Investigação revela 'batismo' de 692 membros da GDE no Ceará

Durante o cadastro, os novos membros enviavam fotos, 'vulgos', 'padrinhos' no crime e funções que desejavam exercer.

Escrito por
Geovana Almeida* geovana.almeida@svm.com.br
Investigação revela 'batismo' de 692 membros da GDE
Legenda: Maioria dos membros 'batizados' escolhiam exercer funções no tráfico de drogas.
Foto: Rodrigo Gadelha.

Uma investigação da Polícia Civil do Ceará (PCCE) resultou na descoberta de 692 cadastros de novos membros da facção Guardiões do Estado (GDE). A lista estava em um aparelho celular apreendido em uma operação policial, deflagrada em 2025, na Grande Fortaleza. Dentre os 692 nomes, cerca de 353 foram qualificados como membros ativos do grupo criminoso, atuando em diversos municípios do estado.

Durante os 'batismos', as pessoas que desejavam integrar a facção cearense enviavam fotos, 'vulgos' (apelidos), bairros em que atuavam e até as funções que desejavam exercer. Para concluir o cadastro, eles realizavam chamadas de vídeo com lideranças da facção, para comprovar a identidade. 

(Veja o 'passo a passo' dos 'batismos' abaixo)

O líder responsável por avaliar o perfil dos novos integrantes era Mathias Mesquita Lopes, 20, conhecido como 'Príncipe da Paz'. Mathias era o 'representante do quadro de fiscalização GDE' e utilizava o e-mail da mãe dele para armazenar as informações dos batismos sem levantar suspeitas.

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A investigação chegou até Mathias através da participação dele em um grupo de mensagens chamado de 'MP – CAUCAIA'. O grupo reunia os integrantes da GDE que atuavam no município.

Durantes as investigações, as autoridades selecionaram alguns dos participantes do grupo de mensagens para serem investigados na Operação Safra Segura, deflagrada pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Ceará (Ficco).

O Ministério Público do Ceará (MPCE) denunciou 353 pessoas e dividiu a investigação em 20 ações penais.

Foi decretada a prisão preventiva dos representados, bem como para que sejam determinadas as medidas cautelares de busca e apreensão domiciliar, quebra de sigilo telefônico e bloqueio de conta bancária
Ministério Público do Ceará (MPCE)

Como a 'Operação Safra Segura' começou?

O principal investigado da operação é Francisco Wellington Moreira da Silva, também conhecido como 'Arroz'. Segundo o relatório policial obtido pela reportagem, ainda em 2024, foi realizada a tentativa de prisão de 'Arroz', quando o suspeito "empreendeu fuga ao avistar os policiais, porém deixou para trás seu aparelho celular"

A investigação analisou os dados telemáticos do aparelho e descobriu que Francisco Wellington ocupava posição de liderança no grupo 'MP - CAUCAIA' - da facção GDE. A partir disso, outras lideranças do grupo - como o 'Príncipe da Paz - foram selecionadas e passaram também a ser alvos da investigação.

Francisco Wellington Moreira da Silva só foi capturado em abril de 2025, na cidade de Morada Nova (CE). Atualmente, ele se encontra detido na Unidade Prisional de Quixadá.

Além do 'cadastro', faccionados pagavam 'mensalidade'

Mathias Mesquita, o 'Príncipe da Paz', analisava os cadastros e cobrava as 'caixinhas' dos membros - valor mensal pago pelos integrantes à facção criminosa. O jovem de 20 anos recebia as 'caixinhas' de membros da GDE que atuavam em Baturité (CE), onde ele morava.

"Ainda nos dados analisados, foram verificados dezenas de prints de comprovantes bancários. Esses comprovantes seguem um padrão de valor de 50 e 100 reais. Os prints são acompanhados de 'vulgo' e 'quebrada' escritos digitalmente por cima da imagem printada"

O valor arrecadado era transferido para a conta de Francisco Samuel Sousa de Oliveira, que não possuía antecedentes criminais. O suspeito foi apontado pelas autoridades como o "responsável financeiro pelo dinheiro da caixinha de toda a organização criminosa".

Em 2025, um homem identificado como Antônio Euden da Silva Lucas, que afirmou ter integrado o Conselho Final da GDE, delatou que "a arrecadação total mensal da caixinha pode variar entre R$ 120 mil e R$ 125 mil ". 

Antônio Euden havia "rasgado a camisa" da facção e tinha sido decretado de morte, quando procurou o 2º Distrito Policial (2º DP) para relatar em depoimento, detalhes do funcionamento da facção cearense. 

Antônio foi assassinado a tiros, ao sair de uma clínica médica no bairro Sapiranga, em Fortaleza, três meses após o depoimento. 

Avanço do CV enfraqueceu GDE no fim de 2025; facção cearense se aliou ao TCP

Após perder territórios importantes para o tráfico de drogas na disputa com o Comando Vermelho em Fortaleza - como o bairro Vicente Pinzón e a região do Lagamar - a GDE se aliou ao Terceiro Comando Puro (TCP), no final de 2025. 

Segundo apuração do Diário do Nordeste, dezenas de membros da GDE "rasgaram a camisa" da facção, em Fortaleza. Alguns aderiram ao Comando Vermelho, com medo de terem o território tomado ou serem mortos. Outros ingressaram no TCP, como alternativa de sobrevivência aos ataques do CV.

Ainda segundo depoimento de Antônio Euden, apesar do enfraquecimento recente, a renda mensal da GDE seria de cerca de 500 mil reais . A exploração do jogo do bicho virou a principal fonte de renda da facção cearense - acima até do tráfico de drogas.

A reportagem teve acesso a documentos nos quais constam a 'preocupação' do Poder Público com o avanço do TCP no Ceará, através das atuais alianças com grupos criminosos cearenses.

O MPCE afirmou que "a chegada do TCP ao Ceará, especialmente no Interior, não é apenas um fato isolado, mas faz parte de uma dinâmica nacional de expansão das facções brasileiras para além de seus territórios de origem". 

Passo a passo dos 'batismos':

  • Print de chamada de vídeo com o cadastrador;
  • Foto do suspeito fazendo o número 3 com a mão, gesto alusivo a orcrim GDE;
  • Histórico criminal;
  • Dados cadastrais do número informado em nome do suspeito ou de familiar
  • próximo;
  • Número informado cadastrado como chave pix em nome do suspeito;
  • Citação do suspeito como faccionado no sistema SIGEPEN;
  • Visita do suspeito à faccionados da GDE.

*Estagiária supervisionada pelo jornalista Emerson Rodrigues. 

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