Por que o Canadá pode ser o próximo grande destino direto do Nordeste

Escrito por
Igor Pires igor.aer.ita@gmail.com
Legenda: A geografia favorece o Ceará.
Foto: Kid Junior

Durante anos, falar em voos diretos entre o Canadá e o Nordeste brasileiro era impensável. Nem mesmo o Rio de Janeiro, segunda maior cidade do País, manteve ligações regulares recentes — a Air Canada operou a rota entre 2014 e 2016 e só retornou ao fim de 2025. Essa equação, porém, mudou.

O contexto principal responsável por essa virada é tecnológico: o Airbus A321XLR. Trata-se de uma aeronave que redefine o conceito de longo curso ao permitir voos intercontinentais em aeronave de um corredor e capacidade aproximada de cerca de 180 passageiros — um tamanho ideal para mercados secundários.

Motor de última geração, custos menores e alcance de até 7.200 km fazem dele o avião certo para abrir rotas que antes exigiam aeronaves muito maiores.

O impacto do XLR no Nordeste já deixou de ser teórico. A Iberia demonstrou rapidamente o potencial da aeronave com voos simultâneos para Recife e Fortaleza entre o fim de 2025 e o início de 2026, com resultados que já se traduzem em expansão de frequências.

A Latam também deverá ingressar com o avião em voos transatlânticos a partir de Fortaleza.

Companhias canadenses como Air Canada e Air Transat começarão a receber boas quantidades do A321XLR já em 2026. Se o avião se provou oportuno para voos ao leste do Nordeste (Madri e Lisboa com o A321 LR), seria assimétrico e improvável que não o fosse para o oeste, em direção ao Canadá.

Por que Fortaleza sai na frente?

A geografia favorece o Ceará. Os voos entre Fortaleza e Toronto ou Montreal percorrem aproximadamente 6.400 a 6.600 km, distâncias dentro do alcance do XLR (veja abaixo). 

Recife e Salvador já se aproximam ou ultrapassam o limite operacional da aeronave para essas rotas, o que penalizaria carga e faturamento.
Isso não impede, teoricamente, que essas cidades sejam servidas por aeronaves de dois corredores. Mas a conta é mais difícil de fechar.

  • Montreal - Fortaleza: ~6.400–6.500 km (dentro do envelope do XLR) 
  • Toronto - Fortaleza: ~6.600 km (dentro do envelope do XLR) 
  • Montreal - Recife: ~7.100 km (limite do envelope do XLR) 
  • Toronto - Recife: ~ 7.300 km (fora do envelope do XLR) 
  • Montreal - Salvador: ~7.400 km (fora do envelope do XLR) 
  • Toronto - Salvador: ~7500 km (fora do envelope do XLR) 

Três fatores que explicam o momento

O primeiro fator é tecnológico, já explicado acima. O segundo vem da macroeconomia: em um cenário de petróleo pressionado para cima por tensões geopolíticas, operar aeronaves de grande porte com baixa ocupação se torna cada vez menos viável. 

A conta de um widebody de 300 assentos só fecha com alta taxa de ocupação. O A321XLR ganha o jogo por ser menor, mais eficiente e de menores custos associados.

O terceiro fator é comportamental e geopolítico. Uma combinação de fatores vem alterando os fluxos tradicionais de turismo canadense, reduzindo o apetite por destinos nos Estados Unidos (o chamado efeito Trump)  e, em certa medida, até na Europa. 

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A própria Embratur reconheceu a mudança. "Como eles deixaram de viajar tanto para a Europa quanto para os Estados Unidos, e gostam de resorts, sol e praia, eu acelerei as ações no Canadá", afirmou Bruno Reis, presidente da agência. 

Fortaleza e Jericoacoara foram mencionados como destinos promissores. O Canadá reúne um perfil de turista particularmente valioso: alto poder aquisitivo, permanência prolongada e forte demanda por sol e praia durante o inverno. 

Esse mesmo perfil já sustenta fluxos intensos para o Caribe e o México. Por ora, os canadenses são apenas a 13ª nacionalidade a visitar o Brasil.

Cresce ainda um segundo pilar: o tráfego de visitas a amigos e parentes. A comunidade brasileira no Canadá, especialmente em Toronto e Montreal, vem se expandindo de forma consistente e inclui presença relevante de nordestinos.

Os sinais das companhias aéreas

A Air Canada já mapeou o Nordeste há algum tempo. No Investor Day de 2024, Fortaleza apareceu destacada como oportunidade de crescimento internacional e poucos meses depois a companhia transformou sinal semelhante em realidade ao anunciar o retorno ao Rio de Janeiro. 

Um executivo da empresa reforçou recentemente saber "que o Brasil vai além de São Paulo e Rio" e que novos destinos estão sendo avaliados, com anúncios previstos "no momento certo". 

A Air Transat segue caminho parecido, reavaliando sua presença nos EUA e ampliando o foco no Brasil. Não tenho dúvidas que o gigante mercado nordestino encherá aeronaves em busca de turistar pelo Canadá.

Pedimos comentários para as companhias aéreas, mas até a publicação desta coluna não recebemos retorno. O espaço segue aberto.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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