Previsão de alta do PIB não pode ser vista como sinal de retomada

Para economistas ouvidos pela reportagem, o mercado está reagindo a três medidas interligadas do Governo Federal, porém, sem a execução de reformas estruturais, não há garantias de que a previsão otimista seja consistente

Ainda é cedo para falar em retomada da economia brasileira, mesmo que o boletim Focus, do Banco Central, tenha elevado pela primeira vez a previsão do Produto Interno Bruto (PIB) nacional após 20 reduções seguidas. Segundo os especialistas consultados pela reportagem, a nova representação positiva da expectativa do mercado é artificial e pode significar apenas um salto curto, gerado por soluções paliativas, enquanto o Governo não executa as reformas estruturais (Previdência e sistema tributário). Nessa segunda-feira (22), a estimativa de crescimento da economia para 2019 passou de 0,81% para 0,82%.

Segundo o economista e consultor Henrique Marinho, há três explicações para a atualização da perspectiva de crescimento: a análise do mercado depois da divulgação dos resultados de melhoria do nível de atividade econômica, indicado pelo Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br); a aprovação em primeiro turno da reforma da Previdência na Câmara dos Deputados; e a leitura de que a liberação do saque de parte do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) impulsionará o comércio no País.

Contudo, Marinho ponderou que a expectativa ainda é pequena, pois alguns dos impactos para os fatores citados acima pode ser menor do que a expectativa do Governo Federal. Além disso, ele afirmou que será necessário aguardar os próximos relatórios, nas semanas seguintes, para que se avalie a consistência desse otimismo do mercado.

"A gente deve ter uma certeza maior com a passagens de duas ou três semanas. Ainda é muito cedo, até porque o valor é insignificante. Mas as expectativas são boas, tanto pela aprovação da Previdência em primeiro turno quanto pelo anúncio do ministro Paulo Guedes que o Governo deverá anunciar medidas para impulsionar a economia nas próximas semanas. Mas ainda é cedo", disse Marinho.

O economista, no entanto, apontou que o Governo precisa ter muito cuidado para não gerar conflitos desnecessários que possam atrapalhar o andamento das reformas ou das iniciativas empresariais. "O Governo se atrapalha por si próprio, até pela forma como o presidente vem se portando e comprando briga com a sociedade. A gente sente a expectativa positiva, mas diante dos conflitos criados pelo presidente, pode-se inverter essa perspectiva. Ele não tem ajudado o Brasil a criar essa certeza política e econômica de que o País vá crescer", defendeu Henrique Marinho.

Desempenho

Além disso, para o economista e consultor internacional Alcântara Macedo, também não há garantias de que a liberação dos recursos do FGTS possa gerar um impacto de longo prazo na economia nacional. Segundo ele, o resultado deverá ser pontual caso as reformas estruturais não avancem no segundo semestre.

"Para mim, essa medida é um voo de galinha, porque esse aumento do PIB tem possibilidade de vir apenas pelo aumento no consumo e não do investimento", ponderou Macedo. "Não há crescimento real impulsionado pelo consumo. Não é sustentação, mas um paliativo. Não dá para ficar tranquilo, não dá para confiar que começou o crescimento", completou.


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