Empresas do CE na Bolsa alternam entre prejuízo e lucro em 2025; veja quem subiu e caiu
Ao todo, oito empresas cearenses estão na B3.
Enquanto Aeris Energy (AERI3) e Hapvida (HAPV3) fecharam o ano de 2025 no vermelho, companhias cearenses como Grendene (GRND3), M. Dias Branco (MDIA3) e Pague Menos (PGMN3) sustentaram resultados positivos, conforme os balanços financeiros divulgados pelas empresas.
O desempenho mais crítico foi o da Aeris, que registrou um prejuízo de R$ 901 milhões. Na sequência, a Hapvida reportou um saldo negativo de R$ 237,6 milhões no acumulado do ano.
Já a Brisanet (BRIT3), embora tenha registrado prejuízo no quarto trimestre, encerrou o exercício com lucro de R$ 40,9 milhões. Entre as companhias listadas, a Pague Menos foi a única a obter resultados superiores aos de 2024, totalizando lucro de R$ 286,6 milhões.
Ao todo, o Ceará conta com oito empresas na B3, grupo que inclui também as companhias de capital aberto Enel Distribuição Ceará (COCE5) e Banco do Nordeste (BNBR3).
Veja também
Especialistas ouvidos pelo Diário do Nordeste atribuem esses resultados principalmente ao cenário internacional, apontado inclusive pelas próprias companhias como desafiador, com taxações e crises em determinados setores, como o de energia eólica.
Por outro lado, o cenário também mostra a resiliência e o crescimento do Ceará frente ao mercado financeiro nacional.
Aeris registra prejuízo de R$ 477 milhões no 4T
Das empresas cearenses listadas na B3, a Aeris é a que mais acumula insucessos financeiros devido à crise no setor eólico no Complexo do Pecém (Cipp). No quarto trimestre de 2025, a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 477,4 milhões, uma melhora frente aos R$ 832,9 milhões perdidos no mesmo período de 2024.
No acumulado anual, o prejuízo de 2025 superou R$ 901 milhões, levemente melhor que os R$ 933 milhões negativos de 2024, mas ainda distante dos lucros de anos anteriores.
Segundo o balanço, o resultado reflete a queda nos investimentos em parques eólicos, o que levou à desativação de seis das oito linhas de produção da fábrica. Com a produção para o mercado interno caindo 81% e zerando no último trimestre de 2025, a empresa quadruplicou sua demanda externa, que já responde por 56% da receita total.
Para o mercado internacional, foram registradas 64,7 mil pás no fechamento do ano. Para mitigar riscos e buscar estabilidade no caixa, a Aeris foca agora na expansão dos serviços de reparo e no aumento das exportações.
Em nota (leia texto completo abaixo), a a Aeris Energy definiu 2025 como um ano de reestruturação financeira e operacional, marcado pelo alongamento de dívidas e cortes de custos para ganhar eficiência. A companhia disse que aposta na diversificação de receitas e em novos projetos contratados para sinalizar uma retomada.
Tombos fortes no fim de 2025 causam prejuízos à Hapvida
Uma das maiores operadores de saúde do País, a Hapvida encerrou o ano passado no vermelho, derrubando lucros de 2024. O prejuízo líquido da companhia foi de R$ 237,6 milhões em 2025, frente a um resultado positivo de R$ 270,3 milhões no ano anterior.
No quarto trimestre de 2025, a Hapvida fechou com prejuízo de R$ 29,1 milhões, também revertendo o lucro líquido do ano anterior. A empresa atribuiu a queda nas receitas financeiras "ao consumo do caixa aplicado médio e menos dias úteis".
Em um único dia de novembro de 2025, a Hapvida perdeu R$ 7 bilhões em valor de mercado, a maior queda registrada desde a abertura de capital na B3. Toda essa instabilidade também veio impactada pelo número de clientes.
Só no ano passado, foram quase 140 mil a menos nos planos de saúde, principalmente na região Sudeste, onde a companhia ganhou mercado com a fusão com a NotreDame Intermédica.
O Diário do Nordeste demandou a Hapvida sobre os resultados, mas ainda não recebeu respostas. Em caso de retorno, este texto será atualizado.
Lucro da Brisanet cai 32%
Algumas empresas cearenses na B3 tiveram resultados até positivos, mas abaixo do desempenho de outros anos. No caso da Brisanet, o lucro em 2025 foi de R$ 40,9 milhões, redução de 32,73% em relação a 2024.
