Reviravolta em morte de ex-piloto do PCC: MP denuncia coronel Raiado e outro oficial da PM de Goiás
Felipe foi acusado por participar do duplo homicídio de 'Gege do Mangue' e 'Paca'.
O processo que apura as mortes do ex-piloto da facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC), Felipe Ramos Morais, e dos dois mecânicos de aeronaves Paulo Ricardo Pereira Bueno e Nathan Moreira Cavalcante teve uma reviravolta. Agora, dois policiais militares são acusados pelo triplo homicídio.
O Ministério Público de Goiás denunciou o coronel Edson Luís Souza Melo, conhecido como 'Coronel Raiado' e o major Renyson Castanheira Silva pelas mortes ocorridas no dia 17 de fevereiro de 2023. O órgão pede o afastamento dos policiais das funções e a suspensão dos portes de armas. As defesas dos acusados não foram localizadas pelo Diário do Nordeste.
Felipe Ramos ficou nacionalmente conhecido como 'piloto do PCC' desde que foi apontado como um dos executores de Rogério Jeremias de Simone, o 'Gegê do Mangue', e Fabiano Alves de Souza, o 'Paca'. A dupla integrava a cúpula da facção e foi assassinada em Aquiraz, Região Metropolitana de Fortaleza.
O ataque cinematográfico contou com o uso de um helicóptero, pilotado por Felipe. O piloto passou a ser alvo e ameaçado pelo grupo desde que teria realizado um acordo de delação premiada com a Polícia Federal (PF). A própria PF confirmou à Justiça o acordo, enquanto o Ministério Público do Ceará (MPCE) mantém a negativa de ter havido algum tipo de delação, ao contrário do que afirmava a defesa do réu.
Edson Raiado chegou a participar da segurança do empresário Pablo Marçal, enquanto ele era candidato a prefeito por São Paulo. O coronel também ficou conhecido por comandar a operação policial que terminou com a morte do "serial killer" Lázaro Barbosa, em 2021.
TRIPLO HOMICÍDIO
A reportagem apurou que em 17 de fevereiro de 2023, por volta das 13h, na divisa entre Goiânia e Abadia de Goiás, os denunciados Edson Luis Souza Melo e Renyson Castanheira Silva, "conscientes e voluntariamente, utilizando-se de recurso que dificultou suas defesas, mataram as vítimas Felipe Ramos Morais, Nathan Moreira Cavalcante e Paulo Ricardo Pereira Bueno, ao desferirem múltiplos disparos de arma de fogo, pelas costas".
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A dupla lotada no Comando de Operações de Divisas (COD/PMGO) se deslocou até uma chácara, sob justificativa de averiguar uma denúncia anônima sobre a utilização do local para o tráfico de drogas com o uso de helicópteros.
Conforme documentos da investigação obtidos pela reportagem, "sem que houvesse qualquer agressão prévia por parte dos ofendidos, os denunciados passaram a efetuar diversos disparos de arma de fogo contra eles, notadamente pelas costas, após o que os três vieram a óbito no local".
"A prova técnica pericial rechaça a versão apresentada pelos denunciados de que teria ocorrido um confronto frontal. Os Laudos de Exame Cadavérico e o Parecer Pericial atestam que as vítimas foram atingidas por múltiplos disparos pelas costas. Especificamente em relação a Felipe e Paulo, constatou-se que sofreram disparos com trajetória fortemente ascendente, evidenciando que foram alvejados quando já se encontravam caídos e rendidos em decúbito ventral, caracterizando o emprego de recurso que impossibilitou qualquer defesa".
CENA DO CRIME ALTERADA
A acusação aponta que após as execuções das vítimas, os PMs ainda forjaram a cena do crime: "recolheram 12 dos 15 estojos deflagrados por suas armas e movimentaram os corpos do local original. Ademais, as armas de fogo que os denunciados alegam pertencer às vítimas foram encontradas com capacidade máxima de munição, indicando que sequer foram disparadas, bem como estavam dispostas no banco traseiro da caminhonete, longe dos corpos das vítimas".
"A dinâmica forjada pelos denunciados é corroborada pelo exame de georreferenciamento das viaturas da PMGO, que demonstrou inconsistências na linha do tempo apresentada por eles, revelando que o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) foi acionado com atraso injustificado, apenas após a completa alteração do local dos fatos", acrescentou o MPGO.
O pedido de afastamento dos PMs das suas funções é justificado como: "a manutenção dos denunciados em atividade operacional, com porte de arma de fogo e exercício de funções típicas de policiamento ostensivo mostra-se incompatível com a gravidade do fato investigado e pode comprometer a regularidade da instrução criminal, além de representar risco à confiança institucional nas atividades de segurança pública".
Ameaçado de morte
Felipe disse ter sido ameaçado de morte, caso não continuasse pilotando para a facção paulista antes de 'Gegê' e 'Paca' serem mortos. Ele contou ter sido sequestrado semanas antes do duplo homicídio da cúpula do grupo criminoso.
Conforme a defesa do piloto, ele não sabia que 'Gegê' e 'Paca' seriam executados e só participou do voo para Fortaleza depois de ser sequestrado e torturado um mês antes das mortes por homens subordinados a Wagner Ferreira da Silva, o 'Cabelo Duro', um dos executores do duplo homicídio.
O caso foi registrado em Boletim de Ocorrência (B.O.), na Delegacia de Polícia de Guarujá, em São Paulo, em 13 de janeiro de 2018. Considerado o principal articular do plano criminoso, 'Cabelo Duro' também foi executado, em São Paulo, poucos dias após o crime ocorrido no Ceará.
Em 2021, um atestado médico obtido pela reportagem do Diário do Nordeste apontou que Felipe foi diagnosticado com “ansiedade generalizada” e “estado de stress pós-traumático”.
O piloto foi preso em um condomínio de luxo no Município de Caldas Novas, em Goiás, em 14 de maio de 2018, três meses após os assassinatos de 'Gegê do Mangue' e 'Paca', em uma reserva indígena em Aquiraz.
O piloto pediu por liberdade à Justiça várias vezes e pela anulação dos atos processuais, com a alegação de que também selou acordo de delação premiada com o Ministério Público do Ceará (MPCE), o que foi negado pelo Órgão.
Ele só conseguiu a soltura em abril de 2021, por decisão proferida pelo Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE). Na época, o Tribunal considerou o quadro de saúde debilitado do acusado - que utilizava um balão intragástrico que já havia explodido.
No mesmo dia que ele foi solto pelo TJCE, o colegiado de juízes da Comarca de Aquiraz negou a anulação dos atos processuais e pedidos de relaxamento das prisões dos outros réus.
Conforme as investigações da Polícia Civil do Ceará (PCCE), Felipe teria levado vítimas e assassinos para uma emboscada, motivada por um racha na facção. A liderança do PCC não aceitava a vida de luxo que a dupla levava em terras cearenses e suspeitava de desvios financeiros.