fofano

Se o ouvinte volta entre 40 a 50 anos atrás no tempo, vai encontrar uma obra musical peculiar em torno das telenovelas da época. Na década de 1970, as trilhas sonoras de folhetins globais como "Selva de Pedra" (1972-1973) e "O Bem Amado" (1973) eram produzidas por maestros e arranjadores de orquestra, dentre outros músicos gabaritados. Diferente do período em que o "gancho" das trilhas passou a ser a imagem do elenco na capa dos discos, esse repertório se consolidou na memória dos fãs da sonoridade setentista.

Colecionador de vinis com foco nessa obra, o baterista e produtor musical Pupillo (ex-Nação Zumbi) lança "Sonorado apresenta: Novelas" (Deck Disc), álbum que reúne 9 faixas pinçadas dessas trilhas. Já disponíveis nas plataformas digitais, as músicas têm uma pegada na cultura do hip hop e tiveram, para o disco, versões construídas pelo time formado por Thomas Harres (percussão e voz), Marcio Arantes (baixo e voz), Zé Ruivo (teclados, sintetizadores e voz), Guri (guitarra e voz) e Ângelo Medrado (caxixi e voz). 

No primeiro semestre, pouco antes do início da pandemia do coronavírus, Pupillo já tinha lançado o ótimo "Orquestra Frevo do Mundo", uma coletânea de versões pop de clássicos do frevo. O disco trouxe nomes como os conterrâneos Otto e Duda Beat, e ainda Caetano Veloso e a cantora Céu no repertório. Em entrevista ao Diário do Nordeste, o músico respondeu cinco perguntas sobre o novo disco, falou da inspiração a partir das novelas e pela sonoridade dos anos 70. 

Você chega a ter lembrança de acompanhar alguma dessas novelas como espectador?

Não tenho nenhum tipo de memória, porque eu sou de 74. Então minha memória vem a partir dos anos 80, quando a indústria já estava completamente diferente, e a forma de fazer trilha pra novela já tinha entrado no esquema de acordos entre a indústria fonográfica e as emissoras. Esse interesse veio quando comecei a trabalhar com música e a colecionar vinil. Daí essas trilhas, muito por conta do hip hop e da cultura do DJ, começando aí nas festas, ouvindo esses sons e logo depois me apaixonei pelos arranjos, arranjadores e grandes maestros. E os grandes ritmistas que o Brasil tem e faz escola mundo afora. 

A sua coleção de trilhas de novelas se concentra nos anos 70 ou você chegou a colecionar aqueles álbuns com o ator principal na capa e tudo mais?

Minha coleção é focada nos anos 70, por conta do trabalho dos arranjadores e grandes músicos. Mas na minha família, principalmente uma tia minha chegou a colecionar. Tinha novela como 'Top Model' (1989-1990), 'Roque Santeiro' (1985-1986), enfim, todas essas trilhas divulgadas a partir dos anos 80. Eu conhecia também, porque eram trilhas muito divulgadas e passaram a tocar muito e ditar as regras nas rádios. Mas não despertou meu interesse a partir do momento que virei músico. Não era o foco da minha pesquisa. 

Legenda: Pupillo e a coleção de vinis que deu base às versões do novo disco
Foto: Céu

Alguma trilha ficou de fora do disco e você gostaria de ter incluído? 

Talvez a trilha de "Assim na terra, como no céu" (1979-1980), do Waltel Branco (1929-2018), que é uma trilha incrível e eu ainda não tinha o vinil na época. Esses vinis são muito caros e difíceis de achar. Mas, para o show ao vivo, com certeza vou incluir alguma música desse disco sim. 

A sonoridade do disco em termos de timbres dos instrumentos, por exemplo, remete bastante a um tipo de som "vintage" que tem sido resgatado com frequência por várias bandas contemporâneas (o próprio Cidadão Instigado, aqui do Ceará, tem essa referência). Como você percebe esse resgate? É algo da sua geração ou, como produtor, você percebe isso entre músicos mais novos também?

Não acho que seja um "resgate" em si. A música nos dá hoje em dia ferramentas, com a tecnologia, possibilidades da gente buscar sonoridades de várias décadas. A de 1960 é muito influente também. Vira e mexe eu mexo com a dos anos de 1980, do synth pop. Os anos 90 têm voltado também (nesse sentido), com os timbres daquela década. É uma questão realmente de escolha, e como esse disco tem uma referência forte ao hip hop, ao início do break beat, achei que casava melhor essa sonoridade mais setentista. 

Você tinha feito aquele disco com versões mais pops do frevo e agora lança este. Com o tempo que teve a disposição do trabalho de produção musical, desde que saiu da Nação Zumbi, acabou encontrando mais tempo para pesquisar novas referências? 

Na verdade, essas referências vêm de todos os anos que vivi com a Nação Zumbi. A Nação é um grande celeiro de pesquisa, e a gente juntos desenvolveu esse interesse de buscar sonoridades, e sempre trazer algo novo para a sonoridade da banda. Essa saída (há 2 anos) não que tenha me dado mais tempo, foi mais uma necessidade de me lançar em outros projetos, trazendo justamente essa bagagem toda de pesquisa ao longo de quase 25 anos de banda. O trabalho que desenvolvi com o pessoal me deu suporte para que hoje eu consiga trabalhar, dentro do estúdio, diversas referências. 

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