Comunicação alternativa atrapalha a fala? Entenda benefícios desse método para crianças autistas

Recurso conta com imagens, escritas, gestos e pranchas de comunicação.

Escrito por
Beatriz Rabelo beatriz.rabelo@svm.com.br
Imagem de uma mulher trabalhando com comunicação alternativa com uma criança para matéria sobre autismo.
Legenda: A comunicação alternativa ajuda a ampliar as possibilidades de comunicação e interação.
Foto: Shutterstock/New Africa.

Os pais e familiares que buscam adaptar a rotina para ajudar no desenvolvimento de crianças autistas, por vezes, podem ter dúvidas sobre a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Para muitos, esse recurso pode prejudicar o desenvolvimento da fala.

No entanto, a fonoaudióloga Paula Anderle*, especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA), explica que o método, na verdade, ajuda a ampliar as possibilidades de comunicação

Além de ser usado para estimular a comunicação de crianças no espectro autista, também pode beneficiar diferentes públicos, como: 

  • Crianças com apraxia de fala;
  • Pessoas com paralisia cerebral;
  • Pessoas com síndromes genéticas;
  • Pessoas com sequelas de AVC.

Em entrevista ao Diário do Nordeste, a especialista tirou as principais dúvidas sobre o assunto, explicando o objetivo, como funciona na prática e até mesmo como fazer uma pasta de comunicação alternativa.

"A CAA não é apenas um recurso visual. Ela é uma ferramenta de desenvolvimento da linguagem e de participação social. Por isso, quanto mais planejado, funcional e significativo for o sistema de comunicação, maiores serão as oportunidades de interação, autonomia e inclusão dessa pessoa", ressalta Paula.

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O que é Comunicação Alternativa para autistas? 

A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) é um recurso que busca ampliar as possibilidades de comunicação e interação de pessoas que possuem dificuldades na fala ou na linguagem. Esse método envolve diferentes formas de comunicação, como: 

  • Fala oral; 
  • Imagens; 
  • Figuras; 
  • Escritas; 
  • Gestos; 
  • Pranchas de comunicação; 
  • Dispositivos eletrônicos. 

Com isso, tem o objetivo de oferecer meios para a criança autista se expressar, fazer escolhas e desenvolver autonomia. Na prática, são consideradas as necessidades de cada indivíduo. 

"O mais importante é entender que a CAA não é apenas uma ferramenta, mas uma forma de garantir acesso à comunicação, à inclusão e à qualidade de vida."
Paula Anderle
Fonoaudióloga

Comunicação aumentativa 

A comunicação aumentativa busca ampliar as possibilidades de trocas do indivíduo. Ela costuma ser utilizada quando a pessoa já tem alguma fala funcional, mas precisa organizar melhor a própria linguagem e expandir o vocabulário.

Nesse caso, Paula cita a inclusão de recursos como imagens, gestos e pranchas. 

Comunicação alternativa 

Já a comunicação alternativa é indicada para pessoas que não utilizam a fala oral de forma funcional.

Assim, os recursos vão substituir a fala, permitindo que o indivíduo "consiga se expressar, fazer escolhas, interagir socialmente e participar das atividades do dia a dia com mais autonomia", destaca a especialista.

Imagem de criança com professora para ilustrar matéria sobre comunicação alternativa atrapalha a fala? Entenda benefícios desse método para crianças autistas.
Legenda: Essa comunicação alternativa faz uso de outros recursos, como imagens, figuras, gestos, pranchas de comunicação, entre outros.
Foto: Shutterstock/New Africa.

Quais são os tipos de CAA? 

Existem diferentes formas de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), mas as classificações mais utilizadas costumam dividi-las em CAA apoiada e CAA não apoiada.

CAA Não Apoiada 

A CAA não apoiada utiliza apenas o corpo como meio de comunicação. As formas de comunicação dependem das habilidades motoras e comunicativas da pessoa, sendo: 

  • Gestos;
  • Expressões faciais; 
  • Olhares;
  • Vocalizações;
  • Comportamento;
  • Língua de sinais.

CAA Apoiada 

Já a CAA apoiada utiliza recursos externos para auxiliar na comunicação, como: 

  • Figuras; 
  • Fotografias; 
  • Cartões; 
  • Pranchas de comunicação; 
  • Tablets; 
  • Aplicativos específicos de comunicação.

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Quais são as alternativas de comunicação para alunos autistas?

As alternativas de comunicação são aplicadas não apenas a alunos autistas, mas também a crianças que utilizam a fala ou não. Os recursos ajudam a apoiar a comunicação funcional e facilitar as interações no ambiente escolar. 

Assim, a especialista lista a importância de utilizar imagens, gestos e pranchas de comunicação. Isso porque esses suportes ajudam o aluno a: 

  • Compreender melhor o ambiente;
  • Expressar necessidades;
  • Fazer escolhas;
  • Participar das atividades;
  • Interagir socialmente com mais autonomia.

