Comunicação alternativa atrapalha a fala? Entenda benefícios desse método para crianças autistas

Recurso conta com imagens, escritas, gestos e pranchas de comunicação.

Escrito por Beatriz Rabelo beatriz.rabelo@svm.com.br
05 de Junho de 2026 - 19:00 (Atualizado às 21:31)
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Legenda: A comunicação alternativa ajuda a ampliar as possibilidades de comunicação e interação.
Foto: Shutterstock/New Africa.

Os pais e familiares que buscam adaptar a rotina para ajudar no desenvolvimento de crianças autistas, por vezes, podem ter dúvidas sobre a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Para muitos, esse recurso pode prejudicar o desenvolvimento da fala.

No entanto, a fonoaudióloga Paula Anderle*, especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA), explica que o método, na verdade, ajuda a ampliar as possibilidades de comunicação

Além de ser usado para estimular a comunicação de crianças no espectro autista, também pode beneficiar diferentes públicos, como: 

  • Crianças com apraxia de fala;
  • Pessoas com paralisia cerebral;
  • Pessoas com síndromes genéticas;
  • Pessoas com sequelas de AVC.

Em entrevista ao Diário do Nordeste, a especialista tirou as principais dúvidas sobre o assunto, explicando o objetivo, como funciona na prática e até mesmo como fazer uma pasta de comunicação alternativa.

"A CAA não é apenas um recurso visual. Ela é uma ferramenta de desenvolvimento da linguagem e de participação social. Por isso, quanto mais planejado, funcional e significativo for o sistema de comunicação, maiores serão as oportunidades de interação, autonomia e inclusão dessa pessoa", ressalta Paula.

O que é Comunicação Alternativa para autistas? 

A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) é um recurso que busca ampliar as possibilidades de comunicação e interação de pessoas que possuem dificuldades na fala ou na linguagem. Esse método envolve diferentes formas de comunicação, como: 

  • Fala oral; 
  • Imagens; 
  • Figuras; 
  • Escritas; 
  • Gestos; 
  • Pranchas de comunicação; 
  • Dispositivos eletrônicos. 

Com isso, tem o objetivo de oferecer meios para a criança autista se expressar, fazer escolhas e desenvolver autonomia. Na prática, são consideradas as necessidades de cada indivíduo. 

"O mais importante é entender que a CAA não é apenas uma ferramenta, mas uma forma de garantir acesso à comunicação, à inclusão e à qualidade de vida."
Paula Anderle
Fonoaudióloga

Comunicação aumentativa 

A comunicação aumentativa busca ampliar as possibilidades de trocas do indivíduo. Ela costuma ser utilizada quando a pessoa já tem alguma fala funcional, mas precisa organizar melhor a própria linguagem e expandir o vocabulário.

Nesse caso, Paula cita a inclusão de recursos como imagens, gestos e pranchas. 

Comunicação alternativa 

Já a comunicação alternativa é indicada para pessoas que não utilizam a fala oral de forma funcional.

Assim, os recursos vão substituir a fala, permitindo que o indivíduo "consiga se expressar, fazer escolhas, interagir socialmente e participar das atividades do dia a dia com mais autonomia", destaca a especialista.

Essa comunicação alternativa faz uso de outros recursos, como imagens, figuras, gestos, pranchas de comunicação, entre outros.
Legenda: Essa comunicação alternativa faz uso de outros recursos, como imagens, figuras, gestos, pranchas de comunicação, entre outros.
Foto: Shutterstock/New Africa.

Quais são os tipos de CAA? 

Existem diferentes formas de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), mas as classificações mais utilizadas costumam dividi-las em CAA apoiada e CAA não apoiada.

CAA Não Apoiada 

A CAA não apoiada utiliza apenas o corpo como meio de comunicação. As formas de comunicação dependem das habilidades motoras e comunicativas da pessoa, sendo: 

  • Gestos;
  • Expressões faciais; 
  • Olhares;
  • Vocalizações;
  • Comportamento;
  • Língua de sinais.

CAA Apoiada 

Já a CAA apoiada utiliza recursos externos para auxiliar na comunicação, como: 

  • Figuras; 
  • Fotografias; 
  • Cartões; 
  • Pranchas de comunicação; 
  • Tablets; 
  • Aplicativos específicos de comunicação.

Quais são as alternativas de comunicação para alunos autistas?

As alternativas de comunicação são aplicadas não apenas a alunos autistas, mas também a crianças que utilizam a fala ou não. Os recursos ajudam a apoiar a comunicação funcional e facilitar as interações no ambiente escolar. 

Assim, a especialista lista a importância de utilizar imagens, gestos e pranchas de comunicação. Isso porque esses suportes ajudam o aluno a: 

  • Compreender melhor o ambiente;
  • Expressar necessidades;
  • Fazer escolhas;
  • Participar das atividades;
  • Interagir socialmente com mais autonomia.

