Ciclo de lives reúne escritores para falar de amor e literatura na contemporaneidade

Idealizadas pelo jornalista e escritor cearense Diego Gregório, conversas acontecem a partir desta quarta-feira (12), por meio do instagram

Legenda: Da esquerda para a direita: Lorena Portela, Natalia Timerman, Diego Gregório, Maria Camila Moura e Vanessa Passos, os participantes do ciclo de lives
Foto: Divulgação

Quando fala de amor, Diego Gregório evoca o poeta tcheco Rainer Maria Rilke (1875-1926): “É o amor que nos prepara para todas as batalhas”, certa vez ele escreveu. A sentença atinge o jornalista e escritor cearense em cheio porque, de acordo com as próprias percepções, as pessoas atualmente evitam se apaixonar por terem medo de estar vulneráveis.

“Os nossos olhos estão mais abertos. É no sofrimento que podemos observar melhor qual o caminho que queremos seguir como sociedade. O amor vinha sendo tratado como assunto banal, e a paixão como sinal de fraqueza. Mas acredito que é relacionando-se com o outro  que mais nos conhecemos”, situa. 

Assim, de modo a ampliar o repertório de discussões e olhares sobre o tema, ele idealizou um ciclo de conversas cujo objetivo é amalgamar perspectivas acerca do sentimento, aliando-o ao modo no qual é desenvolvido na literatura. Realizado a partir desta quarta-feira (12), às 19h30, o projeto “Eu não me canso de falar de amor” traz cinco nomes das letras contemporâneas para atravessar as diferentes topografias do assunto em questão.

Legenda: O jornalista e escritor Diego Gregório é o idealizador do projeto
Foto: Divulgação

Junto ao realizador da ação, estarão a psicóloga e doutoranda Maria Camila Moura, autora do livro “Da lama nasce o lótus”; Lorena Portela, de “Primeiro eu tive que morrer”;  Natalia Timerman, médica psicanalista e autora do romance “Copo Vazio”; e Vanessa Passos, professora de escrita e autora da obra de contos “A mulher mais amada do mundo”.

O ciclo segue nas próximas quartas-feiras, nos dias 19 e 26 de maio e 2 de junho, sempre às 19h30, por meio do perfil do instagram dos participantes. Segundo Diego, a escolha das escritoras convidadas se deu por uma questão de admiração pelo trabalho que realizam.

“Elas falam sobre o amor de forma contemporânea, sob vários pontos de vista. Têm vozes muito fortes e em tons diferentes. Merecem ser ouvidas. Fiz o convite e elas toparam com muito entusiasmo”, conta. 

Entre o íntimo e o social

A proposta é que os diálogos versem sobre o que estamos vivendo nas esferas pessoal e social, trazendo a visão dos autores a respeito de como percebem as transformações diárias e de que jeito as utilizam como mecanismo criativo

“Somos bombardeados por notícias negativas, o desamor e a violência se tornarem parte do nosso cotidiano. Precisamos ter apetite para ir contra esse movimento. Desacreditar no ódio e pautar o amor, como estamos fazendo aqui nesta reportagem”, situa Diego Gregório. As publicações do autor buscam capturar as sensações de extremo conforto, medo e vivacidade que o amor causa. Experiências tão díspares que encontram, em sua prosa ou poesia, um modo de estar.

“O amor é o fio condutor da arte em geral, por demasia ou por falta dele. Não falo apenas do amor romântico, mas do amor próprio, pelos parentes ou pela vida. Na falta desse sentimento, o que nos resta? Um buraco negro. Sabemos pouco dele, não conseguimos explicá-lo. É preciso investir no tema, investigá-lo como investigamos o espaço. É assim que eu escrevo, como uma investigação”, dimensiona.

Legenda: Capa do livro de Diego Gregório, "Coisas que você mesmo poderia ter dito"
Foto: Luciano Gomes

Não à toa, esse mesmo componente deve dar o tom do ambiente das transmissões ao vivo, com assuntos que são comuns a todas as pessoas. Conforme Diego – autor de “Coisas que você mesmo poderia ter dito”, livro de poesia publicado neste ano – o amor artístico-romântico existe quando nos apaixonamos pela primeira vez, situação em que o objeto de desejo representa a junção de nossas referências. 

