Acordar várias vezes à noite pode ser um sinal; entenda o que é a hiperplasia da próstata

Os sintomas da HPB podem afetar sono e o bem-estar ao longo do envelhecimento.

Escrito por
Beatriz Rabelo beatriz.rabelo@svm.com.br
Imagem de um médico com uma imagem de uma bexiga, para ilustrar matéria sobre hiperplasia da próstata.
Legenda: A hiperplasia da próstata pode afetar a independência do paciente.
Foto: Shutterstock/Antonio Marca.

Acordar várias vezes durante a noite para urinar pode parecer algo simples ou apenas um sinal de envelhecimento, mas merece atenção. Esse sintoma ocorre quando a bexiga não consegue armazenar a urina adequadamente ou quando algo dificulta seu esvaziamento completo. Em homens, especialmente a partir dos 45 anos, esses indícios podem estar relacionado com a Hiperplasia Prostática Benigna (HPB).

O médico urologista Marcelo Wroclawski explicou, em entrevista ao Diário do Nordeste, que HPB não é um câncer, mas é uma condição que faz com que a pessoa sinta vontade de urinar com frequência. Por isso, pode afetar diretamente a rotina do paciente, já que alguns homens desenvolvem estratégias para minimizar situações desconfortáveis.

"Embora seja uma condição benigna, a HPB pode ter impacto relevante na autonomia, na segurança e na qualidade de vida dos pacientes", disse. Para tratar essa condição de saúde, os médicos precisam considerar os sintomas, o perfil clínico do paciente e suas expectativas. O especialista ainda explicou os principais sintomas da doença.

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O que é a hiperplasia prostática benigna (HPB)?

hiperplasia prostática benigna (HPB) ocorre quando o paciente registra um aumento benigno do volume da próstata. Conforme o especialista, isso acontece naturalmente com o  envelhecimento masculino, principalmente a partir dos 40 anos de idade.

"Esse crescimento pode comprimir o canal da urina, a uretra, gerando sintomas urinários pela maior resistência à passagem de urina provocada pela próstata, e consequente dificuldade de esvaziamento da bexiga", detalhou Wroclawski.

A HPB é uma condição comum, que afeta metade dos homens acima dos 50 anos e quase 90% dos homens com mais de 80 anos. 

Imagem de um homem em um consultório médico, para ilustrar matéria sobre entenda o que é a hiperplasia da próstata.
Legenda: O especialista detalhou que a HBP não causa, nem evolui para câncer.
Foto: Shutterstock/

Qual a diferença entre HPB e câncer de próstata?

A HPB é uma condição benigna, enquanto o câncer de próstata é considerado maligno e precisa de um tratamento com urgência. 

Marcelo detalhou que a HPB está relacionada principalmente com a qualidade de vida, uma vez que os sintomas podem interferir em áreas como:

  • Sono;
  • Funcionalidade;
  • Independência; 
  • Bem-estar ao longo do envelhecimento. 

Além disso, apesar de ambos ocorrerem na próstata, costumam se desenvolver em regiões diferentes da glândula.

"A HPB surge na região central (chamada zona de transição), afetando diretamente a passagem da urina. Por outro lado, o câncer, na maioria das vezes, se origina em áreas periféricas". 
Marcelo Wroclawski
Médico urologista

A HBP não causa, nem evolui para câncer. No entanto, Marcelo explicou que as duas condições podem ser existir ao mesmo tempo no paciente. 

"Outra diferença importante é que a HPB frequentemente causa sintomas urinários. Já o câncer de próstata, na maioria dos casos, é assintomático, silencioso, principalmente em suas fases iniciais", acrescentou o especialista. 

Quais os principais sintomas da HPB?

O médico explicou que que os sintomas no padrão urinário podem ser divididos em dois grupos: sintomas de esvaziamento e de armazenamento.

Sintomas de esvaziamento

Esses sintomas estão relacionados à dificuldade de urinar. O paciente pode registrar esforço e demora para iniciar a micção, com jato urinário fraco, fino ou intermitente. 

Além disso, também pode ter a sensação de não esvaziar completamente a bexiga.

Sintomas de armazenamento

No caso dos sintomas de armazenamento, estão relacionados à fase em que a bexiga acumula urina

Há um aumento da frequência urinária durante o dia, assim como a necessidade de acordar durante a noite e a urgência miccional — que é a "necessidade de interromper o que se está fazendo e 'sair correndo' para o banheiro", conforme Marcelo. 

Outros sintomas

Em alguns casos, o paciente com HPB também podem apresentar:

  • Sangue na urina
  • Infecções urinárias frequentes
  • Cálculos na bexiga
  • Comprometimento da função renal 

"Os sintomas podem variar de intensidade e, muitas vezes, pioram progressivamente ao longo do tempo", acrescentou Marcelo. 

Imagem de homem com a mão na barriga, na área da bexiga, para matéria sobre entenda o que é a hiperplasia da próstata.
Legenda: A HPB é uma condição comum, que afeta metade dos homens acima dos 50 anos.
Foto: Shutterstock/AYO Production.

