Saiba em quais cidades mais pessoas foram mortas em ações da Polícia no Ceará
O Estado teve aumento de 28,6% nesses casos em 2024.
O número de pessoas mortas em intervenções policiais no Ceará segue aumentando. De acordo com a sexta edição do relatório 'Pele Alvo: crônicas de dor e luta', da Rede de Observatórios da Segurança, Fortaleza concentrou a maioria dos casos com esse tipo de vítima no ano de 2024, com 18%.
O relatório aponta a persistência "de um padrão de segurança pública marcado pelo confronto e pelo racismo estrutural no País". Para pouco mais da metade dos 189 casos registrados no ano passado no Estado não foi compilada raça ou cor da vítima. Dos que tinham, quase 80% eram negros.
"O levantamento analisou dados de 2024 em nove estados (Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e Bahia), obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI), e revelou um cenário onde a cor da pele continua sendo o fator mais determinante para mortes violentas praticadas pelas Polícias", de acordo com a Rede.
VEJA RANKING DAS CIDADES COM MAIS CASOS NO CEARÁ:
- 33 vítimas foram em Fortaleza.
- 12 em Itapipoca.
- 9 em Caucaia.
- 8 em Itarema.
- 8 em Sobral.
- 6 em Boa Viagem.
A socióloga e pesquisadora da Rede de Observatórios Fernanda Naiara Lobato destaca que "estamos falando de pessoas em condições de vulnerabilidade social. As mortes muitas vezes são naturalizadas a partir da ideia de que ali é um inimigo do Estado".
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"Precisamos pensar como se dá localmente nessas cidades a ação ostensiva da Polícia. As forças de segurança aparecem na perspectiva de confronto e fazem com que inclusive o contexto de insegurança desses locais se agravem", disse a pesquisadora.
A reportagem solicitou nota à Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) sobre as mortes por intervenção policial. Por nota, a Pasta reforçou "que as ocorrências decorrentes de intervenção policial acontecem quando o profissional de segurança, no atendimento de uma ocorrência, precisa neutralizar uma ameaça iminente, visando proteger as pessoas ao redor e a si próprio".
"A pasta esclarece que as mortes decorrentes de intervenção policial não são consideradas intencionais, pois, até prova em contrário, configuram excludentes de ilicitude, situações em que a ação ocorre por estado de necessidade, legítima defesa, estrito cumprimento do dever legal ou exercício regular de direito.
Todas essas ocorrências são tratadas com seriedade e transparência, com dados publicados mensalmente no portal da SSPDS. Os casos são apurados de forma aprofundada e imparcial pela Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) e remetidos ao Ministério Público do Ceará (MPCE). A Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário (CGD) também acompanha as investigações", disse a Secretaria.
SÉRIE HISTÓRICA
Em 2024, um total de 3.272 pessoas foram assassinadas no Ceará. O dado indica que 5,7% dos mortos no Ceará foram em ações de intervenção policial.
Comparados os anos de 2023 e 2024, houve aumento de 28,6% nas mortes por intervenções policiais. Em 2025, já são 126 casos contabilizados, até o último mês de setembro.
Veja números:
Poucos dias após a megaoperação realizada em comunidades do Rio de Janeiro que deixou mais de 100 mortos, sete jovens de 16 a 22 anos morreram em uma ação da Polícia Militar do Ceará, em Canindé.
O governador do Estado, Elmano de Freitas, disse que todos do grupo eram membros de uma facção carioca.
O bando estaria pronto para uma disputa de território quando foi interceptado por composições do Batalhão de Polícia de Choque (BPChoque), do Batalhão Especializado de Policiamento do Interior (Bepi) e do Comando de Policiamento de Rondas de Ações Intensivas e Ostensivas (CPRaio).
Fernanda diz que "a sociedade acaba ignorando que, na verdade, a violência policial configura uma violação de direitos".
"A gente vê uma falha na política de Segurança Pública. A gente entra muito no debate da justificativa de ser suspeito, de ser um confronto policial e, muitas vezes, isso não é suficiente"
PERFIL DA VÍTIMA
Ainda segundo a pesquisa da Rede de Observatórios, o homem negro e jovem segue sendo como o perfil de vítima das ações policiais letais,
Em 2024, no Ceará, 73,5% das vítimas tinham até 29 anos e 98,9% eram do sexo masculino.
Veja divisão por faixa-etária:
- 0 - de 0 a 11 anos
- 21 - de 12 a 17 anos
- 118 - de 18 a 29 anos
- 32 - de 30 a 39 anos
- 8 - de 40 a 49 anos
- 1- de 50 a 59 anos
- 2- 60 anos ou mais
- 7- não informado
"É um perfil que se repete e são dados que não nos fala apenas sobre raça e cor. Fala, inclusive, qual o papel da Segurança Pública, das forças policiais, sobre quem é protegido e quem é alvejado. A gente tá falando de pessoas que tinham suas trajetórias de vida e que o Estado não conseguiu garantir a elas o direito à vida", complementa a socióloga.
Ainda segundo a SSPDS, "está em fase de testes uma nova plataforma, com o objetivo de modernizar e agilizar o registro de ocorrências no âmbito da Polícia Civil do estado do Ceará (PCCE)".
A Pasta diz que "a nova ferramenta substituirá o Sistema de Informações Policiais (SIP3W), possibilitando o cruzamento de dados estratégicos para o andamento de inquéritos policiais e levantamentos realizados pela Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp), além de permitir a análise mais fidedigna do perfil das vítimas de crimes".
"Por fim, a SSPDS informa que os policiais cearenses passam por cursos de formação e capacitação continuada, baseados na matriz curricular da Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Segurança Pública (SENASP/MSP). A formação contempla uma abordagem humanizada e técnica, voltada à resolução de conflitos e às questões sociais", ainda de acordo com a Secretaria.