“Todos nós passamos por isso e essa vivência está ali, escrita nos romances. Todo romance é autobiográfico, consciente ou inconscientemente. Vamos descobrir essas e outras questões nas lives de forma leve e acessível, pensando nas experiências de cada um”, detalha.

O planejamento é que haja uma segunda temporada da ação, arregimentando outros temas que ganham força na literatura. Os bate-papos devem acontecer no final de junho, com nomes locais e nacionais.

“Quanto mais falarmos sobre livros, mais eles ganham força e, consecutivamente, mais forte nos tornamos como seres humanos”.

Gesto de liberdade

Uma das autoras participantes do projeto, a paulistana Natalia Timerman explica que o amor é um dos grandes temas da literatura porque os seres humanos são seres que amam, e amam porque são incompletos. “O amor, já disse Hannah Arendt, é uma das mais poderosas forças apolíticas que existem. A literatura, se pode ser pensada como começo a cada novo livro e, então, como gesto de liberdade, poderia ser a conjugação da experiência do amor, sempre íntima, em experiência coletiva, ainda que cada leitura seja também individual”, diz.

Questionada sobre quais referências traz de escritoras e escritores que tão bem souberam falar sobre o tema, a romancista menciona títulos como “Anna Kariênina”, de Liev Tolstói (1828-1910); “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert (1821-1880); “Orgulho e preconceito”, de Jane Austen (1775-1817); e “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa (1908-1967); dentre os contemporâneos, cita “A palavra que resta”, de Stênio Gardel, e “Suíte Tóquio”, de Giovana Madalosso.

Legenda: A médica e escritora Natalia Timerman afirma que o amor só pode ser escrito fora de sua vigência
Foto: Renato Parada

“Posso contar também de minha experiência de leitura da série autobiográfica ‘Minha luta’, do norueguês Karl Ove Knausgård, que tem seis volumes dos quais gosto muito. Eu li cada um deles com muito prazer, mas o segundo deles, ‘Um outro amor’, que aborda o começo do relacionamento do autor com sua então esposa, me fisgou de um jeito diferente”, confessa.

Segundo Natalia, bons romances que falam de amor são tão difíceis de largar quanto livros policiais. Assemelham-se a obras de mistério, conforme ilustra, talvez porque haja algo de incompreensível no amor e a literatura é uma das maneiras mais bonitas de sustentar o que não somos capazes de entender.

“O amor só pode ser escrito fora de sua vigência. É só a falta que pede palavra, então o amor, se está sendo formulado verbalmente, já não está acontecendo, ainda que estivesse um instante atrás”, considera. 

Diálogo com as obras

Nesse sentido, “Desterros - Histórias de um Hospital-prisão” (Elefante Editora) – livro assinado pela autora, publicado no ano passado – além de imergir na situação carcerária em um hospital penitenciário de São Paulo, conta a história de uma mãe e de seu filho que nasceu na prisão, o que não deixa de ser uma história de amor.

Por sua vez, o mais recente lançamento sob sua pena, “Copo Vazio” (Todavia), coloca uma lupa sobre a falta a partir da qual se pode dizer o amor. A obra nasceu de uma experiência autobiográfica e já antiga, que encontrou ressonância na escuta clínica de Timerman, também médica: o sentimento de insuficiência diante do abandono

Legenda: Capa do mais recente livro publicado por Natalia Timerman, "Copo vazio"
Foto: Divulgação

“Ser abandonado repentinamente, o que acontece com a personagem Mirela ao sofrer o que hoje se chama de ghosting, parece fazer latejar feridas que nos constituem como se pela primeira vez. Só é ‘abandonável’ quem não é completo, ou seja: cada um de nós, desde que nascemos”, reflete a escritora.

“Falar de um amor que se perdeu é também um jeito de falar de luto. O Brasil vive um momento tenebroso em que até o luto é, por assim dizer, negado, impossibilitado, banalizado. Além disso, toda ficção, em tempos sombrios, é uma pequena e provisória salvação. A literatura, especialmente, tem esse enorme poder de ser um refúgio não alienante: saímos da realidade por algumas horas e voltamos mais fortalecidos. Isso porque todo livro é um encontro do leitor consigo mesmo”, completa.