Quando procurar um médico?

A partir dos 50 anos de idade, todo homem deve consultar o urologista de forma anual. Essa medida ajuda a rastrear a HBP e o câncer de próstata, independente de sintomas. 

"Vale sempre lembrar que o câncer de próstata é inicialmente silencioso (assintomático) e que em relação à piora do padrão urinário, muito homens acabam adaptando seus hábitos, como reduzir ingestão de líquidos, e mudam sua rotina, evitando sair de casa, ao invés de pesquisar a causa do problema", disse Marcelo. 

Caso o acompanhamento de rotina não seja realizado de forma rotineira, o homem deve buscar um médico se notar qualquer alteração no padrão urinário, principalmente se os sintomas incomodarem, impactarem a rotina ou interferirem no sono. 

Mesmo com o envelhecimento, esses sintomas não devem ser considerados normais. Conforme Marcelo, quanto mais precoce for realizada a avaliação, maiores são as chances de um tratamento mais eficaz. 

Como é feito o diagnóstico de HPB?

O diagnóstico considera a história clínica dos sintomas relatados pelo paciente. Além disso, também é necessário realizar o exame físico, incluindo o toque retal. 

Segundo Marcelo, é apenas a partir dessa avaliação inicial que podem ser solicitados exames complementares para confirmar o diagnóstico e excluir outras condições. Dentre os exames que podem ser feitos, estão: 

  • Exame de urina (para identificar sangramentos microscópicos e infecções);
  • Ultrassonografia;
  • Avaliação do fluxo urinário; 
  • Exames de sangue, como o PSA (para avaliação do risco de câncer de próstata) e a creatinina (para avaliação da função renal).

Imagem de exame de urina para ilustrar matéria sobre hiperplasia da próstata.
Legenda: O exame de urina é um dos que podem ser pedidos para confirmar o diagnóstico.
Foto: Shutterstock/Reza Nuriman.

O que fazer após ter o diagnóstico confirmado?

Uma vez confirmado o diagnóstico, é importante individualizar o tratamento, já que nem todos devem ser conduzidos da mesma maneira. 

"Em casos leves, pode-se optar apenas pelo acompanhamento com consultas e exames periódicas. Já em situações com maior impacto na qualidade de vida, existem opções que incluem medicamentos, procedimentos minimamente invasivos e, em alguns casos, cirurgia", explicou Marcelo.

Quais são os avanços no tratamento e melhora para os pacientes?

No caso das medicações utilizadas, o especialista explicou que a silodosina — medicamento lançado recentemente no Brasil — atua relaxando a  musculatura da próstata e do colo vesical. Isso facilita o fluxo urinário e a micção. 

"Sua ação é mais direcionada à próstata, o que resulta em alta eficácia, inclusive diminuindo o número de vezes que um individuo precisa levantar para urinar durante a noite", disse Marcelo. Ele também é conhecido por ter menos impacto na pressão arterial, tornando seu uso ideal para homens mais idosos, que usam diversos medicamentos.

Já alguns tratamentos um pouco mais invasivos, realizados pelo canal da urina, estão: 

  • Vapor d’água;
  • Implantes prostáticos (clips);
  • Stents temporários. 

Os três procedimentos costumam ser rápidos, sem necessidade de internação. Apresentam vantagens para alguns pacientes, como a preservação da ejaculação.

Entre as cirurgias que apresentam alta eficácia, Marcelo destacou:

  • Cirurgia robótica;
  • Enucleação endoscópica da próstata, principalmente com laser, chamada de HoLEP.

Quais os possíveis impactos no dia a dia?

A HPB pode ter impactos diretos na vida dos pacientes, como: 

  • Acordar à noite para urinar; 
  • Sono prejudicado; 
  • Aumento risco de quedas (principalmente em idosos);
  • Pode gerar cansaço; 
  • Reduzir a disposição durante o dia. 

Devido a esses pontos, muitos pacientes passam a adaptar a rotina. Marcelo cita que alguns evitam viagens longas ou locais com difícil acesso a banheiros. "A necessidade frequente de urinar, a urgência miccional e eventuais perdas de urina podem interferir nas atividades sociais, profissionais e no bem-estar emocional", destacou. 

Por isso, os pacientes com hiperplasia prostática devem buscar informação e acolhimento. Para eles, é fundamental reforçar que receber um diagnóstico positivo não é motivo de vergonha, mas um passo importante para cuidar da própria saúde. Esse tratamento deve ser realizado com responsabilidade e sem estigmas. 

 

*Marcelo Wroclawski é médico urologista do Hospital Israelita Albert Einstein. Urologista do núcleo de uro-oncologia da BP (Beneficência Portuguesa) de São Paulo; diretor-Presidente da Sociedade Brasileira de Urologia (Seção São Paulo), biênio 22/23; chefe da Comissão de Ensino e Treinamento da Sociedade Brasileira de Urologia, biênio 24/25; e diretor da Oficina de Inteligência Artifical em Urologia da Confederação Americana de Urologia (CAU), triênio 25/28.

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