Empresas do CE na Bolsa alternam entre prejuízo e lucro em 2025; veja quem subiu e caiu

Ao todo, oito empresas cearenses estão na B3.

Escrito por
Luciano Rodrigues luciano.rodrigues@svm.com.br
Foto que contém a fachada da Aeris Energy.
Legenda: Empresa cearense listada na B3, Aeris Energy teve a maior queda nos resultados.
Foto: Aeris/Divulgação.

Enquanto Aeris Energy (AERI3) e Hapvida (HAPV3) fecharam o ano de 2025 no vermelho, companhias cearenses como Grendene (GRND3), M. Dias Branco (MDIA3) e Pague Menos (PGMN3) sustentaram resultados positivos, conforme os balanços financeiros divulgados pelas empresas.

O desempenho mais crítico foi o da Aeris, que registrou um prejuízo de R$ 901 milhões. Na sequência, a Hapvida reportou um saldo negativo de R$ 237,6 milhões no acumulado do ano.

Já a Brisanet (BRIT3), embora tenha registrado prejuízo no quarto trimestre, encerrou o exercício com lucro de R$ 40,9 milhões. Entre as companhias listadas, a Pague Menos foi a única a obter resultados superiores aos de 2024, totalizando lucro de R$ 286,6 milhões. 

Ao todo, o Ceará conta com oito empresas na B3, grupo que inclui também as companhias de capital aberto Enel Distribuição Ceará (COCE5) e Banco do Nordeste (BNBR3).

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Especialistas ouvidos pelo Diário do Nordeste atribuem esses resultados principalmente ao cenário internacional, apontado inclusive pelas próprias companhias como desafiador, com taxações e crises em determinados setores, como o de energia eólica.

Por outro lado, o cenário também mostra a resiliência e o crescimento do Ceará frente ao mercado financeiro nacional.
 

Aeris registra prejuízo de R$ 477 milhões no 4T

Das empresas cearenses listadas na B3, a Aeris é a que mais acumula insucessos financeiros devido à crise no setor eólico no Complexo do Pecém (Cipp). No quarto trimestre de 2025, a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 477,4 milhões, uma melhora frente aos R$ 832,9 milhões perdidos no mesmo período de 2024. 

No acumulado anual, o prejuízo de 2025 superou R$ 901 milhões, levemente melhor que os R$ 933 milhões negativos de 2024, mas ainda distante dos lucros de anos anteriores.

Segundo o balanço, o resultado reflete a queda nos investimentos em parques eólicos, o que levou à desativação de seis das oito linhas de produção da fábrica. Com a produção para o mercado interno caindo 81% e zerando no último trimestre de 2025, a empresa quadruplicou sua demanda externa, que já responde por 56% da receita total. 

Para o mercado internacional, foram registradas 64,7 mil pás no fechamento do ano. Para mitigar riscos e buscar estabilidade no caixa, a Aeris foca agora na expansão dos serviços de reparo e no aumento das exportações

Em nota (leia texto completo abaixo), a a Aeris Energy definiu 2025 como um ano de reestruturação financeira e operacional, marcado pelo alongamento de dívidas e cortes de custos para ganhar eficiência. A companhia disse que aposta na diversificação de receitas e em novos projetos contratados para sinalizar uma retomada.

Tombos fortes no fim de 2025 causam prejuízos à Hapvida

Uma das maiores operadores de saúde do País, a Hapvida encerrou o ano passado no vermelho, derrubando lucros de 2024. O prejuízo líquido da companhia foi de R$ 237,6 milhões em 2025, frente a um resultado positivo de R$ 270,3 milhões no ano anterior.

No quarto trimestre de 2025, a Hapvida fechou com prejuízo de R$ 29,1 milhões, também revertendo o lucro líquido do ano anterior. A empresa atribuiu a queda nas receitas financeiras "ao consumo do caixa aplicado médio e menos dias úteis".

Em um único dia de novembro de 2025, a Hapvida perdeu R$ 7 bilhões em valor de mercado, a maior queda registrada desde a abertura de capital na B3. Toda essa instabilidade também veio impactada pelo número de clientes.

Só no ano passado, foram quase 140 mil a menos nos planos de saúde, principalmente na região Sudeste, onde a companhia ganhou mercado com a fusão com a NotreDame Intermédica.

O Diário do Nordeste demandou a Hapvida sobre os resultados, mas ainda não recebeu respostas. Em caso de retorno, este texto será atualizado. 

Lucro da Brisanet cai 32%

Algumas empresas cearenses na B3 tiveram resultados até positivos, mas abaixo do desempenho de outros anos. No caso da Brisanet, o lucro em 2025 foi de R$ 40,9 milhões, redução de 32,73% em relação a 2024.