Na escola, esses recursos devem ser inseridos de forma natural e acessível. Para isso, Paula recomenda utilizar pranchas temáticas em diferentes espaços, como banheiro, sala de aula, refeitório e até ginásio. Dessa forma, a compreensão e a participação das crianças podem ocorrer em vários contextos

"Quando a CAA deixa de ser um recurso restrito a um único aluno e passa a fazer parte da cultura escolar, criamos um ambiente mais inclusivo, acolhedor e democrático, onde todos os alunos conseguem participar e se comunicar de maneira mais efetiva".
Paula Anderle
Especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA)

Para que serve a comunicação alternativa? 

A CAA oferece ferramentas que facilitam a expressão e a interação de pessoas com dificuldades de comunicação.

Ela permite que a pessoa consiga se expressar, interagir socialmente, participar das atividades do cotidiano e desenvolver mais autonomia e inclusão.

Qual é o objetivo principal da comunicação alternativa 

O principal objetivo da CAA é permitir que a pessoa, estando no espectro autista ou não, consiga se comunicar de forma funcional. O foco é em autonomia, inclusão e compreensão.

Como funciona na prática 

Na prática, a CAA ajuda a pessoa a expressar necessidades, desejos, sentimentos e escolhas. Então, por meio dos recursos apontados acima, o indivíduo consegue apontar, entregar ou selecionar símbolos para se comunicar

Porém, para a autonomia funcionar, é preciso que a pessoa esteja inserida em ambientes nos quais a CAA seja utilizada. "Portanto, o treinamento de parceiros comunicativos que utilizem a CAA e forneçam o modelo de como utilizar é tão importante quanto a própria CAA. Esses processos auxiliam na interação e tornam a comunicação mais funcional e acessível", destaca Paula.

Como fazer pasta de comunicação alternativa 

A elaboração de uma pasta de CAA precisa partir de uma avaliação fonoaudiológica individualizada. Essa etapa é essencial porque antes de selecionar figuras ou montar pranchas, é importante compreender: 

  • Como a pessoa se comunica;
  • Quais habilidades de linguagem já possui; 
  • Quais funções comunicativas utiliza no cotidiano; 
  • Quais são suas necessidades comunicativas nos diferentes ambientes.

Assim, durante a avaliação fonoaudiológica, serão identificados detalhes como atenção, habilidades motoras, intenção comunicativa e compreensão da lingagem. 

As possibilidades de uso da CAA apoiada ou não apoiada são consideradas posteriormente, pensando no sistema mais funcional para a pessoa. Isso porque, na prática, uma pasta de CAA precisa ir além de figuras para "pedir objetos". 

Imagem de uma criança apontando para placas com emojis, para ilustrar matéria sobre comunicação alternativa atrapalha a fala? Entenda benefícios desse método para crianças autistas.
Legenda: Método oferece meios para que a criança consiga se comunicar melhor.
Foto: Shutterstock/New Africa.

"O ideal é construir um sistema robusto de comunicação, que ofereça vocabulário suficiente para a pessoa comentar, perguntar, protestar, interagir socialmente, expressar sentimentos, participar da rotina e desenvolver a linguagem", explica.

No processo de elaboração, são inseridos vocabulários essenciais e que são muito utilizados, como palavras sociais, atividades e interesses da criança, emoções, ações e verbos. 

Prancha de comunicação

A prancha de comunicação precisa considerar o fácil acesso visual, a progressão do vocabulário e o uso funcional em diferentes ambientes, como a casa, a escola e os ambientes terapêuticos.  

A especialista ainda destaca a importância de respeitar o tempo de resposta da criança, compreendendo que o uso da CAA ocorre de forma gradual. Para além de ensinar símbolos, esse método busca oferecer os meios para a pessoa conseguir se comunicar com autonomia.

A importância da comunicação alternativa na educação especial 

Segundo Paula, a CAA tem um papel fundamental na educação especial por promover acesso à comunicação, participação e inclusão escolar. "Muitas crianças com dificuldades na fala ou na linguagem conseguem compreender conteúdos e interagir melhor quando possuem recursos visuais e sistemas de comunicação acessíveis", cita.

Com esses recursos, passam a conseguir expressar opiniões, sentimentos, necessidades e escolhas. Possibilita ainda outros recursos de aprendizagem e interação na escola. A CAA ainda contribui para reduzir frustrações e comportamentos relacionados à dificuldade de comunicação. 

*Paula Anderle é fonoaudióloga analista do comportamento, especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA). Atua com avaliação e intervenção precoce, com foco na comunicação funcional, incluindo fala, linguagem e recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Seu trabalho é voltado à promoção da autonomia e da interação social de crianças autistas, com abordagem individualizada e baseada em evidências.

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