Comunicação alternativa atrapalha a fala? Entenda benefícios desse método para crianças autistas
Recurso conta com imagens, escritas, gestos e pranchas de comunicação.
Os pais e familiares que buscam adaptar a rotina para ajudar no desenvolvimento de crianças autistas, por vezes, podem ter dúvidas sobre a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Para muitos, esse recurso pode prejudicar o desenvolvimento da fala.
No entanto, a fonoaudióloga Paula Anderle*, especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA), explica que o método, na verdade, ajuda a ampliar as possibilidades de comunicação.
Além de ser usado para estimular a comunicação de crianças no espectro autista, também pode beneficiar diferentes públicos, como:
- Crianças com apraxia de fala;
- Pessoas com paralisia cerebral;
- Pessoas com síndromes genéticas;
- Pessoas com sequelas de AVC.
Em entrevista ao Diário do Nordeste, a especialista tirou as principais dúvidas sobre o assunto, explicando o objetivo, como funciona na prática e até mesmo como fazer uma pasta de comunicação alternativa.
"A CAA não é apenas um recurso visual. Ela é uma ferramenta de desenvolvimento da linguagem e de participação social. Por isso, quanto mais planejado, funcional e significativo for o sistema de comunicação, maiores serão as oportunidades de interação, autonomia e inclusão dessa pessoa", ressalta Paula.
Veja também
O que é Comunicação Alternativa para autistas?
A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) é um recurso que busca ampliar as possibilidades de comunicação e interação de pessoas que possuem dificuldades na fala ou na linguagem. Esse método envolve diferentes formas de comunicação, como:
- Fala oral;
- Imagens;
- Figuras;
- Escritas;
- Gestos;
- Pranchas de comunicação;
- Dispositivos eletrônicos.
Com isso, tem o objetivo de oferecer meios para a criança autista se expressar, fazer escolhas e desenvolver autonomia. Na prática, são consideradas as necessidades de cada indivíduo.
"O mais importante é entender que a CAA não é apenas uma ferramenta, mas uma forma de garantir acesso à comunicação, à inclusão e à qualidade de vida."
Comunicação aumentativa
A comunicação aumentativa busca ampliar as possibilidades de trocas do indivíduo. Ela costuma ser utilizada quando a pessoa já tem alguma fala funcional, mas precisa organizar melhor a própria linguagem e expandir o vocabulário.
Nesse caso, Paula cita a inclusão de recursos como imagens, gestos e pranchas.
Comunicação alternativa
Já a comunicação alternativa é indicada para pessoas que não utilizam a fala oral de forma funcional.
Assim, os recursos vão substituir a fala, permitindo que o indivíduo "consiga se expressar, fazer escolhas, interagir socialmente e participar das atividades do dia a dia com mais autonomia", destaca a especialista.
Quais são os tipos de CAA?
Existem diferentes formas de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), mas as classificações mais utilizadas costumam dividi-las em CAA apoiada e CAA não apoiada.
CAA Não Apoiada
A CAA não apoiada utiliza apenas o corpo como meio de comunicação. As formas de comunicação dependem das habilidades motoras e comunicativas da pessoa, sendo:
- Gestos;
- Expressões faciais;
- Olhares;
- Vocalizações;
- Comportamento;
- Língua de sinais.
CAA Apoiada
Já a CAA apoiada utiliza recursos externos para auxiliar na comunicação, como:
- Figuras;
- Fotografias;
- Cartões;
- Pranchas de comunicação;
- Tablets;
- Aplicativos específicos de comunicação.
Veja também
Quais são as alternativas de comunicação para alunos autistas?
As alternativas de comunicação são aplicadas não apenas a alunos autistas, mas também a crianças que utilizam a fala ou não. Os recursos ajudam a apoiar a comunicação funcional e facilitar as interações no ambiente escolar.
Assim, a especialista lista a importância de utilizar imagens, gestos e pranchas de comunicação. Isso porque esses suportes ajudam o aluno a:
- Compreender melhor o ambiente;
- Expressar necessidades;
- Fazer escolhas;
- Participar das atividades;
- Interagir socialmente com mais autonomia.