No quarto trimestre do ano passado, a empresa registrou prejuízo de R$ 24,2 milhões, revertendo o lucro do mesmo período do ano anterior.
Segundo relatório da Brisanet, o tombo é reflexo, principalmente, "de uma despesa tributária não recorrente relacionada ao pagamento de acordo de ICMS no Rio Grande do Norte".
Procurada, a Brisanet informou que não iria se manifestar sobre os resultados.
Lucro da Grendene cai 24,5%
Fundada no Rio Grande do Sul em 1971, a Grendene, que transferiu sua matriz para Sobral na década de 1990, também registrou lucros inferiores aos de anos anteriores.
Nos três últimos meses de 2025, a gigante do setor calçadista teve resultado líquido de cerca de R$ 250 milhões, 24,5% a menos do que no quarto trimestre de 2024. No ano, a empresa teve lucro de R$ 644,8 milhões, 12,3% a menos em relação a 2024.
A Grendene também foi procurada para comentar os detalhes dos balanços financeiros. Quando houver retorno das informações, este material será atualizado.
M. Dias Branco registra alta de 2%
Ao longo de 2025, a M. Dias Branco registrou uma leve alta de 2% no lucro líquido, acumulando aproximadamente R$ 660 milhões nos 12 meses. Segundo a companhia, a reestruturação da área comercial foi o fator crucial para a retomada do crescimento dos volumes vendidos no período.
No comparativo entre os quartos trimestres de 2025 e 2024, o lucro líquido da gigante de alimentos recuou mais de 10%, somando R$ 157,9 milhões, apesar de a empresa ter comercializado 10% mais produtos no mesmo intervalo.
A empresa reforça que seus três principais indicadores (receita líquida, lucro líquido e volume vendido) fecharam o ano com resultados positivos.
Segundo a M. Dias Branco, a reestruturação da área comercial foi crucial para retomar o crescimento dos volumes.
O que está por trás desses resultados
Para Guilherme Fiore, Head de Renda Variável da Pequod Investimentos, a situação da Aeris indica que a empresa está enfrentando um "cenário de estresse financeiro e operacional agudo".
Conforme o especialistas, perdas consecutivas dessa magnitude sinalizam que o modelo de negócios está vulnerável à falta de novos investimentos no setor eólico, o que tem gerado ociosidade nas fábricas e aumento nos custos de produção.
"A empresa também precisou reconhecer R$ 233,9 milhões em desvalorização de ativos no último ano, o que afasta investidores por indicar risco de liquidez e incertezas quanto à geração de caixa futura", explica.
Celso Sant'Ana, mestre em finanças e consultor de investidores e empresas, observa que a companhia cearense não é a culpada direta pelos resultados negativos, mas que a situação acaba gerando no investidor o que ele define como "espiral de desconfiança".
"Os investidores, ao perceberem que o ciclo negativo se repete, tendem a antecipar perdas e vender as ações antes de qualquer deterioração adicional — o que derruba ainda mais a cotação. O lado positivo é que a gestão reestruturou aproximadamente 90% do seu endividamento, conferindo previsibilidade de caixa para atravessar o ciclo de baixa. Isso mostra racionalidade estratégica mesmo sob pressão", observa.
O impacto do tarifaço
Sobre a Grendene, M. Dias Branco e a Aeris, Fiore avalia que elas foram impactadas pela sobretaxação imposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre os produtos brasileiros, o que obrigou as empresas cearenses a adotarem medidas que causaram impactos diretos na lucratividade.
De acordo com ele, "a tarifa encarece artificialmente os produtos brasileiros no mercado norte-americano, espremendo as margens de lucro quando as empresas precisam absorver o custo para não perder clientes, ou derrubando o volume de vendas por perda de competitividade".
"A M. Dias Branco, por exemplo, registrou queda de 5% na receita internacional em 2025 especificamente devido à redução nas exportações para os EUA após a medida", comenta o especialista.
Essas fortes oscilações impactam o retorno do investimento, reduzindo o pagamento de dividendos e gerando maior volatilidade no preço das ações. Como a empresa tem sofrido com o alto custo de insumos e com o recente tarifaço, foi forçada a adotar medidas para controlar despesas, incluindo fechamento de fábrica e demissão de funcionários, o que gera incerteza no mercado financeiro".