No quarto trimestre do ano passado, a empresa registrou prejuízo de R$ 24,2 milhões, revertendo o lucro do mesmo período do ano anterior.

Segundo relatório da Brisanet, o tombo é reflexo, principalmente, "de uma despesa tributária não recorrente relacionada ao pagamento de acordo de ICMS no Rio Grande do Norte". 

Procurada, a Brisanet informou que não iria se manifestar sobre os resultados. 

Lucro da Grendene cai 24,5% 

Fundada no Rio Grande do Sul em 1971, a Grendene, que transferiu sua matriz para Sobral na década de 1990, também registrou lucros inferiores aos de anos anteriores.

Foto que contém vista aérea da sede da Grendene, em Sobral (CE).
Legenda: Grendene foi fundada no Rio Grande do Sul, mas teve a sede transferida para o Ceará.
Foto: Grendene/Divulgação.

Nos três últimos meses de 2025, a gigante do setor calçadista teve resultado líquido de cerca de R$ 250 milhões, 24,5% a menos do que no quarto trimestre de 2024. No ano, a empresa teve lucro de R$ 644,8 milhões, 12,3% a menos em relação a 2024.

A Grendene também foi procurada para comentar os detalhes dos balanços financeiros. Quando houver retorno das informações, este material será atualizado.

M. Dias Branco registra alta de 2%

Ao longo de 2025, a M. Dias Branco registrou uma leve alta de 2% no lucro líquido, acumulando aproximadamente R$ 660 milhões nos 12 meses. Segundo a companhia, a reestruturação da área comercial foi o fator crucial para a retomada do crescimento dos volumes vendidos no período.

No comparativo entre os quartos trimestres de 2025 e 2024, o lucro líquido da gigante de alimentos recuou mais de 10%, somando R$ 157,9 milhões, apesar de a empresa ter comercializado 10% mais produtos no mesmo intervalo.

A empresa reforça que seus três principais indicadores (receita líquida, lucro líquido e volume vendido) fecharam o ano com resultados positivos.

Segundo a M. Dias Branco, a reestruturação da área comercial foi crucial para retomar o crescimento dos volumes. 

O que está por trás desses resultados 

Para Guilherme Fiore, Head de Renda Variável da Pequod Investimentos, a situação da Aeris indica que a empresa está enfrentando um "cenário de estresse financeiro e operacional agudo".

Conforme o especialistas, perdas consecutivas dessa magnitude sinalizam que o modelo de negócios está vulnerável à falta de novos investimentos no setor eólico, o que tem gerado ociosidade nas fábricas e aumento nos custos de produção.

"A empresa também precisou reconhecer R$ 233,9 milhões em desvalorização de ativos no último ano, o que afasta investidores por indicar risco de liquidez e incertezas quanto à geração de caixa futura", explica.  

Celso Sant'Ana, mestre em finanças e consultor de investidores e empresas, observa que a companhia cearense não é a culpada direta pelos resultados negativos, mas que a situação acaba gerando no investidor o que ele define como "espiral de desconfiança". 

"Os investidores, ao perceberem que o ciclo negativo se repete, tendem a antecipar perdas e vender as ações antes de qualquer deterioração adicional — o que derruba ainda mais a cotação. O lado positivo é que a gestão reestruturou aproximadamente 90% do seu endividamento, conferindo previsibilidade de caixa para atravessar o ciclo de baixa. Isso mostra racionalidade estratégica mesmo sob pressão", observa.

O impacto do tarifaço 

Sobre a Grendene, M. Dias Branco e a Aeris, Fiore avalia que elas foram impactadas pela sobretaxação imposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre os produtos brasileiros, o que obrigou as empresas cearenses a adotarem medidas que causaram impactos diretos na lucratividade.

De acordo com ele, "a tarifa encarece artificialmente os produtos brasileiros no mercado norte-americano, espremendo as margens de lucro quando as empresas precisam absorver o custo para não perder clientes, ou derrubando o volume de vendas por perda de competitividade".

"A M. Dias Branco, por exemplo, registrou queda de 5% na receita internacional em 2025 especificamente devido à redução nas exportações para os EUA após a medida", comenta o especialista.

Essas fortes oscilações impactam o retorno do investimento, reduzindo o pagamento de dividendos e gerando maior volatilidade no preço das ações. Como a empresa tem sofrido com o alto custo de insumos e com o recente tarifaço, foi forçada a adotar medidas para controlar despesas, incluindo fechamento de fábrica e demissão de funcionários, o que gera incerteza no mercado financeiro".
Guilherme Fiore
Head de Renda Variável da Pequod Investimentos

No caso específico da M. Dias Branco, Celso Sant'Ana aponta que a redução dos lucros da empresa em balanços trimestrais cria a "ansiedade de posição" nos investidores, que se veem receosos de segurar ou de vender as ações.

