'5 curiosidades sobre mim': o que explica o desejo de compartilhar fatos sobre nós mesmos?

Atual febre nas redes sociais, corrente é analisada por especialista e usuários, situando o que a prática tem a dizer sobre as pessoas e a sociedade

Legenda: Para psicóloga, as redes sociais, principalmente o instagram, têm ganhado cada vez mais espaço, tornando-se a esfera de trocas entre nós
Foto: Shutterstock

A essa altura, você  já sabe curiosidades da vida de pelo menos metade das pessoas que segue no instagram. Nos últimos dias, a rede social promoveu uma corrente na qual usuários compartilham cinco fatos sobre a própria trajetória. A brincadeira começou com o perfil @mainelucenaela, responsável por fazer um post usando a figurinha “Use a sua” – que permite interagir com uma publicação ao tocar em “responder”.

Para além da intensa movimentação nos stories, uma questão se sobrepõe: é possível explicar esse nosso desejo de dividir informações sobre nós mesmos? No caso de Alicea Gonçalves, 21, a vontade de participar da corrente surgiu por influência do meio, ao ver todos os conhecidos postando. “Uma hora ou outra, você sente a vontade de postar aquilo também para estar por dentro de tudo o que tá acontecendo”, situa a estudante de Enfermagem.

Ela confessa ter sido um pouco difícil o processo de elencar as cinco curiosidades, uma vez que precisou vasculhar na memória fatos que realmente fossem interessantes para quem lesse. Logo, a preocupação foi estar por dentro da novidade, mas evitando ofertar algo que, segundo ela, soasse entediante. Abaixo, você confere os pontos enumerados por Alicea:

“Quem me dera fosse o que me veio à cabeça! Passei vários minutos pensando nas curiosidades que já aconteceram durante toda a minha vida pra selecionar só as melhores, aquelas que realmente chamassem a atenção e que me tornassem uma pessoa mais ‘interessante’, ao mesmo tempo que engraçada também”, dimensiona.

Inclusive, depois do desafio da primeira vez, foi mais fácil selecionar outras curiosidades relacionadas a essa mesma trend, a exemplo de “10 coisas aleatórias que você gosta”. Para a estudante, a grande adesão do público à brincadeira deve-se à penetração das redes sociais na vida dos usuários.

“É a necessidade de estar sempre atualizado de tudo que está acontecendo, não ficar de fora de nada. Eu tô adorando ver as curiosidades! Leio todas: do pet, do namoro, da amizade… Tudo! Me sinto super próxima, principalmente daqueles que têm curiosidades parecidas ou iguais às minhas”.
Alicea Gonçalves
Estudante de Enfermagem

No geral, ela encara a corrente como uma “modinha” mesmo, o que não quer dizer que não possa proporcionar algum tipo de mudança em quem faz. A própria Alicea lembrou de instantes ocorridos há um bom tempo, e credita o fato de ter parado para pensar sobre eles apenas por influência da brincadeira.

“Assim como eu, acredito que tantas outras pessoas também fizeram isso, principalmente no momento de colocar as curiosidades – em que você escolhe aquilo que quer que os outros conheçam sobre você e o que quer que fique guardado na intimidade. Essa seleção ajuda você a se autoconhecer e pensar em como quer que as pessoas te conheçam e até que ponto elas podem saber sobre você”.

Novo “disparate”?

Psicóloga especialista em neuropsicologia, Ana Cecilia Prado Sousa, 39, destaca que a nova atividade a faz recordar imediatamente da brincadeira do “disparate”, presente na própria infância da pesquisadora. Ela tece alguns pontos que podem nos auxiliar a compreender a atual prática vivenciada nas redes.

“Somos seres sociais. Nutrimos a vontade de pertencer e dividir. Fazemos isso habitualmente com as pessoas mais próximas o tempo inteiro. As redes sociais, principalmente o instagram, têm ganhado cada vez mais espaço, tornando-se a esfera de trocas entre nós”.

Conforme percebe, a soma de alguns fatores fez com que a corrente viralizasse de maneira tão rápida e com tanta intensidade.  Primeiramente, é algo que lembra brincadeira de infância, logo um terreno já conhecido. Também possui “baixo risco” de exposição, uma vez que a própria pessoa seleciona o que revelará sobre ela mesma. Esse controle sobre a situação nos deixa mais à vontade.

Há também o fato de que, participando do movimento, nos sentimos parte de algo. Com tanta desconexão física, estamos cada vez mais ávidos por uma dinâmica que nos una. “A brincadeira também ajuda no engajamento do instagram – sim, algumas pessoas fazem devido a isso também – e os usuários podem falar um pouco de si mesmos, sendo melhores conhecidos por algo ou, quem sabe, interagindo melhor a partir disso”.