Na escola, esses recursos devem ser inseridos de forma natural e acessível. Para isso, Paula recomenda utilizar pranchas temáticas em diferentes espaços, como banheiro, sala de aula, refeitório e até ginásio. Dessa forma, a compreensão e a participação das crianças podem ocorrer em vários contextos

"Quando a CAA deixa de ser um recurso restrito a um único aluno e passa a fazer parte da cultura escolar, criamos um ambiente mais inclusivo, acolhedor e democrático, onde todos os alunos conseguem participar e se comunicar de maneira mais efetiva".
Paula Anderle
Especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA)

Para que serve a comunicação alternativa? 

A CAA oferece ferramentas que facilitam a expressão e a interação de pessoas com dificuldades de comunicação.

Ela permite que a pessoa consiga se expressar, interagir socialmente, participar das atividades do cotidiano e desenvolver mais autonomia e inclusão.

Qual é o objetivo principal da comunicação alternativa 

O principal objetivo da CAA é permitir que a pessoa, estando no espectro autista ou não, consiga se comunicar de forma funcional. O foco é em autonomia, inclusão e compreensão.

Como funciona na prática 

Na prática, a CAA ajuda a pessoa a expressar necessidades, desejos, sentimentos e escolhas. Então, por meio dos recursos apontados acima, o indivíduo consegue apontar, entregar ou selecionar símbolos para se comunicar

Porém, para a autonomia funcionar, é preciso que a pessoa esteja inserida em ambientes nos quais a CAA seja utilizada. "Portanto, o treinamento de parceiros comunicativos que utilizem a CAA e forneçam o modelo de como utilizar é tão importante quanto a própria CAA. Esses processos auxiliam na interação e tornam a comunicação mais funcional e acessível", destaca Paula.

Como fazer pasta de comunicação alternativa 

A elaboração de uma pasta de CAA precisa partir de uma avaliação fonoaudiológica individualizada. Essa etapa é essencial porque, antes de selecionar figuras ou montar pranchas, é importante compreender: 

  • Como a pessoa se comunica;
  • Quais habilidades de linguagem já possui; 
  • Quais funções comunicativas utiliza no cotidiano; 
  • Quais são suas necessidades comunicativas nos diferentes ambientes.

Assim, durante a avaliação fonoaudiológica, serão identificados detalhes como atenção, habilidades motoras, intenção comunicativa e compreensão da linguagem. 

As possibilidades de uso da CAA apoiada ou não apoiada são consideradas posteriormente, pensando no sistema mais funcional para a pessoa. Isso porque, na prática, uma pasta de CAA precisa ir além de figuras para "pedir objetos". 

Método oferece meios para que a criança consiga se comunicar melhor.
Legenda: Método oferece meios para que a criança consiga se comunicar melhor.
Foto: Shutterstock/New Africa.

"O ideal é construir um sistema robusto de comunicação, que ofereça vocabulário suficiente para a pessoa comentar, perguntar, protestar, interagir socialmente, expressar sentimentos, participar da rotina e desenvolver a linguagem", explica.

No processo de elaboração, são inseridos vocabulários essenciais e que são muito utilizados, como palavras sociais, atividades e interesses da criança, emoções, ações e verbos. 

Prancha de comunicação

A prancha de comunicação precisa considerar o fácil acesso visual, a progressão do vocabulário e o uso funcional em diferentes ambientes, como a casa, a escola e os ambientes terapêuticos.  

A especialista ainda destaca a importância de respeitar o tempo de resposta da criança, compreendendo que o uso da CAA ocorre de forma gradual. Para além de ensinar símbolos, esse método busca oferecer os meios para a pessoa conseguir se comunicar com autonomia.

A importância da comunicação alternativa na educação especial 

Segundo Paula, a CAA tem um papel fundamental na educação especial por promover acesso à comunicação, participação e inclusão escolar. "Muitas crianças com dificuldades na fala ou na linguagem conseguem compreender conteúdos e interagir melhor quando possuem recursos visuais e sistemas de comunicação acessíveis", cita.

Com esses recursos, passam a conseguir expressar opiniões, sentimentos, necessidades e escolhas. Possibilita ainda outros recursos de aprendizagem e interação na escola. A CAA ainda contribui para reduzir frustrações e comportamentos relacionados à dificuldade de comunicação. 

*Paula Anderle é fonoaudióloga analista do comportamento, especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA). Atua com avaliação e intervenção precoce, com foco na comunicação funcional, incluindo fala, linguagem e recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Seu trabalho é voltado à promoção da autonomia e da interação social de crianças autistas, com abordagem individualizada e baseada em evidências.

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