Epidemia de hantavírus é possível? Entenda riscos da doença virar nova pandemia global
Três tripulantes morreram em decorrência de hantavírus em cruzeiro com destino à Espanha.
Um cruzeiro com destino à Espanha tem enfrentado uma "situação médica grave" após três tripulantes morrerem em decorrência de hantavírus. Apesar dos casos, infectologistas descartaram a possibilidade de epidemias ou pandemias associadas a esse vírus.
Em entrevista à AFP, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, descartou contaminação semelhante à Covid-19. "O risco para o resto do mundo é baixo", disse.
No momento, outras três pessoas estão doentes no cruzeiro MV Hondius, conforme confirmou a empresa responsável na última segunda-feira (4).
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Riscos de o cenário evoluir para epidemia
O médico infectologista Luan Victor, do Hospital São José de Doenças Infecciosas (HSJ), da rede de saúde do Ceará, também citou que as chances de essas ocorrências crescerem para epidemias ou pandemias são baixas.
Segundo o especialista, a doença costuma estar relacionada apenas a pequenos surtos, uma vez que a transmissão ocorre com um vetor, não sendo passada de pessoa para pessoa.
"É muito improvável que o hantavírus se torne uma pandemia por vários motivos. Dentre eles, podemos destacar que é uma transmissão que ocorre por roedores. Como a gente tem um vetor, fica mais difícil essa transmissão".
Nos casos da Covid-19 e da gripe H1N1, a transmissão ocorre de pessoa para pessoa. "Toda doença que a transmissão é de gotículas de pessoa para pessoa, é muito mais rápida a contaminação", disse.
Transmissão do hantavírus
A disseminação do hantavírus é extremamente rara. Isso porque esse vírus, pertencente à família Hantaviridae e ao gênero Orthohantavirus, é transmitido principalmente por roedores silvestres.
A transmissão também pode ocorrer pela inalação de partículas contaminadas presentes na poeira de locais com presença de urina, fezes ou saliva de roedores infectados.
Dentre as atividades de risco, segundo informações do Ministério da Saúde, estão:
- Exposição ou limpeza de casas fechadas e galpões, principalmente em áreas rurais;
- Desmatamento, aragem de terra, plantio agrícola;
- Contato com roedores silvestres vivos ou mortos;
- Moagem e/ou armazenamento de grãos.
Onde está o cruzeiro com hantavírus?
O navio de cruzeiro afetado, operado pela empresa holandesa Oceanwide Expeditions, saiu de Ushuaia, cidade no extremo sul da Argentina, em 1º de abril. No caminho, a embarcação passou por regiões remotas do Atlântico Sul, como Antártica, Geórgia do Sul, Tristan da Cunha, Santa Helena e Ilha de Ascensão.
Devido às ocorrências, o cruzeiro foi isolado na costa de Cabo Verde para os casos serem investigados pela operadora de turismo Oceanwide Expeditions.
As três pessoas que testaram positivo se encontram "estáveis" e uma "está assintomática", afirmou a representante desta agência da ONU em Cabo Verde, Ann Lindstrand.
Tem hantavírus no Brasil?
Sim. Existem registros de hantavírus no Brasil, mas os casos e os óbitos se concentram principalmente nas regiões Sul, Centro-Oeste e Sudeste.
Conforme os dados do Ministério da Saúde, o país registrou, de 2007 a 2024, 1,3 mil casos e 540 óbitos. Destes, foram registrados nas seguintes regiões:
| Casos | Confirmados | Óbitos |
| Norte | 99 | 41 |
| Nordeste | 4 | 2 |
| Centro-Oeste | 407 | 170 |
| Sudeste | 349 | 162 |
| Sul | 527 | 165 |
| Total | 1.386 | 540 |
O Ministério da Saúde ainda destacou que os sinais e sintomas da fase inicial costumam ser:
- Dor lombar;
- Dor de cabeça;
- Febre;
- Sintomas gastrointestinais.
No entanto, em casos mais graves, os pacientes podem registrar tosse seca, falta de ar, assim como pressão baixa e edema pulmonar.
"Devido à similaridade dos sintomas iniciais das hantaviroses com os da Covid-19 e de outras infecções, como a dengue, gripe e a leptospirose, é importante informar se esteve em área rural ou silvestre para o médico, para evitar diagnósticos incorretos e imprecisos", detalha o MS em cartilha à população.
Ao Diário do Nordeste, o infectologista Luan Victor ainda acrescentou que nem todo caso resulta em óbito. As mortes estão relacionadas principalmente com fatores do indivíduo. Se ele tiver comorbidades, por exemplo, ou se iniciar o quadro já com sintomas mais graves.