Para Ana Cecilia, qualquer exercício que nos faça parar e olhar para nós mesmos ajuda no autoconhecimento – inclusive a mencionada corrente. Contudo, de acordo com ela, a experiência nas redes sociais acaba sendo muito única nisso

“Posso preencher e me dar conta de algumas coisas ou lembrar fatos que tenham um impacto positivo ou negativo para mim, e precisar elaborar ou saborear o momento por mais tempo. Ou  entrar na modinha e ser algo divertido, com começo, meio e fim”.

Como é uma atividade individualizada, só saberemos os impactos quando as pessoas falarem sobre isso, se houve ou não para elas algo de significativo na brincadeira.

Dificuldade de listar os fatos

Do lado oposto aos que compartilham as curiosidades, há usuários declaradamente falhos em listar cinco fatos sobre si mesmos. O que isso revela? Apenas a partir dessa questão, é possível dizer que o processo de autoconhecimento dessas pessoas é fraco?

Ana Cecilia Prado Sousa aprofunda a temática. Na visão dela, podem existir outros fatores que não falam diretamente sobre o autoconhecimento, mas sobre o medo de julgamento, de parecer bobo ou de achar que precisa colocar algo muito relevante e não achar nada que preencha os requisitos do que se idealiza. 

“De uma forma geral, quanto mais adentro no processo de autoconhecimento, mais informações terei sobre mim. Mas se eu não consigo elencar essas informações, pode ser que o processo de conexão comigo mesma não esteja muito bom – ou porque não investi muito em mim ou porque não estou passando por um bom momento e não consigo visualizar o que colocar nas perguntas”, detalha.

Legenda: De acordo com especialista, qualquer exercício que nos faça parar e olhar para nós mesmos ajuda no autoconhecimento
Foto: Shutterstock

Ou seja: pode ser apenas que a pessoa não esteja com “cabeça” para isso no momento. Não à toa, a psicóloga enfatiza: quando falamos de gente, precisamos ter cuidado para não colocar tudo dentro de uma sacola e dizer: “É isso!”. 

A mesma questão se aplica ao fato de pesarmos os limites entre o público e o privado, evitando possíveis problemas de ordem interpessoal no decorrer da brincadeira. “Conhecemos bem as consequências do que não é digerido pelas pessoas, seja por uma má exposição ou por julgamento (cancelamentos, discurso de ódio, humilhações). No instagram, muitos perderam a dimensão entre público e privado, acreditando que podem dar opinião sem considerar o espaço do outro”.

Logo, toda exposição, por menor que seja, nos coloca em um lugar de sermos olhados e avaliados pelo outro. Em tempos onde o senso crítico e a empatia são difíceis de encontrar, é sempre bom ter cuidado com o que se publica na internet, principalmente quando não há controle sobre onde vão parar essas informações. 

“Em um momento de distanciamentos, essa corrente aproxima, gera possibilidades de conversas, passa a sensação de intimidade e tudo isso alimenta nossa necessidade de estar junto ou perto. Ver as pessoas postando sobre si mesmas, entrando na brincadeira, faz com que você pondere entrar também. Enquanto houver respeito, essas trocas são positivas e ajudam a distrair um pouco de todo o peso que estamos vivendo”.
Ana Cecilia Prado Sousa
Psicóloga especialista em neuropsicologia

Relembrar quem nós somos

Vitória Chaves, 24, sabe muito bem disso. A estudante de Fisioterapia achou interessante ler as curiosidades dos amigos, e isso a incentivou a entrar na corrente também.

“Foi fácil enumerar os pontos porque procurei coisas que nem todo mundo sabe, como: nunca tomei café, gosto de assistir desenho, não bebo refrigerante, já extraí oito dentes e relatei uma queda de infância”, conta.

Diferentemente de Alicea Gonçalves, Vitória não pensou muito sobre o que compartilharia. Ela apenas procurou fatos que julga interessantes para apresentar aos seguidores. Por sinal, considera que toda ferramenta nova do instagram gera esse mesmo efeito – além de aumentar as visualizações e o engajamento, quando utilizamos as atualizações do aplicativo.

Legenda: Curiosidades compartilhadas por Vitória Chaves sobre a própria vida
Foto: Arquivo pessoal

Muita gente acha legal ler curiosidades da vida das pessoas. Eu gostei muito de ver coisas que eu não sabia sobre alguns amigos, ou relembrar outras”, confessa. 

No fim das contas, diante do turbilhão do mundo, a sensação é de que a brincadeira fez pensar um pouco mais sobre quem nós somos. “Inclusive, vi alguns relatos de pessoas que não conseguiram fazer porque não sabem falar sobre si. Então, é mesmo um processo”.

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