Saída da Argentina de negociações do Mercosul pode impactar o CE

Movimento pode prejudicar o andamento de acordos que ainda estão em processo de negociação. País é o terceiro principal fornecedor de bens importados pelo Estado e 10º principal destino das exportações cearenses

Legenda: Ceará importou da Argentina de janeiro a abril deste ano, principalmente, cereais, sobretudo o trigo.
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O afastamento da mesa de negociações do Mercosul anunciado pela Argentina, sob a justificativa de que o país irá focar em medidas internas de combate à pandemia, poderá ter reflexos sobre a economia cearense. De acordo com Ana Karina Frota, superintendente do Centro Internacional de Negócios do Ceará (CIN/CE), o movimento argentino preocupa, à medida que prejudica o andamento de acordos que ainda estavam em negociação.

"Alguns (acordos) tinham inclusive anos de negociação", aponta Frota. "Com as regras de hoje, é necessário o aval do governo argentino para que as negociações tenham condições de avançar. Essa é a nossa preocupação número um, porque precisaremos rever as regras vigentes no Mercosul para que a gente não entre em um cenário de dificuldade comercial no que se refere a essas negociações".

De acordo com a superintendente, no caso de novos acordos comerciais, a Argentina ficaria segregada dos novos termos. "Agora, a gente aguarda uma definição do que a Argentina irá fazer para propor essas mudanças (...). Por ser uma das maiores economias do bloco, se ausentando nesse momento, ela ficaria enfraquecida", avalia Frota.

Das importações realizadas pelo Ceará, o país sul-americano acumula o terceiro maior volume de vendas ao Estado, atrás apenas de Estados Unidos e China. A Argentina é ainda o 10º principal destino das exportações cearenses.

De janeiro a abril deste ano, o Ceará comprou US$ 79,7 milhões da Argentina e exportou US$ 15,8 milhões, principalmente calçados (US$ 9,5 milhões, o equivalente a 60% do total vendido ao país). E os cereais, sobretudo o trigo, foram os principais produtos importados, somando US$ 70,4 milhões, 88,3% do total.

Mudanças de regras

Diante do anúncio da Argentina de que abandonará negociações de acordos do Mercosul, o governo brasileiro decidiu sugerir mudanças nas regras de funcionamento do bloco para viabilizar tratativas comerciais sem a participação do país vizinho. Os negociadores brasileiros argumentam que as regras vigentes hoje podem impedir o andamento de acordos futuros se não houver aval do governo argentino.

A preocupação diz respeito não apenas a futuras iniciativas, mas também a diálogos já iniciados formalmente nos últimos anos entre o bloco e países como Canadá, Coreia do Sul, Líbano e Cingapura. No fim do mês passado, a Argentina recuou da decisão de abandonar as negociações e pediu para negociar numa velocidade menor, entrando nos acordos depois dos demais membros do bloco sul-americano.

A estratégia é para conseguir que os demais membros do Mercosul aceitem que a Argentina entre nos acordos posteriormente, dando ao país mais tempo para cuidar da sua crise interna e para renegociar sua dívida pública externa com credores privados.