Na escola, esses recursos devem ser inseridos de forma natural e acessível. Para isso, Paula recomenda utilizar pranchas temáticas em diferentes espaços, como banheiro, sala de aula, refeitório e até ginásio. Dessa forma, a compreensão e a participação das crianças podem ocorrer em vários contextos.
"Quando a CAA deixa de ser um recurso restrito a um único aluno e passa a fazer parte da cultura escolar, criamos um ambiente mais inclusivo, acolhedor e democrático, onde todos os alunos conseguem participar e se comunicar de maneira mais efetiva".
Para que serve a comunicação alternativa?
A CAA oferece ferramentas que facilitam a expressão e a interação de pessoas com dificuldades de comunicação.
Ela permite que a pessoa consiga se expressar, interagir socialmente, participar das atividades do cotidiano e desenvolver mais autonomia e inclusão.
Qual é o objetivo principal da comunicação alternativa
O principal objetivo da CAA é permitir que a pessoa, estando no espectro autista ou não, consiga se comunicar de forma funcional. O foco é em autonomia, inclusão e compreensão.
Como funciona na prática
Na prática, a CAA ajuda a pessoa a expressar necessidades, desejos, sentimentos e escolhas. Então, por meio dos recursos apontados acima, o indivíduo consegue apontar, entregar ou selecionar símbolos para se comunicar.
Porém, para a autonomia funcionar, é preciso que a pessoa esteja inserida em ambientes nos quais a CAA seja utilizada. "Portanto, o treinamento de parceiros comunicativos que utilizem a CAA e forneçam o modelo de como utilizar é tão importante quanto a própria CAA. Esses processos auxiliam na interação e tornam a comunicação mais funcional e acessível", destaca Paula.
Como fazer pasta de comunicação alternativa
A elaboração de uma pasta de CAA precisa partir de uma avaliação fonoaudiológica individualizada. Essa etapa é essencial porque antes de selecionar figuras ou montar pranchas, é importante compreender:
- Como a pessoa se comunica;
- Quais habilidades de linguagem já possui;
- Quais funções comunicativas utiliza no cotidiano;
- Quais são suas necessidades comunicativas nos diferentes ambientes.
Assim, durante a avaliação fonoaudiológica, serão identificados detalhes como atenção, habilidades motoras, intenção comunicativa e compreensão da lingagem.
As possibilidades de uso da CAA apoiada ou não apoiada são consideradas posteriormente, pensando no sistema mais funcional para a pessoa. Isso porque, na prática, uma pasta de CAA precisa ir além de figuras para "pedir objetos".
"O ideal é construir um sistema robusto de comunicação, que ofereça vocabulário suficiente para a pessoa comentar, perguntar, protestar, interagir socialmente, expressar sentimentos, participar da rotina e desenvolver a linguagem", explica.
No processo de elaboração, são inseridos vocabulários essenciais e que são muito utilizados, como palavras sociais, atividades e interesses da criança, emoções, ações e verbos.
Prancha de comunicação
A prancha de comunicação precisa considerar o fácil acesso visual, a progressão do vocabulário e o uso funcional em diferentes ambientes, como a casa, a escola e os ambientes terapêuticos.
A especialista ainda destaca a importância de respeitar o tempo de resposta da criança, compreendendo que o uso da CAA ocorre de forma gradual. Para além de ensinar símbolos, esse método busca oferecer os meios para a pessoa conseguir se comunicar com autonomia.
A importância da comunicação alternativa na educação especial
Segundo Paula, a CAA tem um papel fundamental na educação especial por promover acesso à comunicação, participação e inclusão escolar. "Muitas crianças com dificuldades na fala ou na linguagem conseguem compreender conteúdos e interagir melhor quando possuem recursos visuais e sistemas de comunicação acessíveis", cita.
Com esses recursos, passam a conseguir expressar opiniões, sentimentos, necessidades e escolhas. Possibilita ainda outros recursos de aprendizagem e interação na escola. A CAA ainda contribui para reduzir frustrações e comportamentos relacionados à dificuldade de comunicação.
*Paula Anderle é fonoaudióloga analista do comportamento, especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA). Atua com avaliação e intervenção precoce, com foco na comunicação funcional, incluindo fala, linguagem e recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Seu trabalho é voltado à promoção da autonomia e da interação social de crianças autistas, com abordagem individualizada e baseada em evidências.