Tantas facetas

Outra das participantes do ciclo de lives, Maria Camila Moura sublinha que a nossa existência é limitada, o que interfere diretamente no modo de vivenciar as diferentes facetas do amor. Ainda que tenhamos uma existência rica, com muitas aventuras e experiências, não será possível abraçar tudo de modo pleno.

A literatura, então, contorna o panorama ao nos permitir viver os inúmeros espectros do sentimento: amores possíveis, impossíveis, eróticos. “E aqui estou pensando no amor conjugal, porque a gente pode ainda pode falar de amor de uma maneira mais ampla – na parentalidade, na fraternidade, e por aí vai”, pondera a escritora.

“Existem muitas referências muito ricas que a gente poderia citar, desde grandes clássicos, como ‘Otelo’, de Shakespeare (1564-1616); ‘O amor nos tempos do cólera’, do Gabriel García Márquez (1927-2014); ‘O morro dos ventos uivantes’, da Emily Brontë (1818-1848), até literaturas mais novas, como da Glennon Doyle, autora de um livro chamado ‘Somos guerreiras’. É um pouco autobiográfico, em que ela vai falar dos seus amores ao longo da vida. A temática do amor, assim, toca muita gente, ela é estruturante de todos nós”.

Legenda: Maria Camila Moura diz que a literatura contorna a finitude da existência aos nos permitir viver os inúmeros espectros do amor
Foto: Divulgação

Diante da vastidão de tipos de experiências amorosas, o livro assinado pela escritora, “Da lama nasce o lótus” (Talentos da Literatura Brasileira), se visto pela perspectiva do amor conjugal, chega como um relato da experiência de uma união que se desdobrou em um relacionamento abusivo, bem como as consequências de tudo isso.

Por outro lado, ao focar no amor pela vida, a obra abraça outro componente do mesmo sentimento. Foi essa faceta, inclusive, que permitiu à Maria Camila Moura a libertação do que chama de um amor “um pouco envenenado”. 

“Então, na temática do amor conjugal, apesar de ser um tema que eu lido diariamente no cotidiano, a minha escrita foi um pouco mais dolorosa. Mas, na temática amor por viver, de vitalidade, acho que todo texto que eu faço, em todas as minhas vivências, eu tento, de alguma maneira, trabalhar esse amor pela existência”, destaca.

Encontro de oásis

Ao encarar essas possibilidades de discussão do assunto, a escritora considera que a arte foi um grande respiro para todos ao longo de um período tão tenebroso. E a literatura, em especial, a partir de suas especificidades, tem permitido pensar sobre inúmeras questões, uma vez que nos remete a mundos não-vividos e experiências ainda inéditas.

Legenda: Capa do livro de Maria Camila Moura, "Da lama nasce o lótus"
Foto: Divulgação

“Gosto de uma definição que diz que arte é tudo aquilo que, quando se encerra, continua a conversar comigo. A literatura faz isso. A gente fecha um livro e continua a conversar com o assunto daquela obra e com aqueles personagens. Ao mesmo tempo, o amor talvez tenha sido o porto seguro de tantas pessoas ao longo desse ano tão sombrio. Então, falar de amor, que é esse porto seguro, dentro da literatura, que foi uma das artes que nos auxiliaram durante esse período, é fantástico”, vibra.

“A literatura há muito tempo descreve o que a psicologia arduamente tenta explicar. Ela traz esse poder de representatividade, nos mostra que não estamos a sós. E isso em relação aos diversos tipos de amor. Acredito que a conversa será útil porque, para além de um diálogo sobre arte, ela também trará um certo pragmatismo. Que possamos tomar parte de algo discutido nela para utilizarmos em nossa vida”, conclui.


Serviço
Ciclo de lives “Eu não me canso de falar de amor”, com reflexões sobre amor e literatura
Dias 12, 19 e 26 de maio e 2 de junho, às 19:30h, no perfil do instagram dos escritores participantes. São eles: Diego Gregório (@diegojgregorio), Maria Camila Moura (@mariacamilamoura), Lorena Portela (@portelori), Natalia Timerman (@nataliatimerman) e Vanessa Passos (@pinturadaspalvras).

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