No caso específico da M. Dias Branco, Celso Sant'Ana aponta que a redução dos lucros da empresa em balanços trimestrais cria a "ansiedade de posição" nos investidores, que se veem receosos de segurar ou de vender as ações.
O especialista acrescenta que a queda de margens em um ano chama atenção do mercado e sugere aumento de custos ou menor poder de repasse de preços.
"Quando isso se torna recorrente, o investidor racional começa a questionar a tese de investimento. O risco aqui não é só financeiro, é comportamental: o investidor que entra em pânico e vende realiza prejuízo que poderia ser temporário", esclarece.
Lucro da Pague Menos dispara
Enquanto as outras cinco empresas cearenses estão com desafios operacionais, a Pague Menos pôde encerrar o ano com resultados financeiros históricos e bem perto das 1,7 mil lojas, se aproximando da vice-líder do mercado farmacêutico nacional, posição hoje ocupada pela paulista Drogarias Pacheco.
No quarto trimestre do ano passado, a maior varejista do Ceará teve lucro líquido de R$ 132,7 milhões, 72,2% a mais do que o mesmo período de 2024. Em 2025, o resultado foi ainda mais expressivo: lucro líquido de R$ 286,6 milhões, disparada de 88,5% em relação ao ano anterior.
No balanço financeiro, a Pague Menos frisa que os bons resultados estão ligados ao desempenho das chamadas mesmas lojas, abertas há mais de um ano, que chegaram próximo dos 20% a mais de vendas na comparação com trimestres anteriores.
Os resultados são vistos por Guilherme Fiore como naturais e processo de "resiliência do mercado interno brasileiro no setor de saúde e bem-estar".
"Diferente das indústrias exportadoras, as redes de farmácias comercializam itens de necessidade básica, cuja demanda é inelástica e imune a guerras comerciais externas. O sucesso recente foi tracionado pela expansão da participação de mercado nacional e pelo forte avanço nas vendas digitais, que já representam 21% do faturamento da empresa", aponta.
Conforme Celso Sant'Ana, a Pague Menos se torna um exemplo de lição estratégica ao adotar conceitos similares ao de investidores de renda variável que pulverizam os investimentos, bem como ter disciplina para reduzir a alavancagem - usar dinheiro emprestado para aumentar o potencial de retorno de investimentos.
"A Pague Menos cresceu 7,5 pontos percentuais acima da média de mercado em 2025, evidenciando crescimento mais estruturado e menos dependente de expansão física. É mentalidade de longo prazo com disciplina emocional: não reagir a cada crise com decisões impulsivas, mas construir uma estrutura resiliente que aguenta os ciclos adversos sem romper", reforça.
Mesmo com oscilações, mercado cearense é um dos mais influentes, afirma especialista
Eldair Melo, membro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), analisa que o Estado possui uma posição privilegiada dentro do Nordeste. Com empresas dos mais diversos segmentos, o especialista enfatiza que o território cearense é uma vitrine de multinacionais.
"Essa pulverização setorial indica amadurecimento econômico. O mercado lê como sinal de diversificação produtiva, maior densidade empresarial e redução da dependência de um único motor econômico", avalia.
"O Ceará passa a ser visto não como um polo industrial e empresarial isolado, mas como um ecossistema empresarial mais completo e competitivo. A presença na B3 não é só uma vitrine: exige governança, transparência, disciplina financeira e capacidade de prestar contas ao investidor", reforça.
Leia nota da Aeris:
"Acreditamos que 2025 foi um ano de inflexão para a Aeris Energy. Mesmo diante de um cenário desafiador para o setor, avançamos de forma consistente na reestruturação financeira da companhia, com o reperfilamento da maior parte da nossa dívida e o alongamento de prazos, o que fortalece nossa previsibilidade financeira e a posição de caixa.
Ao mesmo tempo, ajustamos nossa operação ao nível de demanda, com disciplina na gestão de custos e foco em eficiência operacional. Essa adequação nos permite operar de forma mais enxuta, resiliente e preparada para capturar valor em um cenário de retomada que já apresenta sinais iniciais.
Também avançamos na diversificação das nossas receitas e ampliamos a visibilidade para os próximos anos, com novos projetos já contratados e um pipeline relevante em desenvolvimento. Seguimos confiantes de que as medidas adotadas reforçam a solidez da Aeris e elevam nossa competitividade para um novo ciclo de crescimento".