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Por que o Ceará pode se tornar um polo de data center de mineração de criptomoedas do País?

Estado atrai investimentos por excesso de geração e complementaridade de fontes renováveis.

Escrito por
Redação producaodiario@svm.com.br
Foto de equipamentos internos de data center de criptomineração.
Legenda: Com excesso de geração de energia, Ceará pode receber investimentos de data center de criptomineração.
Foto: Artie Medvedev/Shutterstock.

O excesso de geração de energia no Ceará é atrativo para empreendimentos que operam com grande demanda energética, como os data centers. O Estado deve receber investimentos de um segmento específico: os data centers voltados para a mineração de criptomoedas.

As estruturas atuam no processamento e validação das criptomoedas, como o bitcoin. O excedente de energia coloca o Estado como potencial polo de crescimento desses empreendimentos, considerando que a capacidade instalada de geração é de 6,2 GW, enquanto o consumo é de cerca de 1,65 GW.

Esse segmento do processamento de dados está entre os focos da Empresa de Tecnologia da Informação do Ceará (Etice), com negociações em fases de prospecção.  

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Algumas empresas avaliam a infraestrutura tecnológica e energética para instalar operações no Estado, destaca Hugo Figueiredo, presidente da empresa. 

"O excedente de energia renovável — especialmente de fontes eólica e solar — é um dos principais diferenciais competitivos do Ceará para atrair investimentos em data centers, processamento de inteligência artificial e mineração digital", avalia.

O objetivo é atrair empreendimentos que operem com padrões elevados de eficiência energética e sustentabilidade, como sistemas de resfriamento em ciclo fechado, que reduzem o consumo de água.

Hugo Figueiredo destaca a forte extensão da infraestrutura de conectividade do Estado, com o hub de cabos submarinos, 5.942 km de extensão de fibra óptica e expansão prevista da capacidade para 400 Gbps.

Entenda o que é um data center de mineração de criptomoedas

São infraestruturas especificamente utilizadas para a mineração de criptomoedas, que são as operações matemáticas necessárias para a validação das criptomoedas. Os data centers de mineração de cripto também são conhecidos como fazendas de mineração de criptos.

Segundo relatório "White Paper Data Centers", publicado pela Anatel em 2025, esses equipamentos possuem necessidades de equipamentos muito específicas para realizar o processamento necessário à mineração e operam com requisitos de energia extremamente elevados e específicos, sendo apontados, junto com a IA, como um dos motores do crescimento inédito na demanda global por eletricidade.

A atividade de mineração de Bitcoin tem crescido no Brasil exatamente diante da busca das indústrias que aproveitaram o excedente de energia, já que a produção dessas moedas consome muita energia. 

prejuízo do setor renovável com os cortes de geração superou R$ 6,5 bilhões em 2025, segundo levantamento da Volts Robotics. O fenômeno ocorre desde outubro de 2021.

Em quatro anos, as usinas do Ceará já desperdiçaram quase 3,3 milhões de megawatts-hora (MWh), o suficiente para abastecer 16,5 milhões de casas por um mês.

GIGANTE CEARENSE TEM ACORDOS NO SEGMENTO

A Casa dos Ventos, gigante cearense das energias renováveis, firmou acordo com uma empresa de processamento de criptomoedas para destinar parte da sua infraestrutura para este segmento. 

A empresa deve acoplar um data center de mineração a uma de suas usinas no Nordeste, utilizando-o como consumidor de energia caso o equipamento precise interromper a geração por determinação do Operador Nacional do Sistema (ONS).

A expectativa é que o projeto se escale em outros empreendimentos. 

"Nesse caso, a Casa dos Ventos aluga a infraestrutura para o investidor do data center, para que coloque os servidores para processar as aplicações. O que existe é um contrato de longo prazo, com garantias para o uso do Data Center", explica Eduardo Tude, especialista em telecomunicações e presidente da consultoria Teleco. 

Há uma concentração dessas infraestruturas no Texas, nos Estados Unidos, segundo Eduardo Tude. Ele aponta que o funcionamento é semelhante ao de um data center convencional, com os mesmos impactos ambientais, a depender do porte. 

O sucesso da parceria pode atrair novos investidores para a região e para o Ceará, projeta Rodrigo Porto, professor titular de Telecomunicações da Universidade Federal do Ceará (UFC).

O especialista lembra que esse movimento ocorreu na Praia do Futuro, em Fortaleza, que se tornou um polo de data centers mais tradicionais. 

IMPACTO ECONÔMICO PODE NÃO SER SIGNIFICATIVO, DIZ ESPECIALISTA

Além do excesso de energia, a complementariedade de fontes renováveis (solar e eólica) torna o Estado o "lugar ideal" para esse tipo de investimento, avalia Adão Linhares, diretor do Sindienergia Ceará.

"Diferente de uma fábrica tradicional, a mineração de cripto é uma 'carga flexível'. Ela funciona como um pulmão para o sistema: consome o excedente de energia quando há sol e vento sobrando e pode ser desligada instantaneamente se o sistema precisar de alívio. Isso traz receita para os geradores locais e estabilidade para a rede elétrica do Ceará", destaca.

O representante do setor pondera, entretanto, que o nicho não tem impacto econômico significativo, como o identificado com chegada de outras indústrias.

"Precisamos ser realistas: a criptomineração não gera milhares de empregos diretos como uma indústria manufatureira, mas ela monetiza o recurso natural cearense de forma digital. É uma forma de o Estado exportar valor sem precisar de estradas ou portos sobrecarregados", aponta. 

A visão é compartilhada por Rodrigo Porto, que lembra que o modelo de negócio da criptomineração é focalizado. Os data centers de hiper escala, entretanto, podem ter caráter estruturante. 

"Comparado ao data center da Bytedance (controladora do TikTok), aparentemente será uma operação com menor envergadura, então não devem ter dificuldades técnicas. É um segmento a mais, voltando para a economia digital", acrescenta. 

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