Ato de Eduardo Leite abre debate sobre representatividade e efeitos concretos no poder público

Ao se assumir gay, governador gaúcho faz gesto simbólico; analistas discutem o reflexo disso em políticas públicas

LGBT
Legenda: Eduardo Leite foi alvo de críticas, inclusive de militantes do movimento LGBTQIA+, por posicionamentos políticos
Foto: JL Rosa

O governador Eduardo Leite (PSDB), do Rio Grande do Sul, assumiu publicamente ser homossexual, durante entrevista na quinta-feira (1º), e abriu uma discussão quanto aos limites da representatividade e os efeitos concretos de um anúncio como o dele na defesa e formulação de políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+.

O tucano é o único pré-candidato à Presidência a ter assumido a homossexualidade. Ele e a governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT), formam ainda uma minoria entre os chefes de executivos estaduais. A petista chegou, inclusive, a oferecer "solidariedade por ataques que venha a sofrer em razão de sua declaração".

Fátima Bezerra

Professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), a cientista política Monalisa Soares destaca o peso simbólico da declaração de Eduardo Leite. "Todo anúncio de qualquer gestor, de qualquer pessoa que assuma um cargo político de relevância e que pertença a  minorias, carrega simbolicamente uma importância", afirma.

A conjuntura política brasileira, com crescimento de ataques à população LGBTQIA+, também ajuda a explicar as repercussões geradas pela declaração do tucano.

"É importante porque é um governador que tem pretensões de disputa presidencial, no momento em que essas questões são polemizadas, sobretudo por setores conservadores", afirma o professor de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), o também cientista político Emanuel Freitas.

A questão, para ele, é como o anúncio, que trata de uma vivência pessoal, se transmite para a atuação como gestor público.

"Em que medida um governador gay engendra ações contra as discriminações?", exemplifica Freitas. "O que significaria se ele fosse escolhido pelo PSDB (como candidato à Presidência)? São passos para a gente observar".

Tasso Jereissati

Críticas ao posicionamento político

A declaração de Eduardo Leite, contudo, foi seguida de críticas, inclusive de militares do movimento LGBTQIA+. Um dos principais motivos foi o apoio dele ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), durante o segundo turno das eleições de 2018.

O presidente, em mais de uma ocasião, fez comentários e piadas homofóbicas, além de criticar ações e projetos voltados à políticas públicas para esta minoria social.

O apoio tímido demonstrado por Leite, durante a trajetória política, a bandeiras vinculadas à comunidade LGBTQIA+ também tem gerado tensionamento após a declaração do governador.

"Não foi uma bandeira levantada em nenhum momento da vida pública. O posicionamento político dele é muito distante disso".
Carla Michele
Cientista Política

Ela destaca o limite entre a representatividade de uma minoria e os efeitos concretos disso na defesa de pautas de proteção a estas populações.

"Não é pelo fato de ser gay que as bandeiras são as mesmas. Não é pelo fato de ser mulher que as bandeiras são as mesmas. Não é pelo fato de ser indígena que as bandeiras são as mesmas", pondera a cientista política e professora universitária Carla Michele Quaresma.

Neste sentido, avalia Monsalisa Soares, existe a necessidade de ultrapassar a barreira da declaração quando se trata do poder público.

"O que estamos observando são desafios enormes para criar, aprovar e regulamentar projetos de  criar de proteção a comunidade LGBTQIA+", afirma.

"É necessário ultrapassar essa barreira e conseguir que esses agentes políticos que representam minorias possam conseguir avançar na execução dessas políticas públicas".
Monalisa Soares
Professora da UFC

Capital político e eleitoral

Jair Bolsonaro insinuou, na sexta-feira (2) que o governador gaúcho está utilizando a declaração sobre ser gay como cartão de visitas para as próximas eleições.

"O cara está se achando o máximo, está se achando o máximo... Olha, bateu no peito: 'Eu assumi'. É um cartão de visita para a candidatura dele. Ninguém tem nada contra a vida particular de ninguém, agora querer impor o seu costume, o seu comportamento para os outros…", criticou Bolsonaro.

Eduardo Leite

A professora Monalisa Soares explica que o uso da vivência pessoal como forma de atrair eleitores é comum entre políticos, tanto do Executivo como do Legislativo.

"É sempre delicado. É sempre difícil dizer em que medida as experiências subjetivas das pessoas são usadas para fins políticos e eleitorais. Mas isso ocorre. Políticos usam as suas trajetórias mobilizando suas experiências e questões", afirma.

Em alguns casos, a mobilização pode, sim, trazer benefícios. "Se existem grupos, nichos que defendem essas bandeiras, é mais fácil quando você compartilha da experiência. Se é o tema do momento, isso pode resultar em ganhos eleitorais", concorda Carla Michele.

Contudo, para Emanuel Freitas, o momento político brasileiro não favorece pessoas que se vinculam à pauta LGBTQIA+. "Quem se aproxima da população LGBT, perde. É uma aposta arriscada, longe de trazer benefícios", explica.

"É um ato de coragem, um ato louvável de incrementar pessoas públicas que se assumem e dão novo fôlego para esse segmento".
Emanuel de Freitas
Professor da Uece


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