O especialista acrescenta que a queda de margens em um ano chama atenção do mercado e sugere aumento de custos ou menor poder de repasse de preços.

"Quando isso se torna recorrente, o investidor racional começa a questionar a tese de investimento. O risco aqui não é só financeiro, é comportamental: o investidor que entra em pânico e vende realiza prejuízo que poderia ser temporário", esclarece.

Lucro da Pague Menos dispara

Enquanto as outras cinco empresas cearenses estão com desafios operacionais, a Pague Menos pôde encerrar o ano com resultados financeiros históricos e bem perto das 1,7 mil lojas, se aproximando da vice-líder do mercado farmacêutico nacional, posição hoje ocupada pela paulista Drogarias Pacheco.

No quarto trimestre do ano passado, a maior varejista do Ceará teve lucro líquido de R$ 132,7 milhões, 72,2% a mais do que o mesmo período de 2024. Em 2025, o resultado foi ainda mais expressivo: lucro líquido de R$ 286,6 milhões, disparada de 88,5% em relação ao ano anterior.

No balanço financeiro, a Pague Menos frisa que os bons resultados estão ligados ao desempenho das chamadas mesmas lojas, abertas há mais de um ano, que chegaram próximo dos 20% a mais de vendas na comparação com trimestres anteriores.

Os resultados são vistos por Guilherme Fiore como naturais e processo de "resiliência do mercado interno brasileiro no setor de saúde e bem-estar".

Foto que contém fachada da Pague Menos.
Legenda: Pague Menos cresceu quase 90% no lucro líquido no comparativo entre 2025 e 2024.
Foto: Pague Menos/Divulgação.

"Diferente das indústrias exportadoras, as redes de farmácias comercializam itens de necessidade básica, cuja demanda é inelástica e imune a guerras comerciais externas. O sucesso recente foi tracionado pela expansão da participação de mercado nacional e pelo forte avanço nas vendas digitais, que já representam 21% do faturamento da empresa", aponta.

Conforme Celso Sant'Ana, a Pague Menos se torna um exemplo de lição estratégica ao adotar conceitos similares ao de investidores de renda variável que pulverizam os investimentos, bem como ter disciplina para reduzir a alavancagem - usar dinheiro emprestado para aumentar o potencial de retorno de investimentos.

"A Pague Menos cresceu 7,5 pontos percentuais acima da média de mercado em 2025, evidenciando crescimento mais estruturado e menos dependente de expansão física. É mentalidade de longo prazo com disciplina emocional: não reagir a cada crise com decisões impulsivas, mas construir uma estrutura resiliente que aguenta os ciclos adversos sem romper", reforça.

Mesmo com oscilações, mercado cearense é um dos mais influentes, afirma especialista

Eldair Melo, membro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), analisa que o Estado possui uma posição privilegiada dentro do Nordeste. Com empresas dos mais diversos segmentos, o especialista enfatiza que o território cearense é uma vitrine de multinacionais.

"Essa pulverização setorial indica amadurecimento econômico. O mercado lê como sinal de diversificação produtiva, maior densidade empresarial e redução da dependência de um único motor econômico", avalia.

"O Ceará passa a ser visto não como um polo industrial e empresarial isolado, mas como um ecossistema empresarial mais completo e competitivo. A presença na B3 não é só uma vitrine: exige governança, transparência, disciplina financeira e capacidade de prestar contas ao investidor", reforça. 

Leia nota da Aeris:

"Acreditamos que 2025 foi um ano de inflexão para a Aeris Energy. Mesmo diante de um cenário desafiador para o setor, avançamos de forma consistente na reestruturação financeira da companhia, com o reperfilamento da maior parte da nossa dívida e o alongamento de prazos, o que fortalece nossa previsibilidade financeira e a posição de caixa.

Ao mesmo tempo, ajustamos nossa operação ao nível de demanda, com disciplina na gestão de custos e foco em eficiência operacional. Essa adequação nos permite operar de forma mais enxuta, resiliente e preparada para capturar valor em um cenário de retomada que já apresenta sinais iniciais.

Também avançamos na diversificação das nossas receitas e ampliamos a visibilidade para os próximos anos, com novos projetos já contratados e um pipeline relevante em desenvolvimento. Seguimos confiantes de que as medidas adotadas reforçam a solidez da Aeris e elevam nossa competitividade para um novo ciclo de crescimento". 

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